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Às vezes, excelentes quadrinhos passam assim, bobeando, diante de nós. Isso acontece muito com o fumetti, HQ italiana de banca que abarrota os espaços desprivilegiados desses estabelecimentos. O leitor de comics nem se dá conta de que, enfiadas entre uma publicação Disney e um mangá infantil, estão as preciosas edições fechadas, com histórias completas e um time de artistas de primeiro nível.

O “cast” dos quadrinhos Bonelli

O fumetti de banca (estilo “Bonelli”, porque fundado pelo histórico editor Sergio Bonelli) tem formato fixo, portátil, previsível, mas prima pelo respeito ao leitor e pela qualidade garantida. É uma aventura completa por gibi. As características fixas: Mais de 100 páginas, P&B e papel jornal. Você já deve ter ouvido falar de vários desses personagens: Tex, Zagor, Martin Mystère, Ken Parker, Julia Kendall etc.

O caubói virtuoso (Tex) surgiu em 1948 e é publicado no Brasil desde 1951. Uma legião de fãs realmente fiéis mantém sua publicação, hoje por conta da editora Mythos.

O fascínio dos italianos pelos gêneros americanos de HQ (faroeste, mistério, aventura, terror) deriva muito da proibição da entrada de quadrinhos estrangeiros (especialmente dos EUA) no país após 1939, no início da guerra. Fanáticos pelas publicações “pulp” americanas, os intrépidos leitores passaram a fazer histórias próprias desses gêneros, utilizando roteiristas e artistas locais.

Até hoje, a Disney possui em suas fileiras ótimos quadrinhos de qualidade feitos por italianos. O faroeste do país da bota mais tarde geraria também a febre dos famosos, violentos e modernos filmes “western spaghetti”.

Detetive do pesadelo

A edição Nº 1 da Lorentz

Há 30 anos, foi lançado na Itália o último grande expoente do fumetti estilo Bonelli. Dylan Dog, o “detetive do pesadelo”, trazia um charmoso e ácido investigador, numa Londres sombria, às voltas com casos sobrenaturais de vampiros, zumbis, fantasmas e freaks. Ao seu lado, um parceiro galhofeiro, inspirado no ator Groucho Marx (com a cara dele inclusive). Era a fórmula perfeita para um sucesso de mais de 300 edições no país, às vezes com mais de 1 milhão de volumes mensais vendidos.

“Dylan Dog” retorna ao Brasil, em comemoração aos 30 anos de sua criação, em três edições especiais (em lançamento trimestral) da editora Lorentz. A obra vem um pouco maior e mais bem cuidada do que o formatinho em papel jornal ao qual estávamos acostumados.

“Dylan Dog” havia sido publicado pela última vez no Brasil em 2006, na 40ª edição da editora Mythos. Record, Globo e Conrad também chegaram a publicar as histórias do personagem a partir dos anos 1990.


O lendário criador de Dylan Dog (e roteirista de centenas de suas histórias), Tiziano Sclavi, introjetou no personagem elementos que foram se sofisticando ao longo dos anos. Se as primeiras histórias eram mais aventurescas e até mais próximas do juvenil, a continuidade acrescentou elementos mais macabros e insólitos, influência do cinema de Dario Argento, George Romero e John Carpenter, assim como da indispensável literatura de Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft.
As novas edições

Duas das edições da Lorentz já estão disponíveis nas bancas, então é bom correr. As histórias foram selecionadas a dedo e são inéditas no Brasil. A primeira edição, “Retorno ao Crepúsculo”, é do ciclo mais clássico de “Dylan Dog” e traz os roteiros de Sclavi com ilustrações de Montanari e Grassani.

Trata-se de uma potente e complexa história situada em certa “zona do crepúsculo” (instância entre a vida e a morte), de aspecto surrealista e insano, demonstrando o quão elaborada narrativamente pode ser a história de um simples fumetti.

A segunda edição, “Manchas Solares”, tem roteiro de Pasquale Raju e desenhos de Bruno Brindisi. É mais linear e “descartável”, mas ainda assim interessante: o buraco na camada de ozônio e uma antena de captação fazem permitir que criaturas nefastas vivendo no sol sejam transmitidas para dentro dos seres humanos, transformando-os em espécie de zumbis.


Enquanto os desenhistas (um tanto genéricos — nada perto de outros mestres que já ilustraram o personagem, como Ivo Milazzo e até Mike Mignola) fazem de tudo para acentuar o aspecto “gore” das histórias, os roteiros são intensamente paranoicos, delirantes e claustrofóbicos.

Espero que essas três edições sejam motivo o suficiente para que uma nova série regular de “Dylan Dog” pinte por aqui. Para matar a ansiedade, é melhor não ver os horríveis dois filmes que fizeram do personagem, um dos anos 1990 (“Pelo Amor e Pela Morte”) e o mais recente “Dylan Dog e as Criaturas da Noite”, de 2011, com Brandon Routh. Muito abaixo do nível da HQ. Quem avisa amigo é.

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