Golpe em confederação olímpica tem chute na bunda e nova presidente
Colaborador da Confederação Brasileira de Levantamento de Peso levou chute na bunda ao sair da entidade para entrada de nova presidente

Uma nova presidente assumiu o comando da Confederação Brasileira de Levantamento de Peso (CBLP), na quarta-feira (7/10), após um cartório de Belo Horizonte aceitar registrar a ata de uma suposta assembleia realizada em agosto. Nela, consta que o presidente Ranier Rezende foi deposto, sem justificativa formal. Também foi registrado o termo de posse de Maria Elisabete Jorge, então vice, como nova presidente.
A assembleia é contestada judicialmente e por praticamente toda a comunidade de atletas e treinadores do levantamento de peso. Participaram delas somente três federações que a confederação dizia estarem irregulares – do Rio Grande do Sul, do Amazonas e de Minas Gerais -, um representante dos atletas (que foi substituído pelos seus pares depois de participar do encontro), um dos árbitros e um clube.
Antes que a Justiça desse um parecer sobre a querela, o grupo de Enrique Montero, que comanda a confederação há décadas e havia sido afastado do poder, conseguiu registrar a ata em cartório, após mais de um mês de negativas. No mesmo dia, Elisabete foi até a sede da entidade, em um prédio comercial de Belo Horizonte (MG), na tentativa de ocupá-la.
Informados da presença dela na portaria, os três colaboradores que estavam no local foram orientados a deixar o prédio. Na saída, um deles, Roberto Mannarelli, recebeu um chute na bunda – literalmente – dado pelo presidente da federação gaúcha, David Maikel.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesImagens das câmeras de segurança mostram o que parece ser Maikel tentando provocar o início de uma briga, mas Mannarelli não reagiu na hora. Ao invés disso, foi à delegacia de polícia e abriu boletim de ocorrência por agressão. Ele diz também ter sido ofendido por Maikel, aliado de Montero, o responsável por levá-lo à CBLP.
Tentativa de golpe em duas confederações
O enredo é o mesmo: impedido de disputar novas eleições por causa Lei Pelé, um dirigente que ficou décadas no poder conseguiu eleger um preposto, mas seguiu de fato no comando de fato, até um rompimento recente. No caso da CBLP, esse dirigente é Montero, que levou à presidência seu então melhor amigo Ranier Rezende.
Quando os dois romperam, Rezende demitiu a esposa de Montero e só não fez o mesmo com o ex-presidente porque ele apresentou um atestado médico. Durante a licença, denúncias anônimas contra os presidentes das duas confederações, com trechos idênticos, foram apresentadas ao Conselho de Ética da CBTM e ao STJD da CBLP.
Os presidentes desses órgãos – ligados ao advogado dos antigos comandantes das confederações – decidiram pelo afastamento imediato dos presidentes, sem qualquer oportunidade de defesa. Expostos pela coluna, devolveram o poder aos presidentes eleitos e renunciaram aos próprios cargos.
No tênis de mesa, houve uma reação quase imediata, com praticamente todas as federações ficando ao lado do atual presidente, que conseguiu se segurar no cargo e evitar o golpe.
Mas a CBLP, do levantamento de peso, é propositalmente minúscula – conta com apenas cinco federações filiadas, três delas ainda comandadas pelo grupo de Montero, cujo pai deu dois dos seis votos da assembleia, uma vez que também é presidente da “comissão de árbitros”.
Assim foi mais fácil para o ex-presidente convocar uma assembleia às pressas para depor Rezende sem qualquer investigação a respeito das tais denúncias “anônimas”. A ata da reunião não informa o que foi discutido. Apenas que foi deliberada a “destituição” de Ranier para o restante do mandato, sem informar o motivo da decisão.
Caso de polícia
Enquanto isso, a própria CBLP abriu boletim de ocorrência contra Montero, que, enquanto presidente da confederação, comprou um carro que nunca foi incorporado ao patrimônio da entidade e ficava estacionado na casa dele. Só depois de a polícia civil abrir inquérito por apropriação indébita é que o veículo foi devolvido.
Nova presidente, Elisabete (a Bete do Peso, primeira brasileira a disputar os Jogos Olímpicos) diz que Montero vai voltar ao cargo que ocupava, diretor esportivo com salário maior até que da presidente – na prática, ele volta a ser quem manda. Em nota, Bete disse que já ocupou a sede e está “trabalhando normalmente para reorganizar a confederação”.
Ainda que o episódio relatado em boletim de ocorrência tenha ocorrido com um colaborador que estivesse saindo da sede da CBLP, dentro do prédio da confederação, e tenha sido gravado em vídeo, a CBLP disse “desconhecer” a agressão.
“Quanto ao suposto chute, trata-se de alegação unilateral e também informamos que desconhecemos qualquer colaborador (funcionário ou prestador de serviços) que esteja envolvido em qualquer tipo de ação do tipo”, afirmou a nova/velha gestão da CBLP.
David Maikel, o acusado de agressão, se desculpou: “Sobre o vídeo, minha intenção naquele momento foi fazer uma brincadeira, simulando um chute, sem atingi-lo. Ele não gostou do gesto e, na sequência, tivemos uma breve discussão. Não tive a intenção de machucá-lo ou intimidá-lo. Lamento o episódio e peço desculpas ao colega”.
Manarelli nega que tenha recebido qualquer pedido de desculpas e que o gesto tenha tido tom de brincadeira. “Se ele tivesse pedido desculpas poderia ter pedido desculpas para mim pelo Whatsapp. Após o chute, falei: ‘É sério isso, vai mesmo ficar me chutando, me agredindo?’. E ele disse: ‘Vai embora daqui seu safado, vagabundo, senão vai sobrar para você’. Não sei que brincadeira é essa. Se é brincadeira, é de muito mau gosto.”

