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Muito se disse e se dirá a respeito do grande Stan Lee, verdadeiro demiurgo dos super-heróis Marvel, falecido no dia 12 de novembro de 2018. Alguns vão lhe oferecer os louros de grande gênio criativo, afinal, boa parte do imaginário pop contemporâneo teve, em sua criação, uma vital colaboração (Homem-Aranha, X-Men, Thor, Homem de Ferro, etc.). Outros vão lhe atirar pedras, acusando-o de centralizar em sua imagem a força criativa e o poder empresarial da Marvel, mostrando batalhas judiciais e desavenças históricas com, por exemplo, seus mais significativos colaboradores, como Jack Kirby e Steve Ditko.

Quis a ironia da providência que Lee viesse a falecer no mesmo ano que Ditko e um depois do centenário de Kirby. Eu mesmo tenho meus senões a respeito de Stan “The Man” Lee. Acho as primeiras histórias de seus heróis completamente enviesadas em um contexto paranoico e xenofóbico de Guerra Fria no qual alienígenas sanguinários têm a cara de Mao Tse-Tung.

É claro, fazia parte do contexto da época, mas Lee sempre foi bem espertalhão para direcionar suas criações a contextos que iriam satisfazer o establishment editorial de cada época. Nesse sentido, está no mesmo patamar que a utilização dos super-heróis como propaganda durante a Segunda Guerra Mundial. Heróis que ele pretendeu revolucionar.

Também não curto a ideia simplista, tão comumente divulgada, de que Lee é autor de uma “mitologia”, tal qual a grega ou a de qualquer povo antigo, mas adaptada às condições contemporâneas. Ele, junto a brilhantes artistas, criou um emaranhado unívoco e coeso, além de fascinante, de personagens que podem sim servir como símbolos de ousadia e liberdade. Mas há quem atribua a eles também uma influência nefasta na sociedade do consumo e na colonização de culturas locais. Nada pode ser mais distante do sentido pedagógico, histórico, científico e filosófico que os mitos da Antiguidade (que não tinham autores) detinham.

Golias Cinzento
E é justamente por essas e outras razões que gostaria aqui, em uma coluna sobre quadrinhos, de não me deter mais sobre aspectos duvidosos envolvendo Stan Lee, mas sim sobre a força de suas criações. Já falei aqui de minha trajetória afetiva com o Homem-Aranha e escrevi sobre a potência de Ditko no Doutor Estranho, mas nunca comentei sobre a que considero a mais efetiva criação de Lee, desta vez junto ao inegavelmente genial Jack Kirby (comentado aqui): o Incrível Hulk.

Por que o Incrível Hulk é meu personagem favorito criado por Stan Lee? É simples: porque ele não é um super-herói. Lee, até por questões editoriais, sempre foi extremamente econômico na maneira com que abordava a origem e consequente dicotomia que fazia seus heróis existirem. Todo herói tem alguma falha trágica que o projeta com sentido de dever e aventura. O Homem-Aranha tem a responsabilidade pela morte do tio; o Doutor Estranho, a redenção de sua arrogância através de uma libertação espiritual; o Surfista Prateado, o passado como carrasco de Galactus, etc.

No Hulk, essa simplificação ocorre de maneira verdadeiramente direta e proposital, mas o produto gerado não é um vigilante impulsionado por um senso de dever, e sim um problema que angustia perturbadoramente o seu protagonista. A dicotomia é transformada em ambiguidade: de um lado, temos Bruce Banner, um tímido, porém arrogante e seguro cientista. Figura complexada e culpada. De outro, uma abominação onipotente e incontrolável, que representa seu instinto de sobrevivência face à tentação autodestrutiva que domina seu alter ego. Nunca antes, em uma cultura de massas, aspectos de uma cisão freudiana do ego haviam sido colocadas de maneira tão simples e clara.

Banner: arrogante e complexado

O Hulk foi inspirado, evidentemente, em The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), de Robert Louis Stevenson (publicado em 1886), e creio que, para além do óbvio, há uma consonância muito interessante deste romance com o Incrível Hulk original. Quem leu o livro sabe que a verdade sobre Jekyll e Hyde serem a mesma pessoa só é revelada no final, quando o leitor já está totalmente integrado ao ethos de cada uma das personas assumidas pelo médico, daí o horror de descobrir que ambos habitam cada um de nós.

Quem leu o romance sabe também que Hyde não é exatamente um monstro, mas sim um homem voluntarioso, egocêntrico, violento e até galante. Nada indica que ele fosse necessariamente algo dicotômico e “mau”, mas sim espécie de homem livre de acanhamentos e preceitos repressores religiosos. Verdadeiro Übermensch, à maneira de Nietzsche, que, não à toa, lançava seu Zaratustra mais ou menos na mesma época.

As primeiras histórias do Hulk, publicadas ainda 1962, logo após o famoso e celebrado lançamento do Quarteto Fantástico, atestam um personagem ainda muito próximo desse Hyde de Stevenson. Cinzento (e não o famoso verde que ele adquiriria depois), cheio de si e arrogante – algo que faria o roteirista Peter David retomar a cor original e a personalidade “sacana” deste Hulk em boa parte de sua longa fase com o título –, temos primeiramente um “monstro” que revela claro gozo em ser o que é, espécie de potencialização da petulância original de Banner.

Aliás, olhando a foto de seu alter ego apresentada pelo único amigo, Rick Jones, ele afirma, no texto de Stan Lee: “Idiota! Ainda bem que isso aconteceu! Prefiro ser eu do que aquela coisa frágil da fotografia! Não preciso de ninguém! Com a minha força – o meu poder – o mundo poderá ser meu!”. Se pensarmos que este mundo poderia ser a conquista de uma certa potência interna, ser o Hulk parece mais libertador do que ser Banner.

Übermensch

É lógico que essas primeiras histórias são ajudadas pela virulência titânica dos desenhos de Kirby. É paradigmática de seu estilo a sequência de quadros em que Banner é atingido pela bomba de raios gama criada por ele mesmo (como uma arma antissoviética), que acaba transformando-o no Hulk. Ali estão o caos e a loucura que Kirby vinha atribuindo aos “perigos da ciência” desde a época em que desenhava história de monstros (nas quais esta era inspirada).

Lee e Kirby em seu ápice

Porém, se observarmos bem, logo na primeira página da primeira história já aparecem os três personagens arquetípicos que compõem a commedia dell’arte de qualquer uma de suas aventuras posteriores: Banner, o General Ross e sua filha, Betty. Neste momento, reconhecemos a marca de Stan Lee em criar princípios motores perpétuos para seus personagens. Estratagemas dramáticos que geram infinitas histórias. É ali que reside a mágica.

Por mais que eu vire um pouco a cara para o adesismo de Lee com a narrativa da Guerra Fria (não que pudesse ser muito diferente…), não há como negar a bela paisagem cultural que representa a espécie de “faroeste atômico” das histórias originais do Hulk. No deserto, solitário e perseguido, tal qual um John Wayne que, questionado, deixa a paisagem no clássico filme Rastros de Ódio, o Hulk desaparecendo no horizonte é um momento emblemático dos quadrinhos de super-herói. Nem mesmo o fato de a bomba ter sido acionada por um espião russo estraga a poética deste anti-herói americano incompreendido, irracional e selvático que se tornará a tônica do cinema americano dos anos 1960 e 1970.

A desolação do cowboy atômico

Como eu disse, Stan Lee foi um demiurgo, criador de mundos. Seus heróis tornaram-se arquétipos que saíram da pura e simples página de entretenimento para ambicionarem metáforas mais profundas da vida, ainda que atrelados ao consumo, ainda que muito questionáveis. Em minha afecção pessoal, porém, nenhum personagem de Lee (e de seus coautores) supera o Hulk, porque o Hulk supera a ideia de super-heróis. São características de uma obra-prima.



 


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