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Andreza Matais

Judiciário tem 1.200 servidores entre o 0,01% de maior renda do país

Informação é do auditor da CGU Sérgio Guedes-Reis, após levantamento sobre a elite do Judiciário

12/08/2026 15:02
Vinícius Schmidt/Metrópoles
Imagem colorida do STF, com a estátua pichada após atos de 8 de janeiro

Um juiz na base da magistratura brasileira ganha o equivalente a 95% da remuneração de um integrante da Suprema Corte dos Estados Unidos — o país com a maior economia do mundo.

A informação é do auditor da Controladoria-Geral da União Sérgio Guedes-Reis, que publicou recentemente um levantamento sobre os ganhos dos integrantes de carreiras da elite do funcionalismo público.

Dentro dessas carreiras, alguns membros chegam a figurar no 0,01% de maior renda do país — o que significa ganhar mais de R$ 200 mil mensais em 2025, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE.

“Encontrei cerca de 1,2 mil juízes, membros do Ministério Público e advogados públicos que receberam mais de R$ 2 milhões em 2025, já excluídos os valores referentes ao abate-teto. Esse patamar equivale a estar entre o 0,01% de maior renda no Brasil”, diz Guedes-Reis.
E mais: um magistrado brasileiro não precisa estar no topo da carreira para ganhar mais que seus pares de outros países desenvolvidos — inclusive membros das supremas cortes de outros países.

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“No comparativo internacional, encontrei cerca de 7,4 mil juízes brasileiros que receberam mais de 500 mil dólares em PPC (Paridade do Poder de Compra, uma métrica para tentar calcular o poder de compra em diferentes países). Isso significa ganhar mais do que qualquer juiz dos dez países que analisei”, diz ele.

“Na verdade, até um juiz relativamente ‘pobre’ dentro da magistratura brasileira — isto é, situado no P25 remuneratório, no quartil inferior da carreira — já recebe o equivalente a 95% da remuneração de um ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos e mais do que o máximo pago a juízes na Alemanha, França, Itália, Reino Unido e Portugal”, diz ele.

“Entendo que esse quadro demanda reformas profundas, porque esses dados indicam que o Estado, em vez de mitigar a desigualdade, acaba contribuindo para o seu aprofundamento. Não há métrica que justifique o pagamento de remunerações tão elevadas a segmentos que, até pela função que exercem, já concentram considerável poder”, opina Sérgio Guedes-Reis.

“Há, ao contrário, uma série de evidências de que nosso Judiciário não entrega um serviço de qualidade compatível com esse padrão remuneratório — e tampouco parece ter condições de, sozinho, tornar sua própria política remuneratória mais íntegra”, diz ele.
“Há indicadores globais, como os que compõem o Rule of Law Index, que colocam o desempenho do sistema judicial brasileiro entre os piores do mundo em algumas dimensões”, diz ele.

“No fator que talvez mais se aproxime da ideia elementar de ‘fazer justiça’ — a imparcialidade da justiça criminal —, temos um dos piores resultados: ficamos em antepenúltimo lugar entre 143 países, à frente apenas de El Salvador e Venezuela”, disse Sérgio Guedes-Reis.

O auditor lembra que a tentativa do Supremo Tribunal Federal de pôr fim aos penduricalhos no começo deste ano terminou com a legitimação de algumas das “parcelas extraordinárias” pagas aos juízes e aos membros do Ministério Público.

Por isso, argumenta Guedes-Reis, o país deveria buscar inspiração em medidas adotadas em outros países, como EUA, Chile e Reino Unido.