Dono de bet e aliado de Temer: o “sócio” do Digimais de Edir Macedo
Roberto Campos Marinho Filho é "sócio" do Banco Digimais, de Edir Macedo, em fundo. Investigações remontam a 2013, na Operação Tritão

Alvo da Polícia Federal (PF) nesta terça-feira (23/6), o Banco Digimais tem como principal controlador o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Na Operação Miragem, a PF apura indícios de fraude contábil na condução da instituição financeira. A investigação é apenas mais um capítulo na trajetória de um dos principais “sócios” do banco de Edir Macedo: o empresário Roberto Campos Marinho Filho.
Ligado politicamente ao ex-presidente Michel Temer (MDB) e a outras pessoas de seu grupo, como o ex-senador Romero Jucá (MDB), Roberto Campos Marinho Filho tem pelo menos 25 CNPJs relacionados ao seu nome na Receita Federal. Apesar dessas conexões, ele não é mencionado na representação da PF para a Operação Miragem.
Uma das empresas de Campos, a Yards Capital, processa o Digimais, alegando prejuízo de quase R$ 500 milhões com a desvalorização de um fundo de investimentos, o EXP 1, da qual a Yards e o Digimais são donos.
No processo, Campos culpa o Digimais pela perda de valor do EXP 1. Segundo ele, o banco usou títulos emitidos pelas corretoras Fictor e Reag — além do Banco Master — para comprar participação no fundo. Tanto a Fictor quanto a Reag, assim como o Master, foram alvo de investigações recentes, o que derrubou o preço dos títulos.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA Yards Capital foi criada por Campos em fevereiro de 2023. Em sua página no site do think tank Milken Institute, a empresa é definida por sua atuação na “gestão de recursos próprios e de terceiros, em ativos líquidos e ilíquidos”.
Antes disso, o empresário atuava no ramo das casas de apostas online, as chamadas bets. Campos criou uma empresa chamada Zap Bets, que operava apostas esportivas e “cassinos online” por meio do WhatsApp. A aposta não deu certo, e o site da Zap Bets está fora do ar.
O ecossistema incluía também uma fintech que buscava viabilizar o envio de Pix pelo WhatsApp, chamada ContaZap. A empresa mantém CNPJ ativo na Receita Federal, mas não tem site nem contas ativas nas redes sociais. Em 2021, dizia ter 1,2 milhão de usuários.
A reportagem tentou contato com Roberto Campos Marinho Filho na tarde desta quinta (25/6), mas não houve resposta. O espaço segue aberto.
A relação com o governo Temer
Antes das bets, Roberto Campos Marinho Filho teve uma empresa de terceirização de mão de obra na área de tecnologia, a TCI BPO. Na sopa de letrinhas da firma, “BPO” significa “Business Process Outsourcing”, ou “terceirização de processos de negócios”.
Tanto a empresa quanto Campos são mencionados na denúncia do Ministério Público na Operação Tritão, deflagrada pela PF em outubro de 2018 para apurar um suposto esquema de fraudes em licitações na antiga Codesp, a Companhia Docas do Estado de São Paulo.
Na denúncia apresentada à Justiça em decorrência da investigação, o Ministério Público afirma que a TCI BPO de Campos e outras empresas relacionadas a ela pertenciam “a um mesmo grupo econômico ou, no mínimo, mantêm relações muito próximas entre seus sócios”.
As empresas do grupo, segundo o MPF, eram subcontratadas pela firma alvo da investigação, a N20 Tecnologia da Informação, para executar contratos com órgãos públicos durante o governo de Michel Temer (2016-2018).
Entre 2014 e 2022, a TCI de Roberto Campos Marinho Filho recebeu R$ 75,5 milhões do governo federal — parte significativa do montante é decorrente de contratos firmados durante o governo de Michel Temer. Mesmo assim, atualmente a empresa encontra-se em recuperação judicial.
Correção: Campos é sócio do Digimais em fundo, não dono do banco
Esta reportagem estava incorreta ao informar que Roberto Campos Marinho Filho era sócio do Banco Digimais. Na verdade, ele é cotista do Fundo EXP 1 por meio de sua empresa, a Yards Capital — o Banco Digimais também é dono do EXP-1, como “cotista sênior”. É apenas neste sentido que Roberto Campos Marinho Filho é sócio do Digimais. Ele não é dono de parte do banco.
Abaixo, a nota enviada pela assessoria de Roberto Campos Marinho Filho.
“Roberto Campos Marinho Filho não é e nunca foi sócio de Edir Macedo no Banco Digimais. Roberto é cotista do Fundo EXP1 (“Fundo”) que constituído no ano de 2012, e, no início de 2025, teve sua estrutura ajustada, com objetivo de viabilizar a entrada do Banco Digimais como cotista sênior, mediante integralização de cotas com carteira de direitos creditórios. A única conexão existente decorre do fato de ambos serem cotistas do mesmo veículo de investimento (Fundo), circunstância que, por sua própria natureza, não se confunde com participação no capital, controle ou gestão sobre as atividades do Banco Digimais.
Roberto Campos Marinho Filho não sendo sócio do Banco, não sofreu ou é alvo de qualquer investigação da Polícia Federal. O Fundo EXP 1 foi um dos primeiros a identificar os problemas nas carteiras de crédito e a processar o banco Digimais. O Fundo denunciou o recebimento de uma carteira de crédito com títulos sem lastro comprovado, com indícios de fraude financeira”.





