Governo de PE direcionou contrato a hospital de vice, diz auditoria
Ministério da Saúde aponta procedimentos pagos pelo SUS sem comprovação e diz que relação com governo teve “contratação direcionada de fato”

O Ministério da Saúde apontou falhas do governo Raquel Lyra (PSD) na contratação e fiscalização de um hospital pertencente ao marido da vice-governadora Priscila Krause e calculou prejuízo de R$ 1 milhão aos cofres públicos.
A Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Garanhuns, recebeu recursos do SUS por procedimentos cuja realização não foi comprovada nos prontuários.
A conclusão da auditoria do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS), encerrada nesta quarta-feira (12), é que o o hospital do marido da vice-governadora “forjou hemodiálises e tratamentos de câncer”.
Ao avaliar a forma como o Estado manteve os contratos com o hospital, os auditores afirmaram que o modelo se aproximava de uma “contratação direcionada de fato, ainda que não formalmente”.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO relatório também diz que relações contratuais de elevado valor com uma entidade vinculada a agente político de alto escalão, sem instrumentos robustos de planejamento e controle, aumentam os riscos à impessoalidade, moralidade e transparência.
Hospital recebeu por tratamentos que não foram feitos
Dos R$ 905,2 mil apontados como prejuízo, R$ 897,25 mil decorrem de procedimentos assistenciais sem comprovação adequada de execução nos prontuários. O DenaSUS propôs a devolução dos valores ao Fundo Nacional de Saúde. O órgão ressalvou que a maior parte dos recursos do piso foi aplicada corretamente e considerou regulares os pagamentos referentes às diárias de UTI.
Na hemodiálise, os auditores examinaram 507 prontuários, com registros de 2.602 autorizações de pacientes submetidos a tratamento dialítico. A comparação entre os pagamentos e as folhas de frequência, prescrições, controles de hemodiálise e anotações das equipes médicas e de enfermagem identificou 90 sessões sem comprovação. O hospital contestou a conclusão e informou ter localizado posteriormente documentos relativos a 15 delas, mas o relatório final manteve as 90 sessões entre os procedimentos pagos sem comprovação para fins da proposta de devolução.
As irregularidades alcançaram também o tratamento de pacientes com câncer. O relatório incluiu na proposta de ressarcimento 113 Autorizações de Internação Hospitalar pagas entre janeiro de 2023 e maio de 2025 nas quais foram identificados pagamentos a maior ou procedimentos não comprovados. Em casos de quimioterapia, os auditores encontraram prontuários sem o Controle de Frequência Individual e sem comprovação da aplicação dos ciclos cobrados do SUS.
A auditoria foi aberta a partir de uma demanda da Assembleia Legislativa de Pernambuco e examinou os serviços contratados pela gestão estadual entre janeiro de 2023 e julho de 2025.
Na conclusão, o DenaSUS apontou “fragilidades relevantes” na governança da contratação, na execução e no monitoramento dos serviços, na comprovação da produção assistencial e nos mecanismos de controle interno. O órgão recomendou medidas para corrigir as irregularidades, fortalecer a fiscalização e garantir a adequada aplicação dos recursos federais do SUS.
Como revelou a coluna, em fevereiro a governadora Raquel Lyra desembarcou em Brasília para se queixar diretamente ao presidente Lula da auditoria, que considerou uma tentativa de desgastar sua gestão. A denúncia que motivou a investigação foi apresentada por um aliado do prefeito João Campos (PSB), principal adversário de Raquel na disputa pelo governo do Estado. Os dois disputam o apoio do presidente Lula para suas candidaturas.
Em nota à coluna na ocasião, o governo de Pernambuco disse que “é mentirosa a afirmação de que a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro tenha recebido R$ 100 milhões entre os anos de 2023 e 2025. Nesse período, foram repassados aproximadamente R$ 67 milhões à instituição pelos serviços prestados.”
“Nos períodos em que a vice-governadora Priscila Krause esteve como governadora em exercício, o valor transferido totalizou R$ 2.444.419,91. Também é mentirosa a afirmação de que os repasses teriam sido de R$ 37 milhões”, complementou.





