
Claudia MeirelesColunas

Amigas são os “novos namorados”? Entenda a tendência nas relações
Cada vez mais mulheres têm encontrado em amigas verdadeiras a parceria, a estabilidade e o acolhimento antes esperados do amor romântico
atualizado
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Durante muito tempo, o amor romântico foi tratado como o centro da vida afetiva. A ideia de encontrar em um parceiro a principal fonte de apoio, intimidade e companhia moldou gerações de mulheres. Mas esse roteiro vem mudando — e as melhores amigas vêm sendo vistas, cada vez mais, como verdadeiras parceiras de vida.
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A tendência ganhou força em reportagens recentes de veículos internacionais que mostram como as amizades passaram a ocupar um espaço de prioridade antes reservado quase exclusivamente aos relacionamentos amorosos. Mais do que companhia para momentos leves, essas relações têm oferecido apoio emocional, escuta, lealdade e presença constante.
Para a psicóloga Cibele Santos, o movimento revela uma transformação importante na forma como as mulheres entendem amor e pertencimento.
“Historicamente, fomos ensinadas que o amor romântico era o único destino de realização. Hoje, as mulheres percebem que a amizade oferece uma estabilidade emocional que o namoro nem sempre garante”, afirma.

Quando a amizade vira eixo afetivo
Tradicionalmente, as amizades foram tratadas como vínculos importantes, porém, secundários diante do namoro, do casamento e da ideia tradicional de família. Agora, essa hierarquia começa a ser revista.
Segundo Cibele, isso acontece porque amizades profundas costumam oferecer algo que muitos relacionamentos amorosos não conseguem sustentar ao longo do tempo: continuidade, acolhimento e reciprocidade.
“Amigas costumam ser testemunhas da nossa história por décadas, enquanto relacionamentos amorosos podem ser transitórios. Há uma busca por raízes em um mundo cada vez mais líquido”, explica.
Na prática, são essas amizades que atravessam términos, crises, mudanças de carreira, maternidade e recomeços — muitas vezes com mais constância do que relações amorosas.

O cansaço com relações desiguais
Parte dessa mudança também está ligada ao desgaste que muitas mulheres relatam viver dentro dos relacionamentos. Em muitos casos, elas ainda assumem grande parte do chamado trabalho emocional: acolher, sustentar conversas difíceis, organizar conflitos e manter o vínculo funcionando.
“Vivemos o fenômeno do burnout afetivo. Muitas mulheres chegam à terapia exaustas de carregar o trabalho emocional de parceiros que não têm letramento emocional”, diz a psicóloga.
Nesse cenário, a amizade feminina aparece como um espaço de troca mais equilibrada. “A amizade surge como um oásis de reciprocidade: você dá apoio, no entanto, também recebe, sem precisar ensinar a outra pessoa a ser empática”, pontua.

Uma nova forma de amar
Para Cibele, essa tendência reflete uma mudança mais profunda, que é a redefinição do próprio conceito de amor.
“Estamos vivendo a era da desierarquização dos afetos. O amor não é mais uma pirâmide com o marido no topo; é uma rede”, resume.
A pandemia também ajudou a acelerar esse processo, ao reforçar o impacto da solidão e a importância das redes de apoio. Ainda assim, a especialista faz um alerta: nenhuma relação deve ser responsável por suprir tudo.
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