Claudia Meireles

Vinho com metanol: Itália viveu tragédia semelhante ao Brasil

O que o Brasil pode aprender com crise histórica da “terra do vinho” após dezenas de intoxicados por metanol no país

atualizado

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Stop drinking,Stop drinking conceptMan alcoholic social problems sitting at table refusal of alcohol say no to addiction close-up
1 de 1 Stop drinking,Stop drinking conceptMan alcoholic social problems sitting at table refusal of alcohol say no to addiction close-up - Foto: Getty Images

O Brasil tem enfrentado uma grave crise de intoxicação por metanol. De acordo com o Ministério da Saúde, já são 59 casos confirmados e 15 mortes, além de dezenas de suspeitas em investigação. As ocorrências estão associadas a bebidas alcoólicas adulteradas, principalmente destilados como cachaça e whisky.

A situação reacende a lembrança de uma tragédia que marcou a história da vinicultura mundial: o escândalo do vinho contaminado na Itália, em 1986, que deixou mais de 20 mortos e centenas de pessoas hospitalizadas. O caso não apenas destruiu a reputação do país no mercado internacional como também provocou uma profunda transformação no modo de produzir e fiscalizar bebidas.

A intoxicação por metanol é uma emergência de saúde grave

A tragédia na “terra do vinho”

O desastre teve início na região do Piemonte, no norte da Itália, considerada a “terra do vinho” por sua tradição centenária. À época, o país vivia um cenário de excesso de produção e forte concorrência, o que pressionava os preços. Para cortar custos e aumentar o teor alcoólico de vinhos baratos, alguns produtores recorreram ilegalmente ao metanol, um álcool altamente tóxico usado na indústria química.

Os primeiros casos de envenenamento surgiram em março de 1986, na província de Asti. Duas pessoas morreram após consumir vinho de mesa contaminado. Em poucos dias, descobriu-se uma rede de adulteração em larga escala, que levou à apreensão de 25 milhões de litros de vinho e ao colapso das exportações italianas.

Países como Suíça, Alemanha e França suspenderam temporariamente a importação de vinhos italianos e o setor acumulou prejuízos equivalentes a 1 trilhão de liras, aproximadamente R$ 9,4 bilhões na cotação atual. O escândalo também resultou em dezenas de condenações, mas, acima de tudo, em uma profunda crise de confiança do consumidor.

Especialistas recomendam cautela e a compra de bebidas apenas de fontes confiáveis e regulamentadas

O renascimento da vinicultura italiana

A resposta da Itália foi rápida e estruturada. O país reformulou todo o seu sistema de controle e criou leis rigorosas de rastreabilidade da produção, que garantem a origem e a autenticidade de cada garrafa.

“O escândalo foi um ponto de virada. A Itália deixou de priorizar quantidade e passou a focar na qualidade”, explica Milena Lambri, pesquisadora e especialista em enologia e segurança alimentar, em entrevista à BBC.

Essa mudança gerou o chamado “renascimento do vinho italiano”, consolidando o país como referência mundial em vinhos finos. A legislação criada nos anos 1990, mais rigorosa até do que a da União Europeia, passou a classificar os vinhos conforme o tipo de uva, o local de cultivo e os métodos de produção.

Hoje, a Itália disputa com a França o posto de maior produtora global e ocupa o terceiro lugar no ranking mundial de consumo, com cerca de 42 litros per capita por ano.

A crise brasileira e os desafios da fiscalização

Quase quatro décadas depois, o Brasil enfrenta um problema semelhante. Desde o final de setembro, casos de intoxicação por bebidas adulteradas com metanol vêm sendo registrados principalmente em São Paulo e Pernambuco.

Segundo a Receita Federal, o metanol, normalmente usado na indústria e em combustíveis, foi desviado e incorporado ilegalmente à produção de bebidas alcoólicas. As investigações resultaram na prisão de 66 pessoas em São Paulo apenas neste ano, sendo 46 após o início da atual crise.

O delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Artur Dian, revelou na CPI do Metanol, na Câmara Municipal, que muitos estabelecimentos não possuem notas fiscais das bebidas armazenadas, o que dificulta a rastreabilidade. “É um desafio enorme, porque o produto é barato, acessível e muitas vezes vendido sem controle”, afirmou.

O metanol é altamente tóxico para humanos, sendo perigoso para a saúde mesmo em pequenas quantidades

O que o Brasil pode aprender com a Itália

Para especialistas, o caso italiano oferece uma lição valiosa: o Brasil precisa investir em sistemas de rastreabilidade rígidos e fiscalização constante, como fez a Itália. Também é importante que haja uma educação do consumidor, ensinar as pessoas a beber de forma consciente e responsável, evitando que criminosos comprometam um país inteiro.

Além disso, reforçar o cumprimento das normas de produção e incentivar a transparência entre fabricantes e consumidores são caminhos apontados por especialistas para evitar novas tragédias.

Lições de uma tragédia

O escândalo do vinho na Itália mostrou que crises podem se tornar motores de mudança. Com leis mais rígidas, fiscalização eficaz e um público mais atento à qualidade, o país transformou um desastre em uma história de reconstrução.

Agora, diante do aumento de casos de envenenamento por metanol, o Brasil enfrenta um momento decisivo. A tragédia italiana é um lembrete claro: sem controle e responsabilidade, a bebida que celebra a vida pode facilmente se tornar um veneno.

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