
Demétrio VecchioliColunas

Medalhista brasileiro é suspenso do esporte por corrupção
Israel Stroh é acusado de “conduta corrupta” e de realizar 68 apostas, o que é proibido pelo código de ética do tênis de mesa
atualizado
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O medalhista paralímpico de tênis de mesa Israel Stroh, atleta da Hebraica e do Time São Paulo, foi suspenso por quatro anos pela Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTF) por corrupção no esporte. Ele recorre da decisão.
Stroh é acusado de “conduta corrupta” antes da partida final de duplas do Aberto da Polônia de 2024 na categoria MD14. O brasileiro foi campeão ao lado do espanhol Jordi Morales, mas um dos participantes da partida denunciou-o à comissão de ética da ITTF alegando que Israel propôs uma manipulação de resultados visando a classificação para os Jogos Paralímpicos de Paris. O brasileiro diz que não há provas de que isso tenha acontecido.
Durante as investigações, a ITTF descobriu 68 apostas realizadas por Israel Stroh entre março de 2022 e abril de 2024, o que fere o código de ética da modalidade — atletas não podem apostar. O jogador alega que desconhecia essa proibição.
Por isso, Israel foi suspenso por dois anos por “conduta corrupta” e recebeu 68 suspensões de dois anos por apostar, que serão cumpridas simultaneamente. Na prática, ele fica proibido de competir até junho de 2029.
O brasileiro chegou a ser suspenso provisoriamente em 2024, mas conseguiu uma liminar na Corte Arbitral do Esporte (CAS/TAS) para disputar os Jogos Paralímpicos de Paris. Durante a competição, apresentou sua defesa no processo negando as acusações. Em janeiro de 2025, ele foi suspenso provisoriamente por mais seis meses.
Tudo isso só se tornou conhecido agora, quase um mês após a suspensão de quatro anos ser aplicada em dezembro e o brasileiro apelar à CAS contra a punição. Os detalhes sobre a acusação só serão conhecidos após o CAS decidir sobre o recurso.
Israel, de 39 anos, trabalhava como jornalista esportivo quando descobriu que era elegível como atleta paralímpico. Em 2016, no Rio de Janeiro, se tornou o primeiro brasileiro a conquistar medalha paralímpica no tênis de mesa.
O jogador se posicionou em longa nota à imprensa, publicada abaixo.
Em maio de 2024, fui notificado pela ITTF de que havia uma denúncia contra mim por suposta oferta de vantagem para que eu vencesse uma partida importante de classificação para os Jogos de Paris2024. Desde o início, garanto que essa acusação é mentirosa. Obviamente, nunca houve prova disso nestes 20 meses de processo em curso, em que sempre fui solícito ao processo.
A acusação foi feita com base em depoimentos de três pessoas, sendo um atleta, o belga Ben Despineux, seu técnico, Nico Vergeylen, e seu então companheiro de duplas, o norueguês Krizander Magnussen. Os três deram uma entrevista e a ITTF acreditou. Simples assim! Sem provas, sem material de apoio, nada!
Eu ganhei a vaga ao ser campeão do torneio de duplas na Polônia, ao enfrentar exatamente esses dois adversários e este técnico em questão. Vitória limpa, como todas em minha carreira. Eles disseram que eu ofereci vantagem para perderem a partida para mim, o que é absolutamente mentira. Do lado belga, havia uma raiva com as regras que deram legitimamente a mim a vaga que eles julgavam ser deles, e do lado norueguês, provavelmente amizade com eles ou rusgas normais de uma partida. Em hipótese alguma houve vantagem, tanto que nunca foi e nem será apresentado.
Curiosamente, o próprio Despineux, em 2023, seguindo sua leitura do regulamento sobre suas chances de classificação para os Jogos de Paris, pediu para que eu perdesse a final dos Jogos Panamericanos de propósito, alegando que seria bom para todo mundo. Eu perdi, obviamente que apenas por questões técnicas e naturais do jogo. Mas aquele pedido foi apresentado ao processo e simplesmente ignorado pela ITTF. Tanto pela Unidade de Integridade, que fez a denúncia, quanto pelo Tribunal interno que julga o caso.
Fato é que a acusação e o Tribunal da ITTF tinham uma PROVA de que ele falou o seguinte para mim, e muito estranhamente foi ignorado:
“Nós não seremos concorrentes em duplas nos Jogos de Paris. E em simples, nós somos grandes amigos e que vença o melhor, ou você ganha como sempre”.
O adversário em questão, não só deixou de ser investigado, como foi testemunha no processo, teve sua palavra acreditada e ainda, DEPOIS que a prova foi apresentada, ganhou o convite (wild card) para participar dos Jogos. Sim, ele não se classificou, foi convidado!
CONTEXTO
À título de ilustração, o Aberto da Polônia, em março de 2024, foi cercado de insatisfações. Em particular, uma mudança, ou atualização, abrupta da regra mexeu com a chance de classificação de alguns jogadores. Em particular com as de Despineux. O texto da regra dizia que havia duas vagas pelo ranking de duplas, e o raciocínio lógico dizia ser para os dois primeiros jogadores.
Em janeiro, logo, dois meses antes do fechamento da lista (final de março), a regra “atualizou” e passou a destinar a vaga para as duas melhores duplas. Como Despineux, belga, não tinha um parceiro compatriota, ficou fora da disputa, ainda que alcançando a liderança do ranking. Assim, países estavam incomodados e a própria ITTF geriu mal prazos e regulamentos.
APOSTAS ESPORTIVAS
Eu também estou sendo acusado por ter feito apostas esportivas, o que a ITTF classifica como ilegal. No entanto, além de não haver nenhum ganho relevante nessas atividades, não houve nada que de fato fosse contra a integridade do esporte. Nunca apostei em jogos meus, nem de amigos, nem em jogos que estivesse presente, nem como espectador. E não é só isso. Até porque os jogos paralímpicos sequer entram no mercado de apostas e os calendários são absolutamente independentes.
A ITTF, que até o final de 2024 tinha um site específico para atletas paralímpicos, nunca publicou esta proibição para os paratletas, NUNCA. Na decisão judicial, ela diz que eu era obrigado a ter visto no site para os atletas olímpicos. Além de contraintuitivo, no mínimo, isso viola o devido processo legal e a Convenção da ONU para Pessoas com Deficiência, que exigem adaptação e igualdade formal e MATERIAL, o que não houve.
Dito isso, quero informar que este processo está em curso há mais de 20 meses, com certeza os piores da minha vida. Estou lutando inclusive contra os piores pensamentos possíveis, mas principalmente por justiça. O desejo por Justiça se sobrepõe, infelizmente, ao desejo por me manter vivo e atuante no esporte. Mas não vou permitir que destruam meu nome e minha carreira.
