
Andreza MataisColunas

Academia e mídia estão insanas, diz ideólogo da nova direita dos EUA. Vídeo
Lido pela Casa Branca de Donald Trump e por bilionários do Vale do Silício, Curtis Yarvin defende reapropriação de “iluminismo sombrio”
atualizado
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Para o engenheiro de software e blogueiro Curtis Yarvin, a crise de legitimidade enfrentada pelas democracias ocidentais está relacionada à disfunção de duas de suas principais instituições: a imprensa e as universidades.
Lido por milionários do Vale do Silício e por integrantes do alto escalão do governo Trump — como o vice-presidente J.D. Vance —, Yarvin ganhou proeminência dentro da chamada “nova direita” dos EUA.
Na Internet, tornou-se conhecido escrevendo sob o pseudônimo Mencius Moldbug. Entre outras coisas, foi o primeiro a usar o termo “red pill” como metáfora política, segundo o perfil dele na revista The New Yorker. Depois, o termo foi apropriado por comunidades misóginas na internet e virou lugar comum na gíria online da anglosfera.
Outro conceito cunhado por Yarvin é o da “Catedral”: o conjunto de instituições responsáveis por pautar o debate público nas democracias, universidades e imprensa à frente. A ideia é que essas instituições são hoje o que a Igreja era para a Europa medieval: a autoridade responsável por ensinar a população a entender o mundo.
“A ideia de que o governo deve ser guiado pela imprensa e pelas universidades é algo recente, do século XX. O raciocínio original era: ‘política significa corrupção, incompetência; então deixemos os intelectuais comandarem’”.
“E eles aceitaram com entusiasmo. O problema é que, ao assumir o poder, foram se deixando levar por ideias que aumentavam sua própria influência, não necessariamente as melhores ideias para o país”, diz ele.
“No mundo moderno, as pessoas estão lá ouvindo essa mesma voz paterna (da imprensa televisiva), que parece com o pai delas, bastante articulada, e no entanto ela diz coisas malucas. Tipo, como foi que o mundo ficou obcecado com George Floyd (homem negro americano morto pela polícia em Minneapolis em maio de 2020)? Por que vocês estavam se importando com o George Floyd no Brasil?”, diz Yarvin.
Defensor de ideias controversas, Yarvin se considera um “neorreacionário” e diz que os Estados pré-modernos do Ocidente (como monarquias absolutistas) eram superiores às democracias liberais atuais em vários sentidos. Em outros escritos, já defendeu que os Estados deveriam ser governados não por presidentes eleitos, mas por uma espécie de “rei-CEO” submetido a um conselho.
A coluna entrevistou Yarvin por cerca de quarenta minutos na tarde de 29 de novembro deste ano, em São Paulo (SP). Yarvin veio ao Brasil como convidado do congresso anual do Movimento Brasil Livre (MBL).
(Leia ao fim a transcrição integral da conversa, na ordem cronológica em que ocorreu).
Abaixo, alguns dos principais trechos da entrevista.
Na sua opinião, o que é a democracia?
Você tem essa contradição, porque as pessoas usam a palavra democracia de duas formas muito diferentes. Elas usam a palavra democracia no sentido do (bilionário e filantropo) George Soros, da sociedade civil, talvez da mesma forma que (o ministro) Alexandre de Moraes (STF) use o termo.
O que seria (essa) democracia? Seriam as nossas instituições, as nossas universidades, a nossa imprensa, os servidores públicos. Meu amigo, tem uma palavra para isso, e não é democracia, é oligarquia.
As pessoas usam palavras como meritocracia, que significa, no fundo, algo como o “governo dos guardiões” de Platão (a ideia presente em A República de que o governo deveria ser exercido por reis-filósofos). Para esses guardiões platônicos, democracia significa “nós dizemos ao povo o que pensar, e como votar, e tudo dará certo.”
Isso até funcionou por boa parte do século XX. Eu chamo esse modelo de “catedral”, que é composta basicamente pelas universidades e pela imprensa (…).
Pela maior parte do século XX, você tinha essa elite dirigente que tinha uma visão de para onde ela queria que a sociedade fosse. Em meados do século, na era do “New Deal”, a sociedade estava florescendo, havia crescimento econômico, as coisas estavam avançando em alta velocidade. E é claro que todo mundo acreditava e amava essa elite.
Para começo de conversa, eles não tinham mais nada para acreditar. Era isso que estava nas telas das TVs. Pensem em americanos normais, que não eram da elite, em 1965. Eles estavam lá vendo Walter Cronkite na CBS. Walter Cronkite está dizendo a eles como as coisas são. Ele soa como o seu pai, muito convincente, muito plausível. Essa foi como uma era dourada, num certo sentido.
No entanto, no mundo moderno, as pessoas estão lá ouvindo essa mesma voz paterna, que parece com o pai delas, bastante articulada, e no entanto ela diz coisas malucas. Tipo, como foi que o mundo ficou obcecado com George Floyd (homem negro americano morto pela polícia em Minneapolis em maio de 2020)? Por que vocês estavam se importando com o George Floyd no Brasil?
Na sua opinião, a “Catedral” ficou maluca?
Sabe, a coisa que mais chama a atenção a respeito da “Catedral”, para um americano, é: por que será que esses poderes sempre concordam um com o outro?
Por que será que o New York Times sempre concorda com o Washington Post? Por que será que Harvard sempre concorda com o Yale? Note que eles concordam um com o outro ao longo do tempo. Harvard nos anos 1960 sempre concordava com Yale nos anos 1960. Mas o que eles pensavam naquela época é bem diferente do que Harvard pensa em 2025, e do que Yale pensa em 2025. Eles estão se movendo juntos, eles são sinópticos, como diriam os estudiosos da Bíblia.
Mas na verdade, não há ninguém no comando.
Digamos que você esteja em um estado totalitário, Como a Alemanha Nazista de Joseph Goebbels. Goebbels é o papa nazista. Tudo que é escrito na Alemanha precisa passar pelo Joseph Goebbels em algum nível. Portanto, ele garante que todos os jornais da Alemanha sigam a linha do partido nazista. E aí, todos esses jornais concordam uns com os outros. Muito fácil de entender.
Mas quando você tenta entender por que o New York Times concorda com o Washington Post, é bem diferente. Portanto, entender de onde essas ideias vêm e, especialmente, como elas ficaram tão estranhas, é a tarefa fundamental para entender qual é o problema com as nossas elites atuais.
Você tem essas pessoas na classe média baixa, pessoas que no Brasil seriam eleitores do Bolsonaro, evangélicos. Eles olham para essas elites e pensam, “Isso é loucura, essas pessoas estão jogando o país do abismo”. E geralmente as teorias dessas pessoas sobre o porquê o país estar caminhando na direção do abismo não são muito boas. E o resultado é que isso torna muito difícil para elas impedir que o país vá para o abismo.
É por isso que, quando você olha para o populismo em geral… e esse é o outro significado de democracia, na prática: populismo. Democracia significa ou meritocracia, que seria o governo do Alexandre de Moraes e do George Soros; ou populismo, que é o governo das mães do Facebook (no Brasil, geralmente diríamos “as tias do zap”). E as mães no Facebook estão tipo, “Bill Gates está injetando microchips no meu corpo”.
Nós temos esse conceito do “livre mercado de ideias”. É um conceito-chave não só da democracia, mas do liberalismo. O conceito diz que as boas ideias vão vencer as más ideias (…). Mas simplesmente não é assim. Quando você olha para o livre mercado de ideias dentro do movimento populista, você percebe que há alguns elementos em comum nas ideias que triunfam. Geralmente elas partem de um senso comum, só que misturado a maluquices que não funcionam.
O problema não é só que seria difícil se basear nessas forças populistas para dirigir um país. É que nós não estamos tratando de um país em condições normais. Estamos tratando de um país que está numa crise em câmera lenta. Se você olhar para o Brasil, se você olhar para os Estados Unidos, estes não são países saudáveis, em muitos sentidos. Não só os países estão doentes, como as nossas elites ficaram malucas. Como é que você conserta isso?
No entanto, você tem um programa para isso, não? Você não tem uma ideologia em formação? Como seria esse Ocidente pós-liberal ou os Estados Unidos pós-liberais no seu modelo?
Quando a União Soviética caiu, (os países da região) tinham uma fonte óbvia de ideias para o quê fazer em seguida. Era tipo, “nós tentamos esse modelo marxista-leninista, não funcionou, agora vamos tentar fazer mais ou menos como a Europa Ocidental”. Uma resposta muito simples. No fim, acabou que nem era tão óbvio assim, mas pelo menos parecia muito claro na época.
Na União Soviética, eles olhavam para uma calculadora feita nos EUA e diziam, “bom, nós nunca poderíamos fazer isso”.
Hoje, no Ocidente, tem uma saída muito óbvia. Agora, eu olho para o IPhone na minha mão e penso: “nós (EUA) nunca poderíamos fazer isso”. Nós fazemos o design, mas não podemos mais fabricar. Eles fabricam na China. Então, a resposta óbvia seria olhar para a China.
Foi um verdadeiro choque para o sistema político americano, que sempre pensou em si mesmo como um país excepcional. “Se você quiser saber como governar o seu país, ligue para a embaixada americana e eles vão te ensinar”. Tinha um manualzinho, tinha o Consenso de Washington.
Aí vem a China e apenas diz casualmente: “Não, na verdade, nós vamos fazer melhor, vamos superar vocês em tudo. Quando você sair do metrô de Nova York e entrar no metrô de Beijing, vai ser como sair do pior bairro de São Paulo para o melhor bairro de São Paulo”.
Isso é um choque para o sistema, algo que os americanos nunca assimilaram. Os americanos não aceitam a ideia de que talvez o Partido Comunista Chinês possa ter uma filial nos Estados Unidos, ou que nós possamos aderir ao socialismo chinês. Isso não é uma possibilidade.
Um dos motivos pelos quais eu me intitule um “neo-reacionário”, é que um reacionário é alguém que quer voltar ao passado. Alguém que diz: “Peraí, na verdade, nós estamos declinando e não avançando, vamos voltar o relógio.” O verdadeiro reacionário é alguém que tem uma ligação direta, visceral com o passado. Por exemplo, alguém no Brasil em uma família católica tradicional, alguém que tem um conhecimento profundo de como o governo funcionava há 100, 200 anos atrás, passado pela família.
Esse não é o meu caso. Você pode dizer que eu tenho um background de elite, mas eu não tenho nenhuma ligação com o mundo pré-liberal. Eu apenas acho que tem muitas coisas que eles, as pessoas que viviam num mundo pré-liberal, entendiam. E que nós não entendemos.
Você conhece a pirâmide de Maslow? Deixa eu explicar muito rapidamente. A ideia é que, basicamente, os seres humanos têm várias necessidades, e a mais básica dessas necessidades é o oxigênio. Você precisa de ar. Uma vez que você tenha ar, você começa a pensar em água. Depois comida, depois sexo, depois conforto e assim por diante.
Lá no topo, você tem o que o psicólogo Maslow chamou de autorrealização. É o que os alemães chamam de “bildung” (“formação integral”), tornar-se uma pessoa. Tradicionalmente, esta é a missão dos nobres.
Quando você olha para as pessoas no Vale do Silício, em São Francisco, na Califórnia, a maioria deles não é descendente de famílias nobres – alguns até são. Mas, independente disso, todos estão fazendo a mesma coisa. Quando você vai pro Burning Man, todo mundo lá está tentando se auto-realizar, se tornar a melhor pessoa que pode ser.
Muito da ideologia do Século XX é: “Nós vamos tornar todos os seres humanos em nobres, e vamos fazer isso tratando todos como nobres. E nós não acreditamos em distinções entre as pessoas. Acreditamos que todos são criados iguais. São as estruturas sociais que nos impedem de atingir a igualdade”.
O resultado disso tem sido que nós (removemos) estruturas sociais que funcionavam muito bem para pessoas que não eram nobres, onde elas tinham um senso de liderança, de comunidade.
Uma coisa que eu fiquei chocado ao descobrir é que na Inglaterra vitoriana, sob o reinado da rainha Elizabeth, como um inglês comum, você era obrigado a ir à igreja. Não era opcional. Era obrigatório, você tinha que estar lá todo domingo. Eles tinham uma lista de presença.
Um dos motivos pelos quais o movimento evangélico é tão forte em lugares como o Brasil é porque ele provê uma espécie de estrutura, Algo que o catolicismo costumava prover, mas que deixou de fazer à medida em que se tornou mais “protestante” a partir de meados do século XX (…).
Os evangélicos, que são uma religião muito ritualística, muito mágica, num certo sentido, preencheram a lacuna que o catolicismo deixou. As pessoas se tornam evangélicas muito por sentirem que não têm propósito ou sentido na vida. Eles vivem numa sociedade que diz a eles que eles deveriam ser nobres, só que eles não são. E aí, o que eles vão fazer? E aí elas encontram Jesus Cristo e ficam tipo: “graças a Deus, finalmente”. Essa história se repetiu milhões e milhões de vezes neste país.
Havia uma razão para os países terem uma igreja estabelecida. Havia uma razão para você ter uma ligação entre igreja e Estado. Os papéis de ambos se misturavam em termos de funcionamento da sociedade (…).
Só que eu percebi que não dá pra tratar todo mundo como se fossem nobres. E, ao mesmo tempo, os nobres deveriam ser tratados como se fossem nobres. Tipo, se você é um nobre, ninguém deveria te dizer quais drogas você pode ou não usar.
Ao passo que, se você for um operário numa fábrica de automóveis, daí sim, (você precisa de orientação) para não estragar a sua vida. Esse tipo de entendimento era muito claro para os governos pré-liberais. Eles aceitavam isso por “default”. Consideravam isso parte da governança.
Para encerrar, gostaria que você me dissesse como você vê algumas figuras da política da economia americana, começando por Peter Thiel.
O Peter é alguém que eu conheço há bastante tempo. A coisa é que… todo mundo espera que um bilionário conservador americano se comporte exatamente como um bilionário progressista americano. No sentido de criar instituições paralelas, de financiar causas pra lá e pra cá, de jogar um jogo meio George Soros.
Na verdade, essa não é a forma como a maioria das nossas pessoas ricas operam, porque a maioria delas é libertária, ou vêm de uma origem libertária.
Essas pessoas estão acostumadas, até certo ponto, a trabalhar contra o regime progressista atual. O que elas não estão acostumadas a fazer é tomar a responsabilidade de apresentar novas ideias. De dizer o que virá em seguida.
E eu acho que essas pessoas precisam avançar para a próxima etapa. Elas já se acostumaram a reagir contra o regime progressista atual, mas ainda não se acostumaram com a ideia de que são responsáveis por propor algo no lugar disso. Elas precisam ter uma ideia diferente, uma visão do que vem depois.
A resistência, aos moldes do século XX, quando eles se limitam apenas a dizer “não vamos fazer isso”, “isso é absurdo”, pode até ser útil, mas não basta. Precisamos ir além: ter uma visão concreta do que vem depois, não apenas negar o que já existe.
O que você acha de J.D. Vance?
J.D. Vance é alguém com quem já conversei algumas vezes. O interessante sobre ele é que, de certa forma, ele se parece com o Renan (Santos): fala a língua tanto do povo quanto da elite.
Isso é importante. O Renan (Santos, líder do MBL) consegue se comunicar como populista, dialogar com o eleitorado bolsonarista, mas também estudou Direito — se não me engano, com Moraes na faculdade.
Da mesma forma, Vance vem do interior profundo dos Estados Unidos e também estudou em Yale. Figuras assim são relevantes porque não dá para ter apenas um dos lados. Não existe governo sem elite — simplesmente não funciona.
É preciso reunificar essas duas metades do país: o eleitor do “red state”, que sente que algo está profundamente errado, mas não sabe o que fazer a respeito; e o outro grupo, igualmente convicto de que sabe o que fazer — e, muitas vezes, errado da mesma maneira.
Parte desse processo envolve o despertar desse eleitor conservador para a realidade: perceber que muitas ideias com as quais cresceu — sobre Constituição, democracia, funcionamento das instituições — não correspondem ao mundo real. É admitir que foi enganado, e isso é doloroso.
Mas, do lado da elite, também é necessário um despertar: entender que a meritocracia ainda produz pessoas brilhantes, mas desenvolveu ideias muito ruins. Ela se corrompeu com o poder que recebeu.
A ideia de que o governo deve ser guiado pela imprensa e pelas universidades é algo recente, do século XX. O raciocínio original era: “política significa corrupção, incompetência; então deixemos os intelectuais comandarem”.
E eles aceitaram com entusiasmo. O problema é que, ao assumir o poder, foram se deixando levar por ideias que aumentavam sua própria influência, não necessariamente as melhores ideias para o país.
Muita da confusão atual nasce daí. Para alguém dessa classe perceber que traiu a nação — mesmo que sem intenção — é uma epifania profunda. É como descobrir que você foi comunista ou nazista e concluir que não deve mais ser. Esse é o processo de recuperação do século XX pelo qual todos precisamos passar.












