Demétrio Vecchioli

Eleição entre generais tem acusação de golpe: “Bem-vindos à Venezuela”

Eleição no Círculo Militar de São Paulo tem dois generais candidatos. Chapa de oposição foi cassada em reunião secreta

atualizado

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Arte com as imagens do general Eduardo Diniz e do general Morata, com a bandeira da Venezuela ao fundo
1 de 1 Arte com as imagens do general Eduardo Diniz e do general Morata, com a bandeira da Venezuela ao fundo - Foto: null

A disputa eleitoral pelo comando do Círculo Militar de São Paulo, clube recreativo onde os militares paulistanos trocam fardas e botinas por sunga e chinelo à beira da piscina, virou uma guerra entre dois generais que concorrem pela presidência. Entre acusações de golpe e uso da máquina, jogo “fora das quatro linhas” e avaliações de que o Círculo Militar virou a Venezuela, a oposição só foi autorizada a participar por decisão judicial. A confusão é tamanha que a eleição, inicialmente marcada para domingo (16/11), acabou cancelada na noite desta quinta (15/11).

Presidente do Círculo por dois mandatos entre 2020 e 2024, o general de divisão Eduardo Diniz, ex-comandante da 2ª Divisão do Exército, teve sua chapa cassada pela atual administração, do antigo aliado, o general de brigada Manoel Morata Almeida, que já foi chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Sudeste. Os dois generais ocuparam, portanto, os cargos mais graduados do Exército em São Paulo.

A chapa de Diniz, que incluía candidatos ao Conselho, foi inteira impugnada sob a alegação de que o general ficou inadimplente com o clube entre 2018 e 2022, apesar de ter sido presidente entre 2020 e 2024, eleito com o apoio do agora rival. Diniz alega que nunca foi informado da dívida — supostamente causada por ter deixado de informar quando passou para a reserva do Exército, o que alterou seu status de associado e o valor da mensalidade –, nem quando soube que isso poderia ser usado contra ele e tentou pagá-la.

“O que aconteceu de problema se estendeu por três anos e meio. Foi a diferença de cadastro, o pagamento que deveria ser cobrado mas não foi. Paguei o que devia quando soube de tudo”, disse Diniz em um vídeo. “A informação foi guardada para ser usada na eleição e ser motivo da impugnação da minha chapa.”

O clube, vizinho do Quartel-General do Ibirapuera, onde ficam as sedes da 2ª Divisão do Exército e do Comando Militar do Sudeste, é tão ligado ao quartel que o comandante militar do Sudeste é, automaticamente, também presidente de honra do Círculo. E foi como a autoridade máxima sobre os militares do Sudeste que o general foi eleito pela primeira vez para a presidência, em 2010.

Em 2020, depois de dois ciclos de quatro anos na presidência e ter sido assessor do general Diniz na 2ª Divisão do Exército, apoiou o ex-chefe para presidente. Foram eleições sem disputa, com chapa única e votação por aclamação de alguns poucos sócios, inclusive a que elegeu Morata de novo, em 2024, após dois mandatos de Diniz.

Grupo rachou este ano

Pela primeira vez em anos o Círculo virou palco de uma disputa eleitoral real, com plano de gestão, marketing digital profissional, eventos de campanha, pessoas circulando com camisetas com número de urna. E acusações: “Apesar de acordado e registrado em ata entre os candidatos, o que se observa é o uso diuturno da estrutura do clube em favor da chapa da situação. Há superposição de funções, cargos e candidaturas. Há confusão entre o que é institucional e o que é eleitoral. Confusão transparente e intencional”, reclamou a chapa 1, de Diniz.

O clima já era de guerra aberta quando o conselho deliberativo se reuniu secretamente na semana passada e decidiu pela cassação da chapa de oposição, que reclamou que a deliberação aconteceu “fora das quatro linhas” — em uma clara referência à expressão usada muitas vezes pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

“Trata-se de um ato viciado e antidemocrático, que viola princípios elementares: o direito de conhecer o acusador e o teor da acusação; o contraditório, que garante espaço de resposta; a ampla defesa, que assegura o acesso a provas e informações”, reclamou a chapa, que também compartilhou mensagens recebidas de sócios, entre elas uma comparando o Círculo Militar à ditadura de Maduro: “Bienvenidos à Venezula”.

Em meio ao clima bélico no clube dos militares, a chapa de situação recebeu, na terça (11/11), o apoio do vice-prefeito, coronel Mello Araújo (PL), que anunciou voto no general Morata. No dia seguinte, o clube soltou nota informando que o Conselho Consultivo havia julgado o recurso da oposição e rejeitado o pleito. Assim, as eleições no domingo ocorreriam com chapa única, a de situação. A postagem, no Instagram, não permitia comentários.

Nesta quinta (13/11), a Justiça deferiu a medida liminar determinando a suspensão imediata da cassação e garantindo a participação da chapa de Diniz na eleição do próximo domingo. Também determinou que as postagens informando a cassação da chapa fossem apagadas.

Já de noite, o clube informou o cancelamento das eleições por comum acordo entre as duas chapas, que tiveram desistências de candidatos ao Conselho, o que por estatuto impediria que ambas participassem das eleições. Um novo processo eleitoral será organizado.

Em nota à coluna, antes do cancelamento das eleições, o Círculo Militar de São Paulo disse que “o processo eleitoral é conduzido conforme o Estatuto Social e as deliberações do Conselho Deliberativo, responsável pelas decisões relativas ao pleito”. “O Círculo prestará à Justiça todas as informações solicitadas, nos termos do devido processo legal. Em razão do rito processual, o Círculo Militar de São Paulo não comenta ações judiciais em andamento, reafirmando seu compromisso com a legalidade, a transparência e a regularidade do processo eleitoral”, disse o clube.

O general de brigada Manoel Morata Almeida foi procurado pela coluna a partir de sua secretária no clube, mas não retornou o contato. O espaço segue aberto.

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