
Claudia MeirelesColunas

O luxo está nas experiências? Entenda a nova tendência de consumo
O novo luxo está no que se vive, no que se sente, e não no que se tem. Especialistas explicam essa transformação comportamental e econômica
atualizado
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Durante décadas, o luxo foi sinônimo de exclusividade material: carros, relógios, mansões. Atualmente, ele se desloca para algo mais intangível, e, paradoxalmente, mais acessível: as experiências.
De jantares preparados por chefs estrelados a imersões culturais em países distantes, o verdadeiro símbolo de status parece ter migrado das vitrines para a memória.
A experiência como nova forma de pertencimento
Em uma era em que tudo pode ser comprado com um clique, a escassez passou a estar nas sensações, não nos produtos. O que é raro hoje é sentir algo genuíno. Viajar para um destino remoto, participar de um jantar intimista com um chef premiado ou assistir a um concerto exclusivo tornou-se uma forma de expressar pertencimento, não por status, mas por significado.
O luxo contemporâneo, portanto, é uma linguagem emocional. Ele comunica quem somos, o que valorizamos e como escolhemos gastar o tempo – talvez o bem mais precioso da vida moderna. É um consumo que se traduz em memórias e não em etiquetas.
A transformação não é apenas estética ou passageira. Ela reflete mudanças profundas nas motivações humanas e na própria dinâmica econômica.
Segundo o economista Adalberto Luiz, pós-graduado em Finanças Corporativas pelo IBMEC e com MBA em Marketing pela FGV, a virada está ligada a fatores estruturais e geracionais. Agora, as experiências valem mais do que os objetos.
“A população mais jovem tem pouco apego a coisas e lugares. Eles preferem viver uma experiência única do que ter o carro do ano. A mobilidade ficou mais fácil e acessível com a queda no preço das passagens aéreas e a chegada de serviços como o Uber”, explica.

Além da praticidade, há um novo motor econômico impulsionando esse comportamento: a ascensão da chamada geração de super-ricos. Entre 2018 e 2024, o número de brasileiros com fortunas acima de US$ 1 milhão saltou de 1,1 milhão para 1,5 milhão. De acordo com a Forbes, o patrimônio somado dessas fortunas ultrapassa os trilhões, o que se torna ainda mais exclusivo quando percebemos que essa quantia pertence a apenas o 1% mais rico do país, segundo relatório da Oxfam.
“Esses indivíduos estão dispostos a investir em turismo, gastronomia e espetáculos quase exclusivos, porque o valor investido não compromete suas reservas financeiras”, afirma Adalberto. “Mas, ao mesmo tempo, há um questionamento crescente: esse produto vale mesmo tudo isso? O valor percebido se distanciou do valor pago, e as pessoas passaram a enxergar mais sentido em experiências que proporcionam prazer real e lembranças duradouras.”
A virada pós-pandemia e a reeducação do tempo
Esse “luxo vivido” é também um reflexo emocional do nosso tempo, segundo a psicóloga Genilce Cunha. Ela aponta que, após a pandemia, as pessoas passaram a rever seus valores, colocando o tempo e o prazer no centro das decisões.
O isolamento global provocou uma espécie de “reeducação do tempo”. O relógio deixou de marcar apenas horas e passou a marcar escolhas. Para muitos, o confinamento foi um lembrete de que a vida é frágil, e que acumular objetos não preenche a ausência de experiências.
Esse despertar coletivo alterou a forma como enxergamos prazer e sucesso. Viajar se tornou uma declaração de vitalidade. Investir em bem-estar, em saúde mental e em experiências sensoriais é uma resposta emocional à incerteza dos últimos anos.
A pandemia colocou o ser humano diante da própria efemeridade. O tempo se tornou mais precioso, o prazer mais urgente. As pessoas estão carentes de histórias para contar e buscam experiências que tragam satisfação pessoal e significado.
Genilce Cunha
Enquanto objetos de luxo podem perder o brilho com o uso diário, viagens e vivências têm um poder emocional mais duradouro.
“Uma viagem desperta emoções surpreendentes e encantadoras. O cérebro grava essas memórias com intensidade e, ao relembrá-las, a pessoa revive fisicamente as mesmas sensações de prazer e plenitude”, explica Genilce.
Quando o luxo se torna performance
As redes sociais também agiram nessa transformação do consumo de experiências em um espetáculo público. As refeições, as viagens, os momentos de autocuidado – tudo é projetado para ser compartilhado.
Esse fenômeno cria uma tensão entre o viver e o mostrar. O “luxo performático” busca validação externa, enquanto o luxo autêntico é introspectivo, voltado para o prazer próprio. As marcas que entenderem essa diferença estarão mais próximas de um público que quer sentir e não apenas exibir.

A influência das redes sociais tem papel decisivo nesse cenário. Se antes o luxo era exibido em tapetes vermelhos, agora ele é publicado em Stories e posts cuidadosamente curados. Para muitos, o “glamour” está em poder compartilhar momentos exclusivos e ser validado por isso.
“Hoje, o valor pessoal de muita gente é medido por likes. As redes funcionam como vitrines de conquistas e glamour. Isso desperta comparação e ansiedade: a sensação de que todo mundo tem e eu não”, alerta a psicóloga.
Do ponto de vista psicológico, o consumo de luxo saudável é aquele que não compromete a saúde financeira nem substitui o ser pelo ter.
“Quando há propósito e equilíbrio, o luxo pode ser uma fonte de bem-estar. Mas, quando ele se torna uma forma de compensação emocional ou impulsividade, pode gerar culpa, isolamento e prejuízos”, completa Genilce.
No mercado, as marcas também vivem seu dilema. Para Adalberto Luiz, o desafio está em equilibrar inovação e autenticidade.
As empresas precisam oferecer experiências únicas sem perder suas raízes e propósito. Quem conseguir combinar esses fatores com precisão vai permanecer forte.
Adalberto Luiz
O luxo invisível: o retorno ao essencial
Nem sempre o luxo precisa brilhar. À medida que o mercado de experiências cresce, o luxo silencioso – aquele que se manifesta na discrição, na personalização e na qualidade de vida – ganha terreno.
Fugir do excesso, desconectar-se das telas, hospedar-se em lugares sustentáveis e de baixo impacto ambiental são novos símbolos de sofisticação. O luxo invisível é, no fundo, um convite à intimidade com o mundo e consigo mesmo.

A economia da emoção
A economia de luxo, antes baseada em produtos tangíveis, agora se apoia em intangíveis, como emoção, exclusividade e tempo. Hotéis cinco estrelas se reposicionam como “templos de experiência”, companhias aéreas premium vendem conforto emocional e restaurantes de alta gastronomia criam roteiros que envolvem todos os sentidos.
Nesse cenário, a lealdade à marca passa a ser construída pela memória afetiva. O cliente de luxo quer ser tocado e não apenas atendido.
O futuro do luxo, portanto, parece caminhar para um território híbrido, entre o real e o emocional. Saúde, arte, aviação privada e turismo de alto padrão devem ser os setores mais beneficiados.
O turismo de alto padrão como vetor de crescimento
No Brasil, o turismo de luxo se consolida como um dos setores mais promissores. Com o aumento do número de viajantes de alta renda e a retomada da confiança no setor, destinos como Fernando de Noronha, Trancoso, Foz do Iguaçu e a Serra Catarinense atraem propostas que combinam exclusividade, sustentabilidade e autenticidade.
Para o economista Adalberto Luiz, o crescimento será constante:
“O trade turístico precisa atuar de forma integrada. O cliente de luxo quer ser atendido na sua plenitude, com o menor esforço possível. Quem conseguir oferecer isso estará preparado para aproveitar esse movimento”, conclui o economista.
Do luxo de ter ao luxo de sentir
Se o luxo de ontem era material, o atual é sensorial e emocional. Ele está no toque de um lençol de linho em um hotel isolado, no aroma de um prato preparado diante dos olhos, no silêncio absoluto de um retiro de meditação.
Esses são os novos símbolos de status: silenciosos, subjetivos e intensamente humanos. Afinal, quando a vida corre depressa demais, sentir tornou-se o mais sofisticado dos luxos.
Em um mundo acelerado e saturado de posses, o luxo talvez esteja justamente em poder parar, sentir e viver. Mais do que acumular, trata-se de colecionar momentos e transformá-los em posses verdadeiramente duráveis.

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