
Claudia MeirelesColunas

Câncer de mama aos 24: caso Bruna Nóbrega acende alerta entre jovens
Diagnosticada com câncer de mama metastático, Bruna expõe o avanço da doença entre jovens e reforça a importância do diagnóstico precoce
atualizado
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Aos 24 anos, a influenciadora digital Bruna Furlan de Nóbrega recebeu um diagnóstico que ainda desafia o imaginário coletivo: câncer de mama invasivo já em estágio metastático. Neta do humorista Carlos Alberto de Nóbrega, Bruna descobriu a doença no fim de 2025 e iniciou imediatamente um tratamento intensivo, que inclui quimioterapia, mastectomia bilateral, radioterapia e bloqueio hormonal. Antes do início das terapias, realizou o congelamento de óvulos como estratégia de preservação da fertilidade.
Ao tornar público o diagnóstico, Bruna decidiu usar suas redes sociais não apenas para relatar a própria experiência, mas para alertar outras mulheres jovens sobre uma realidade que, embora ainda pouco discutida, vem crescendo de forma consistente: o aumento dos casos de câncer de mama antes dos 40 anos. Em vídeo emocionante, ela relata a sensação de revolta e injustiça ao descobrir a doença tão cedo.
“Tenho 24 anos, estou no auge da minha juventude, e mesmo assim estou enfrentando um câncer de mama metastático”, afirmou.

Mais do que compartilhar o tratamento, Bruna diz querer ser uma referência para jovens que não se veem representadas nos relatos mais comuns sobre a doença. Ao anunciar que pretende mostrar todas as etapas da jornada — os altos e os baixos —, ela reforça que é possível viver a juventude sem ignorar a gravidade do tratamento. “Eu quero equilibrar o tratamento com a minha vida, sem romantizar nada, mas sendo honesta”, disse.
Um diagnóstico fora do comum
O câncer de mama é frequentemente associado a mulheres acima dos 40 anos. O caso de Bruna, porém, reforça que a doença pode surgir em qualquer fase da vida. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 75 mil novos casos da doença por ano. Embora a maioria ainda ocorra em mulheres mais velhas, o percentual de pacientes jovens vem crescendo de forma expressiva.
Em 2009, apenas 7,9% das mulheres diagnosticadas tinham menos de 40 anos. Em 2020, esse número chegou a 21,8%, um aumento de quase 15 pontos percentuais em pouco mais de uma década. Especialistas associam essa mudança a fatores como adiamento da maternidade, sedentarismo, dietas desequilibradas, obesidade, consumo de álcool, tabagismo precoce e, em alguns casos, mutações genéticas hereditárias, como BRCA1 e BRCA2.
No caso de Bruna, o tumor foi classificado como carcinoma mamário invasivo do tipo não especial, o tipo mais comum de câncer de mama, responsável por cerca de 80% dos casos. O tumor apresenta expressão de receptores hormonais — o que significa que seu crescimento é estimulado por hormônios como estrogênio e progesterona — e é HER2 negativo. Ainda assim, a presença de metástases no momento do diagnóstico indica uma doença biologicamente mais agressiva.
Câncer de mama não é uma doença única
Apesar de o subtipo tumoral ajudar a orientar o tratamento, especialistas reforçam que o câncer de mama não deve ser entendido como uma doença única. Ele representa um conjunto de condições com comportamentos biológicos distintos, que variam conforme as características moleculares do tumor e a extensão da doença no momento do diagnóstico.
Segundo a ginecologista Karina Cavalcanti, especialista em saúde integral da mulher, o manejo e o prognóstico dependem da análise conjunta de vários fatores.
“O subtipo molecular direciona as opções terapêuticas, mas não define sozinho como a doença vai se comportar. O estadiamento, ou seja, a extensão da doença no momento do diagnóstico, tem um peso central na decisão do tratamento”, explica.
Para definir a estratégia terapêutica, os médicos analisam marcadores do tumor por meio da imuno-histoquímica, que avalia três principais receptores: estrogênio, progesterona e HER2, além do índice de proliferação celular (Ki-67). A combinação desses fatores permite classificar o câncer de mama em grandes grupos biológicos:
- Luminal A: tumores com receptores hormonais positivos, HER2 negativo e baixa taxa de proliferação celular. Costumam crescer mais lentamente e responder bem à hormonioterapia.
- Luminal B: também apresentam receptores hormonais positivos e HER2 negativo, mas com maior taxa de proliferação celular, o que pode exigir quimioterapia associada.
- HER2 positivo: caracterizados pela superexpressão da proteína HER2, hoje tratados com terapias-alvo que mudaram significativamente o prognóstico.
- Triplo negativo: não expressam receptores hormonais nem HER2, costumam ter evolução mais agressiva e são mais frequentes em mulheres jovens e em casos associados a mutações genéticas.
No caso de Bruna, embora haja informação sobre receptores hormonais positivos e HER2 negativo, não foi divulgado se o tumor se enquadra como luminal A ou luminal B — classificação que depende também do índice de proliferação celular.

Por que o câncer de mama tende a ser mais agressivo em mulheres jovens
Em mulheres jovens, o câncer de mama costuma apresentar comportamento mais agressivo por uma combinação de fatores. Há maior frequência de subtipos biológicos agressivos, tumores com crescimento mais rápido e diagnósticos frequentemente tardios, já que a doença não é esperada nessa faixa etária.
Além disso, as mamas tendem a ser mais densas, o que reduz a sensibilidade da mamografia. Mesmo o ultrassom pode falhar na detecção de lesões iniciais, dificultando o rastreamento precoce. Soma-se a isso o fato de que muitos sinais são subestimados ou atribuídos a alterações hormonais benignas, o que pode atrasar a investigação médica.
Sinais de alerta que não devem ser ignorados
Entre os principais sinais de alerta para o câncer de mama em mulheres jovens estão:
- Nódulo mamário que não dói
- Alterações no formato ou assimetria da mama
- Retração da pele ou do mamilo
- Vermelhidão persistente ou aspecto de “casca de laranja”
- Secreção mamilar espontânea
- Ínguas axilares endurecidas
A presença de qualquer um desses sinais deve motivar avaliação médica, independentemente da idade.

Como o tratamento é definido
O tratamento do câncer de mama é sempre individualizado. Tumores com expressão de receptores hormonais, como o de Bruna, permitem o uso da hormonioterapia, que bloqueia a ação dos hormônios responsáveis por estimular o crescimento das células tumorais.
Nos últimos anos, novas classes de medicamentos, como os inibidores de ciclinas (CDK4/6), ampliaram as opções terapêuticas para o câncer de mama hormonal positivo, ajudando a retardar a progressão da doença. Dependendo do comportamento do tumor e da necessidade de resposta rápida, a quimioterapia também pode ser indicada.
Em mulheres muito jovens, o tratamento hormonal costuma envolver a supressão da função ovariana, o que pode induzir uma menopausa precoce. Esse processo traz impactos importantes na qualidade de vida, como ondas de calor, alterações do sono, da libido e da saúde sexual.
Quando a doença já é metastática, o foco do tratamento pode deixar de ser exclusivamente a cura e passar a ser o controle da doença ao longo do tempo. Em alguns casos, o câncer de mama metastático pode ser tratado como uma condição crônica, com pacientes vivendo por muitos anos com a doença controlada.

Preservação da fertilidade e qualidade de vida
Quimioterapia e radioterapia podem causar toxicidade ovariana, levando à redução da reserva ovariana e, em alguns casos, à infertilidade temporária ou definitiva. Por isso, o congelamento de óvulos antes do início do tratamento é hoje uma estratégia amplamente recomendada para mulheres jovens que desejam preservar a possibilidade de maternidade futura.
Segundo a Dra. Karina Cavalcanti, essa discussão deve acontecer logo após o diagnóstico.
“O cuidado oncológico moderno precisa olhar além da sobrevida. É fundamental considerar projetos de vida, autonomia reprodutiva, saúde emocional e qualidade de vida dessas pacientes”, afirma.
Bruna compartilhou nos stories do seu Instagram que realizou um tratamento injetável para promover ovulação acelerada e, em seguida, fez a coleta de 18 óvulos para congelamento. Além disso, a influencer disse ter aproveitado o procedimento para implantar um DIU de cobre, sem hormônios, considerando que precisou interromper o uso de anticoncepcional.
Após o tratamento, muitas mulheres podem apresentar sintomas geniturinários relacionados à menopausa precoce ou à hormonioterapia, como ressecamento vaginal, dor nas relações e queda da lubrificação. Nesses casos, estratégias terapêuticas locais, sempre com indicação individualizada e acompanhamento médico, podem contribuir para restaurar o conforto íntimo e o bem-estar.
O que o caso de Bruna ensina
O relato de Bruna Furlan de Nóbrega reforça aprendizados fundamentais:
Câncer de mama não é exclusividade de mulheres acima dos 40 anos
Sintomas mamários devem ser investigados em qualquer idade
A escuta clínica e o exame físico continuam sendo essenciais
Informação e conscientização salvam vidas
Ao compartilhar sua trajetória com honestidade, Bruna ajuda a quebrar estigmas, amplia o debate sobre o câncer de mama na juventude e oferece acolhimento a mulheres que, muitas vezes, enfrentam o diagnóstico em silêncio.

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