
Claudia MeirelesColunas

Dieta à base de uma garrafa de vinho e ovo viraliza; nutri avalia
Dieta viral dos anos 1970 promete emagrecimento rápido, mas nutricionista destaca riscos, desequilíbrios e impacto do álcool diário na saúde
atualizado
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A chamada “dieta do ovo e vinho”, publicada em 1977 e ressuscitada inúmeras vezes na internet, é um dos exemplos mais curiosos — e arriscados — da cultura das dietas extremas. O plano original propunha três dias de alimentação baseada quase exclusivamente em ovos e em uma garrafa de vinho branco por dia. A promessa era “caber naquele vestido do fim de semana”.
Quase meio século depois, a dieta segue viralizando como meme, curiosidade histórica ou, pior, como tentativa real de emagrecimento rápido. Mas, nutricionalmente, combinação é um desastre.

Um cardápio sem nutrientes essenciais
A dieta praticamente elimina grupos alimentares inteiros: carboidratos complexos, gorduras de boa qualidade, frutas, legumes, verduras e fibras. Isso cria um cenário de deficiência generalizada.
Segundo Carolina Drumond, nutricionista do Hospital Felício Rocho, trata-se de um padrão “completamente inadequado e jamais recomendável”. Ela explica que a ausência de vitaminas, minerais e fibras compromete desde o metabolismo energético até a saúde intestinal.
“Imagine uma dieta fundamentada em vinho; isso implicaria na ausência de diversos nutrientes essenciais para o bom funcionamento do metabolismo”, afirma. “Mesmo em termos de macronutrientes, haveria deficiências.”
Mesmo a quantidade de proteína oferecida pelos ovos pode não ser suficiente para todas as necessidades individuais, especialmente em pessoas com maior demanda metabólica.
Riscos que aparecem já nos primeiros dias
Quem tentasse seguir o plano sentiria os efeitos rapidamente. “Ao considerar os riscos imediatos, nas primeiras 72 horas, a questão central reside na deficiência de macronutrientes”, afirma a nutricionista.
A falta de energia e a ingestão insuficiente de carboidratos podem provocar fadiga intensa e hipoglicemia nas primeiras 24 horas. A desidratação também é provável, já que o álcool aumenta a diurese.
Redução da pressão arterial, mal-estar, sudorese e náuseas estão entre os sintomas comuns em dietas muito restritivas, e aqui os riscos são ainda maiores pela presença diária de grande quantidade de álcool.
As consequências que se agravariam no longo prazo
Em períodos mais prolongados, a dieta poderia desencadear desnutrição, perda de massa muscular e até doenças hepáticas devido ao consumo excessivo de álcool. O organismo, sem receber energia adequada, desacelera o metabolismo em uma tentativa de economizar recursos, o que compromete o funcionamento de todo o sistema.
Deficiências crônicas de vitaminas e minerais podem impactar ossos, imunidade, cabelos, unhas e até a cognição.
A falsa ilusão de emagrecimento
Apesar da promessa de “perda rápida”, a nutricionista explica que o peso eliminado não é o que importa, e certamente não é gordura. “A perda se dá, na verdade, pela quebra de massa magra”, diz Carolina. Sem glicose suficiente, o corpo passa a degradar proteínas musculares para produzir energia, o que resulta em perda de força, alteração da composição corporal e metabolismo ainda mais lento.
Ou seja: é um emagrecimento enganoso e metabolicamente prejudicial.
O papel do álcool
A ingestão de uma garrafa de vinhos por dia, além de perigosa, impacta diretamente o fígado — órgão fundamental para o processamento de nutrientes e toxinas. O álcool favorece a perda de proteínas e agrava quadros de desnutrição, principalmente em grupos mais vulneráveis, como idosos.
Não há benefício metabólico nem efeito positivo sobre perda de gordura: há apenas prejuízo.
Por que dietas absurdas continuam reaparecendo
O fascínio por resultados rápidos ajuda a explicar por que dietas extremas seguem viralizando. A sensação de mudança imediata, ainda que por desidratação ou perda de massa magra, cria a impressão de eficácia.
Segundo a nutricionista, há um movimento atual de “supervalorização de soluções radicais”. Ela observa que muitas pessoas buscam algo diferente do básico: sono adequado, alimentação equilibrada e atividade física. A promessa de mudança rápida é tentadora, mesmo que insustentável.
O que realmente funciona
Quando alguém chega ao consultório pedindo uma perda de peso tão rápida quanto as dietas virais prometem, o caminho é outro. Estratégias seguras envolvem leve restrição calórica, maior ingestão de proteínas de qualidade, dieta rica em fibras, redução de ultraprocessados e associação a atividade física.
Carolina reforça que não existe fórmula milagrosa.
“Devemos nos concentrar em princípios fundamentais: sono regular e de qualidade, alimentação equilibrada, com moderação no consumo de carboidratos e gorduras, ingestão diária de frutas e verduras, e a prática regular de atividade física”, afirma. “Este é o tripé que sustenta o sucesso a longo prazo. Qualquer proposta que se afaste desses princípios deve ser vista com ceticismo”
A dieta do ovo e vinho é, atualmente, uma curiosidade histórica — e deve continuar sendo tratada apenas como isso. Em um mundo hiperconectado e obcecado por soluções rápidas, revisitar dietas absurdas pode ser até divertido, mas segui-las pode ser perigoso e altamente prejudicial.
“Desconfie de abordagens extremistas. O segredo reside no equilíbrio e na aplicação consistente do básico”, finaliza Carolina Drumond.
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