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Demétrio Vecchioli

Master fez ao menos R$ 1,1 bilhão em operações bate-volta com Tanure

Banco emprestava milhões a empresas de Tanure e, no mesmo dia, dívida era assumida por fundos "caixa preta"

24/07/2026 02:00
Arte Metrópoles
Master fez ao menos R$ 1,1 bilhão em operações bate-volta com Tanure

O Banco Master realizou ao menos R$ 1,112 bilhão em operações em que emprestava dinheiro a empresas ligadas ao investidor Nelson Tanure e, em até uma semana – na maior parte dos casos, no mesmo dia – repassava o crédito para fundos “caixa preta”, quase todos criados exclusivamente para concentrar dívidas do empresário. Os beneficiários finais destes fundos (para quem Tanure passava a dever) não são conhecidos. Também não é possível saber se os empréstimos foram quitados.

Em ao menos um dos casos, a dívida rapidamente se transformou em ativo do Master. Em outro, o dinheiro foi parar em CDB do banco. A coluna também localizou situações em que os fundos passaram a registrar calotes já no mês seguinte à operação. Auditorias independentes se abstiveram de emitir opiniões porque não encontraram lastros para as transações.

As operações funcionavam assim:

– Primeiro o Master registrava ter emprestado dezenas de milhões de reais para uma empresa de Tanure.
– No mesmo dia, em alguns casos até cinco dias depois, recebia igual valor de um fundo e, diante do Banco Central, dava a dívida como quitada.
– O empresário então passava a dever para esse fundo, em relação que passa à margem do sistema bancário e dos órgãos de controle.

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A Polícia Federal aponta que esse tipo de transação era utilizada por Daniel Vorcaro para drenar recursos do Banco Master para seu grupo – suspeita-se que Tanure fosse sócio oculto do banco, o que ele sempre negou. Tanto que os créditos concedidos a Tanure e logo revendidos constam em planilha juntada pelo liquidante do banco em processo judicial em que acusa o banqueiro de usar exatamente esse expediente para tirar dinheiro do Master e repassá-lo a seu pai, Henrique Vorcaro.

A coluna procurou as assessorias de imprensa de Vorcaro e Tanure, que não responderam.

Bate-volta de mais de R$ 1 bilhão em três anos

A planilha mostra que as operações bate-volta com empresas ligadas a Tanure vêm desde 2022, pelo menos. Em 6 de maio daquele ano, o Master emprestou R$ 15,2 milhões à Gafisa e, no mesmo dia, cedeu o crédito para a Lermont Participações, veículo de investimentos de Tanure. No final de junho, emprestou R$ 86 milhões para a própria Lermont e vendeu os créditos, logo em seguida, para um fundo que concentra exclusivamente dívidas de Tanure, o Mingard.

No total, só em 2022 o Master registrou ter vendido R$ 159 milhões em carteiras relativas a empréstimos tomados até uma semana antes (a maioria no mesmo dia) por três empresas ligadas a Tanure: Gafisa SA, Milos Participações e Lormont. A prática se expandiu em 2024, com o Master registrando R$ 774 milhões em operações bate-volta só com a Lormont.

Boa parte disso – R$ 463 milhões – foi comprado no mesmo dia pelo fundo Genicart, um fundo FIDC administrado pela Reag e criado especificamente para comprar aquelas dívidas da Lormont. O fundo tinha um único cotista e informou, já no seu primeiro relatório trimestral, uma alienação de R$ 62 milhões porque o crédito “possui uma baixa perspectiva de recuperação” – logo, que não havia esperança de que Tanure pagasse pelo empréstimo tomado dois meses antes. Reportando valores crescentes de inadimplência, o fundo foi liquidado em dezembro de 2025.

Operação semelhante envolveu outro fundo administrado pela Reag, o Yvrac, que em maio de 2025 comprou R$ 115 milhões em dívidas de três empresas de Tannure com o Master, entre elas o Lormont. Quatro meses depois, o fundo foi repassado pelo Master ao BRB como compensação pelas carteiras podres vendidas antes pelo banco de Daniel Vorcaro.

Análise da área jurídica do BRB, obtida pela coluna, mostra que o fundo, naquele momento, era 100% composto por ações da Alliança Saúde, empresa na qual Tanure investia via Lormont. Ou seja: o empréstimo do Master à Lormont, seguido de compra da divida pelo fundo Yvrac, serviu, na prática, para o Master comprar ações de Tanure na Alliança Saúde, sem que aparecesse como beneficiário final delas. Hoje, 10,9% das ações da companhia estão com o Yvrac.

Operações passaram a dar prejuízo para o Master

Até 2024, as operações envolvendo o Master eram sempre “elas por elas”. O banco registrava ter emprestado determinado valor a empresas de Tanure e, no mesmo dia, marcava ter recebido esse mesmo montante de um fundo. No auge da crise financeira do Master, porém, isso mudou, para operações economicamente injustificáveis, que davam enorme prejuízo ao banco.

Dois exemplos: no mesmo dia que emprestou R$ 64,8 milhões à construtora Gafisa, o banco deu a dívida quitada após receber R$ 43,7 milhões do fundo Yvrac. Em outra operação, três dias depois, emprestou R$ 66,2 milhões à Sercomtel, operadora de telefonia do Paraná, e, ato contínuo, cedeu o crédito por R$ 47,1 milhões.

No total, entre 5 e 25 de setembro de 2025, o banco emprestou R$ 179 milhões a empresas de Tanure, a partir de 10 operações, vendendo o crédito sempre no mesmo dia ao Yvrac, com deságio. Em um mês, o Master perdeu R$ 41 milhões com essas transações, em momento em que o banco necessitava desesperadamente de capital e liquidez.

Comprados pelo Yvrac em setembro, os créditos relativos a dívidas da Gafisa e da Sercomtel, principalmente, já não estavam na carteira do fundo no mês seguinte, quando o Yvrac foi oferecido pelo Master ao BRB.

Outra movimentação incomum envolveu o Bouliac, que era um fundo multimercado e virou FIDC para comprar R$ 304 milhões em dívidas da Ligga Telecomunicações e da Lormont com o Master, em junho de 2025. Dois meses depois, reportando R$ 237,1 milhões em créditos inadimplentes, o único acionista decidiu transformar o FIDC em um FIP Multimercado, o que permitia ao fundo passar a ser acionista das empresas devedoras, todas de Tanure.

Auditores não encontram lastros das transações

Comprador de R$ 98 milhões em dívidas da Lormont com o Master, o fundo Midgard foi criado para concentrar três créditos devidos por Tanure a partir deste e de outro veículo de investimentos dele, a Milos Participações. Em 2023, essas dívidas foram repassadas a outro fundo exclusivo para este fim, o Ravena FIDC.

Ao analisar os documentos do Ravena, a auditoria RSM Brasil se absteve de emitir opinião tanto em 2024 quanto em 2025, justificando que não obteve evidências suficientes para avaliar o valor justo e a recuperabilidade dos ativos que compõem quase a totalidade do patrimônio do fundo, adminstrado e gerido pela Trustee de Maurício Quadrado, outro alvo da Operação Carbono Oculto. Do valor de face dos créditos, R$ 369 milhões, só R$ 53 milhões foram quitados, segundo o fundo.

Também dedicado a concentrar dívidas de Tanure, o fundo MAM Tokyo, administrado pela corretora do Master, comprou, entre outros, uma cédula de crédito bancária de R$ 32,7 milhões emitida pelo banco contra a Milos Participações dois dias antes, com vencimento para novembro daquele ano de 2022. Quando o empréstimo foi pago, o fundo investiu R$ 31 milhões em CDBs do Master. Ou seja: o Master, que captava dinheiro a partir de CDB, emprestou para Tanure, foi pago pelo fundo três dias depois e, quando Tanure pagou o fundo, o dinheiro voltou exatamente para um CDB do Master.

Desde então, todos os investimentos do MAM Tokyo relatados à CVM têm alguma relação com Tanure e/ou o Master. Na lâmina mais recente, de junho de 2025, o fundo tinha R$ 58 milhões em “títulos ligados ao agronegócio” da Milos e R$ 18 milhões em um título do Master.

Além desses, outros dois fundos foram usados para comprar dívidas do investidor com o Master. Um deles, o Astralo 95, da Reag, está no centro da Carbono Oculto e é apontado pela Polícia Federal como parte do esquema de fraude capitaneado por Vorcaro. O outro é o SDG II, que a Folha já apontou ter sido usado para esconder dívidas de empresas ligadas ao Master.