
Claudia MeirelesColunas

Segurança infantil em consultas: como clínicas podem prevenir abusos
Após casos recentes de abuso, clínicas infantis passam a reforçar protocolos de segurança para proteger crianças e famílias em consultas
atualizado
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A repercussão de denúncias recentes de abuso durante consultas terapêuticas infantis reacendeu um debate urgente — e ainda pouco enfrentado com a seriedade necessária: como garantir a segurança de crianças em clínicas, consultórios e salas de terapia?
A pergunta ganhou força especialmente entre famílias de crianças com deficiência, crianças autistas e pacientes não verbais, que muitas vezes realizam atendimentos sem a presença contínua dos pais dentro da sala. Em muitos casos, o ambiente terapêutico exige vínculo, adaptação e momentos de autonomia da criança. Mas, diante dos episódios recentes, cresceu também a cobrança por algo básico: protocolos claros de proteção.

Mais do que discutir apenas responsabilização depois de uma violência, o caso expôs uma lacuna importante no setor: a ausência de padronização mínima de segurança em espaços voltados ao atendimento infantil.

O debate saiu da exceção e virou urgência
A pressão já chegou ao Congresso. Tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei que propõe a instalação obrigatória de sistemas de monitoramento por câmeras em clínicas, consultórios e centros de reabilitação que atendem pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A proposta busca ampliar mecanismos de prevenção e controle em ambientes terapêuticos.
Mas, para além da discussão legal, a pergunta que começou a circular entre famílias é mais imediata: o que já deveria ser regra em qualquer lugar que atende crianças? A resposta passa por uma combinação de fatores.
Câmera ajuda, mas não resolve sozinha
Entre as medidas mais debatidas está a instalação de câmeras de monitoramento. Embora o recurso possa funcionar como instrumento de proteção e rastreabilidade, profissionais da área reconhecem que ele, sozinho, está longe de resolver o problema.
A terapeuta Ana Mangia, que atua com atendimento infantil, afirma que a segurança precisa ser pensada como um conjunto de práticas.
“As câmeras ajudam, mas temos um conjunto de medidas em nossa infraestrutura”, diz.

Na prática, isso significa entender que proteção infantil não depende apenas de gravação de imagem, mas também de estrutura física adequada, transparência nos espaços, treinamento de equipe, regras de conduta e canais de diálogo com as famílias.
Além disso, há um ponto delicado: o desafio de equilibrar segurança e sigilo terapêutico. Afinal, o atendimento clínico também exige privacidade, acolhimento e preservação da experiência da criança.
“Há transparência nas salas dos atendimentos infantis, porém as falas ficam preservadas”, explica Ana.
A discussão, portanto, não é apenas “ter ou não ter câmera”, e sim como criar ambientes que reduzam vulnerabilidades sem comprometer a ética do atendimento.
O que pais e responsáveis devem observar
Diante da falta de uma padronização nacional mais rígida, especialistas e profissionais da área defendem que as famílias também passem a observar com mais atenção como uma clínica funciona na prática — e não apenas a proposta terapêutica apresentada no papel.

Entre os pontos mais importantes estão:
- Como é o acolhimento desde a recepção;
- Se existe devolutiva clara sobre o tratamento;
- Como são as salas de atendimento;
- Se o ambiente é mais fechado ou mais transparente;
- Qual é a postura da instituição em relação à presença e ao acesso dos responsáveis.
Ana resume esse olhar com um ponto importante:
“Observar o acolhimento que se tem, desde a recepção até o profissional que irá atender, buscar sempre uma devolutiva para saber qual linha de tratamento está sendo feita.”

Outro sinal relevante é perceber se a clínica trata a presença da família como parceria ou como obstáculo. Ambientes excessivamente fechados, resistentes a questionamentos ou pouco transparentes sobre rotinas e condutas podem acender alerta.
Segurança não deveria depender só da confiança
Durante muito tempo, boa parte das famílias escolheu clínicas e profissionais com base quase exclusivamente em indicação, reputação e vínculo pessoal. Embora isso continue importante, os casos recentes mostram que confiança, sozinha, não pode ser o único protocolo.
A segurança infantil precisa deixar de ser entendida como algo implícito e passar a ser tratada como procedimento institucional.
Isso inclui desde medidas concretas de supervisão e transparência até uma cultura de escuta ativa, acesso aos responsáveis e preparo da equipe para lidar com crianças em situação de maior vulnerabilidade.

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