Demétrio Vecchioli

Guincheiros dizem que Tarcísio passa o trator no setor e causará 20 mil demissões

Governador Tarcísio de Freitas lançou edital para concessão de pátios veiculares e deve entregar setor a grandes grupos econômicos

atualizado

metropoles.com

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Divulgação/governo de São Paulo
Pátio cheio de veículos
1 de 1 Pátio cheio de veículos - Foto: Divulgação/governo de São Paulo

Empresários e trabalhadores do setor de guinchos, que deram grande apoio à eleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo do Estado, agora acusam o governador de “passar o trator” sobre eles para viabilizar a concessão de pátios veiculares para grandes grupos econômicos. Sindicatos apontam que 50 mil pessoas perderão seus trabalhos.

“Nós trabalhamos por ele. Tinha guincho puxando pallet de panfleto. nós trabalhamos em campanha para o Tarcísio. Ele traiu todos que o apoiaram. Não tem prefeito contente com ele, nenhum deputado está contente. Ele quebrou o sistema. É ele, é ele, é ele. Ele liga o trator, não existe democracia com ele”, reclama Lázaro Fernando de Carvalho, líder da Associação dos Proprietários de Pátios e Guinchos do Estado de São Paulo (Apagesp).

A concessão dos serviços de remoção, guarda, liberação e preparação de leilão de veículos envolve, na prática, os pátios para onde são levados os veículos apreendidos pelo Detran e pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). Atualmente o estado tem 237 desses pátios, a maior parte deles de pequenos empresários. O edital lançado em janeiro tem sete lotes, com previsão de 125 pátios, no total.

A Apagesp reclama que o modelo foi desenhado propositalmente para excluir os empresários que historicamente trabalham no setor, à medida que o edital exige comprovante de experiência prévia com gestão/administração de ativos que tenham gerado receitas em torno de R$ 8 milhões por ano. Os valores são incompatíveis com o ramo. A expectativa é que os lotes sejam disputados por grandes grupos como a Motiva (ex-CCR, concessionária de estradas), a JSL (antiga Julio Simões, do setor de logística) e a CLD (gestora do Smart Sampa).

“Fizemos umas 40 perguntas nas audiências públicas, presencialmente e no chat conforme eles pediram. Nenhuma nunca foi respondida. Nunca nos ouviram. Investimos valores significativos para formular um projeto, que foi entregue na SP Parcerias, no Palácio dos Bandeirantes, na Assembleia Legislativa, na Polícia Civil e no Detran. Não tivemos nenhuma resposta”, reclama Carvalho.

Ligaram o trator de esteira, botaram fone de ouvido e estão massacrando tudo. Enquanto a gente conversava de um lado, o Tarcísio foi tocando a lenha do outro. Ele é um trator e foi amassando“, comenta Ronaldo Eger, do sindicato dos proprietários de guinchos.

Patrões e funcionários unidos em críticas a Tarcísio

O edital uniu os sindicatos patronais de pátios (Apagesp) e de guinchos (Segresp) ao sindicato dos guincheiros (Singuesp), que vêm protestando contra a concessão e prometem grandes atos até o dia 29 de abril, data prevista para a licitação.

As críticas vêm desde o início do processo. O Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) foi contratado sem licitação para realizar os estudos viabilidade econômica e definição de modelo de negócios para a concessão. O banco já havia sido o responsável pelo edital do Paraná, considerado pioneiro no país.

Lá, os pátios são administrados pela Polícia Militar e estão sendo privatizados, divididos em dois lotes. Venceu quem ofereceu maior desconto para o usuário (o proprietário de um veículo apreendido). “Quem ganhou foi o cidadão, inclusive porque houve aumento no número de pátios. Em São Paulo vai diminuir, não faz sentido”, diz Carvalho, que arrematou um dos lotes paranaenses.

Os sindicatos dizem que, em São Paulo, o custo para os motoristas vai subir. O próprio estudo do BRDE teria apontado aumento de 17% no custo de remoção de veículos leves e de 300% para caminhões. Além disso, com menos pátios pelo estado, diminuirá também o número de cidades atendidas. “Quem teve o carro apreendido vai ter que sair da sua própria cidade, sem o carro, para ir para outra cidade. Aumenta ainda mais o custo para alguém que já está em dificuldade financeira”, comenta Ronaldo Eger.

O estado nega que o edital seja prejudicial ao cidadão. Alega que a concessão estabelece metas de cobertura regional, determinando que 90% dos veículos recolhidos sejam encaminhados a pátios localizados em até 30 quilômetros do ponto de apreensão, o que contribui para reduzir custos logísticos e otimizar o atendimento aos usuários – leia nota da secretaria ao final da reportagem.

Pátios dizem estar lotados

O setor tem reclamado também que, enquanto prepara a concessão, o estado tem deixado os pátios cada vez mais lotados de veículos. Se antes eram realizados em torno de 40 leilões por ano, desde que Tarcísio assumiu o governo estadual, em 2023, só foram realizados oito. Assim, hoje, 300 mil veículos estão se deteriorando nos pátios espalhados pelo estado.

Pelo edital, os atuais donos de pátios continuarão responsáveis por esses veículos após a finalização do processo de concessão, agora sem terem receitas contínuas, já que perderão as taxas pagas pelos proprietários que quitam os débitos e retiram seus veículos.

De acordo com Carvalho, haverá quebra generalizada dos pátios, impactando diretamente também prefeituras. “O município concede o serviço de pátio, que recebe veículos apreendidos pela Guarda Civil, Detran e PRF. A empresa, ao pegar a concessão, considerou todas essas receitas, mas vai ficar só com a Guarda Civil. Ela vai quebrar e a prefeitura vai ter que indenizar, vai ter que encampar. Hoje várias prefeituras usam o dinheiro da concessionária para pagar pintura de faixa de trânsito, trocar viatura, fardar policial. Vai quebrar toda uma cadeia. Vai quebrar também quem presta serviço para os pátios, toda a economia indireta. Mais de 400 empresas vão quebrar.”

Tarcísio tem criticado publicamente o setor, alegando que o modelo atual gera “ônus excessivo” para o usuário. “É lógico que eles não têm interesse que a gente faça concessão para a iniciativa privada. A gente quer garantir que esses veículos que eventualmente vão ficar no pátio tenham, de fato, a proteção que precisam ter. A gente quer que esse serviço seja mais barato. Então, a gente quer aumentar a eficiência, eliminar o descaminho. Por isso que a gente vai fazer uma grande concessão para evitar, justamente, perda de recursos, para evitar um ônus excessivo para o usuário, para evitar descaminho, para evitar problemas outros. E é lógico que aí tem reação daqueles que operam o sistema”, disse o governador, em julho, em uma agenda em Bauru (SP).

As entidades do setor concordam que uma reestruturação é necessária, mas discordam do modelo proposto, que os tira do ramo. “Há pelo menos 20 anos lutamos pela regulamentação do setor e foi isso que o governador nos prometeu na campanha. Entregamos em novembro, nas mãos do secretário Rafael Benini, o modelo de concessão semelhante ao do Paraná, municipalizado. Agora vem esse edital que simplesmente nos impede de participar e direciona tudo para grandes grupos econômicos. Vamos à justiça para derrubar esse absurdo e sobreviver”, afirma Fábio Gregório, diretor e porta-voz da APPAGESP.

O que diz o governo

Procurado, o governo de São Paulo enviou a seguinte nota:

A Secretaria de Parcerias em Investimentos do Estado de São Paulo (SPI) informa que o projeto de concessão do serviço de remoção e guarda de veículos tem como objetivo modernizar e padronizar a prestação do serviço em todo o Estado, assegurando atendimento aos 645 municípios com mais transparência, eficiência e previsibilidade ao cidadão. A modelagem foi estruturada com base em estudos técnicos especializados e passou por consulta pública e sete audiências regionais, com análise e consolidação das contribuições recebidas. O novo modelo estabelece metas claras de desempenho, cobertura regional e padrões mínimos obrigatórios de infraestrutura, segurança e rastreabilidade digital de toda a jornada do veículo, sob fiscalização da Arsesp.

A proposta cria uma tabela tarifária única e transparente, substituindo o cenário atual de valores heterogêneos e ausência de padronização entre diferentes órgãos e regiões. O modelo incorpora mecanismos de modicidade e incentivo à regularização, como desconto para retirada em até sete dias e critérios objetivos de cobrança, garantindo equilíbrio entre qualidade do serviço e proteção ao usuário. O edital permite participação por meio de consórcios e autoriza subcontratação, ampliando a competitividade e a possibilidade de atuação de empresas do setor. A contratação do BRDE observou a legislação vigente.

O Estado também atua para reduzir o estoque acumulado ao longo de anos, sendo que, com a implementação do projeto, cerca de 42 mil veículos já se encontram em processo de leilão nos primeiros meses de 2026. Atualmente, aproximadamente 180 mil veículos estão aptos à leilão, e as medidas adotadas visam conferir maior regularidade e previsibilidade ao sistema, reduzindo progressivamente esse volume. O início da operação do novo modelo será gradual e observará os contratos vigentes e as regras contratuais específicas da concessão, assegurando continuidade operacional, segurança jurídica e cumprimento das responsabilidades previstas em lei.

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