
Claudia MeirelesColunas

Harry Styles pausou carreira por saúde mental; psicóloga avalia
Harry Styles fala sobre desacelerar, internet e autocuidado; psicóloga Cibele Santos explica os efeitos da alta performance na saúde mental
atualizado
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Após anos de turnês globais, agendas lotadas e uma rotina moldada por aplausos e validação constante, Harry Styles revelou ter precisado aprender algo que parece simples, mas é profundamente desafiador: desacelerar. Em entrevista recente, o artista falou sobre o período em que viveu na Itália, a decisão de tirar o Instagram do celular, a dedicação à corrida de longa distância e a redescoberta de pequenos rituais cotidianos.
No momento em que promove o álbum Kiss All The Time. Disco, Occasionally, a pausa descrita pelo cantor não soa estratégica, mas sim existencial. E levanta uma questão que ultrapassa o universo das celebridades: o que acontece com a mente quando alguém vive anos em estado de alta performance e, de repente, decide parar?
Para entender esse movimento, a reportagem ouviu a psicóloga Cibele Santos, que analisa os impactos emocionais, neurológicos e identitários da desaceleração.

A descompressão psíquica: quando o descanso assusta
Segundo Cibele Santos, o primeiro impacto da pausa não é necessariamente alívio — é estranhamento.
“Ocorre o que chamamos de descompressão psíquica. O sistema nervoso, acostumado a operar em estado de alerta, com cortisol e adrenalina elevados, não interpreta o repouso imediato como relaxamento, mas como ameaça ou vazio”, explica.
Esse fenômeno ajuda a compreender por que muitas pessoas, ao entrarem em férias ou concluírem um grande projeto, relatam melancolia, irritação ou inquietação. “É comum surgir uma ‘ressaca emocional’. O cérebro ainda está processando o eco das demandas anteriores. Ele não desliga no mesmo ritmo que a agenda.”
No caso de figuras públicas, que vivem sob pressão contínua, a transição pode ser ainda mais intensa. O silêncio que deveria trazer descanso pode expor um vazio antes abafado pela rotina.

Identidade fragmentada: o “eu público” versus o “eu privado”
Ao falar sobre desacelerar, Styles também sugeriu um movimento de reconexão consigo mesmo. Para a psicóloga, essa etapa toca um ponto sensível: a construção da identidade.
“A cultura da performance promove a alienação de si”, afirma Cibele. “Quando a identidade é construída sobre o ‘fazer’ — conquistas, palcos, resultados, likes — e não sobre o ‘ser’, a pessoa passa a viver como um personagem de si mesma.”
Essa dinâmica cria uma fragmentação interna. “Existe o ‘eu público’, produtivo e impecável, e o ‘eu privado’, exaurido e muitas vezes desconhecido. Se a validação externa para, a pessoa sente que deixou de existir.”
Embora o contexto de fama amplifique o fenômeno, ele não é exclusivo do entretenimento. No ambiente corporativo, por exemplo, profissionais frequentemente se veem reduzidos a metas e indicadores de desempenho. “É a objetificação do indivíduo. Seja celebridade ou executivo, ambos vivem sob a pressão de serem infalíveis e substituíveis.”

Redes sociais e o ciclo da comparação infinita
Um dos relatos que mais chamou atenção na entrevista foi a decisão de retirar o Instagram do celular. Para Cibele Santos, essa escolha pode ter efeitos concretos na regulação emocional.
“As redes sociais alimentam o ciclo de comparação social ascendente. O cérebro passa a processar centenas de vidas aparentemente perfeitas por minuto, o que gera FOMO e ansiedade”, explica.
A chamada Fear of Missing Out (FOMO) — ou medo de estar perdendo algo — é um dos fenômenos psicológicos mais associados à ansiedade contemporânea. O termo descreve a angústia de não conseguir acompanhar atualizações, eventos e experiências compartilhadas por outras pessoas, especialmente nas redes sociais.
Na prática, a FOMO funciona como um gatilho constante de comparação e vigilância digital, levando o indivíduo a permanecer conectado por receio de ficar para trás. Esse estado de alerta contínuo pode intensificar sintomas como inquietação, dificuldade de concentração e sensação de inadequação.
Do ponto de vista neurobiológico, o impacto é direto. “Há um sequestro da atenção e uma estimulação constante do sistema dopaminérgico. Ao remover o gatilho, o cérebro tende a se estabilizar. A pessoa volta a sentir prazer em estímulos de baixa intensidade, como ler, caminhar, conversar sem distrações.”
Esse retorno ao “simples” não é banal. É um reequilíbrio do sistema de recompensa.

O poder dos rituais simples e o estado de presença
Entre os relatos do cantor, um detalhe aparentemente trivial ganhou simbolismo: sentar em um café sem pressa. Para a psicóloga, o gesto representa muito mais do que descanso.
“Momentos simples ativam o Estado de Presença. No ritmo acelerado, vivemos projetados no futuro, o que alimenta ansiedade. Um ritual cotidiano ancora a mente no corpo por meio dos sentidos — paladar, olfato, temperatura…”
Ela chama esse movimento de micro-autonomia. “Retomar o controle do próprio tempo é um antídoto contra o desamparo aprendido. É uma forma de recuperar agência sobre a própria vida.”
O corpo como regulador da mente
Outro ponto central da nova fase relatada por Styles é a corrida de resistência. Para Cibele Santos, o esporte tem um papel regulador fundamental.
“A corrida promove regulação neuroendócrina. Enquanto a mente rumina problemas abstratos, o esforço físico exige uma resposta biológica concreta. Há liberação de endorfinas e endocanabinoides, que geram sensação de competência e clareza.”
Ela destaca que, para muitas pessoas, o corpo se torna a via de reorganização psíquica. “A exaustão física pode ser a única maneira de silenciar a exaustão mental.”

O risco do vazio e a crise de identidade
Desacelerar, no entanto, não é isento de riscos. “Existe o que chamamos de depressão pós-projeto ou vazio existencial”, alerta a psicóloga.
Sem a estrutura rígida do trabalho, emergem perguntas profundas: “Quem sou eu quando não estou sendo útil? Quem sou eu quando não estou sendo aplaudido?”
Se não houver suporte emocional, esse vazio pode ser preenchido por comportamentos escapistas, como vícios ou isolamento extremo. Por outro lado, quando atravessado com consciência, pode abrir espaço para crescimento.
“Uma crise de identidade após uma pausa, embora pareça ameaçadora, é profundamente positiva. Ela indica que a identidade anterior era estreita demais. É o solo necessário para uma reconstrução mais autêntica.”
Quando a pausa deixa de ser escolha e vira necessidade
Antes que o esgotamento se instale, o corpo e a mente enviam sinais claros. Entre eles, Cibele destaca:
- Perda de prazer no que antes era significativo (anedonia);
- Cinismo crescente;
- Alterações de sono e apetite;
- Sensação persistente de ineficácia;
- Irritabilidade desproporcional.
“Ignorar esses sinais prolonga o sofrimento. A pausa, quando consciente, não é fraqueza — é prevenção.”
Além da fama, uma questão geracional
Ao compartilhar sua experiência de desaceleração enquanto lança um novo projeto musical, Harry Styles expõe uma tensão que atravessa não apenas artistas, mas uma geração inteira moldada pela lógica da performance.
Entre aplausos, notificações e metas, a pergunta que emerge é menos sobre carreira e mais sobre identidade: quem somos quando paramos de produzir?
Talvez a resposta não esteja no palco, nem nos números, e sim no gesto simples de recuperar o próprio tempo e, com ele, a própria presença.
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