metropoles.com

De volta a Conan: contos originais do bárbaro são lançados no Brasil

Editora do site Pipoca & Nanquim traz edição especial com a literatura de Conan

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

conan_metropoles_capa
1 de 1 conan_metropoles_capa - Foto: null

Já comentei sobre Conan por aqui e decidi voltar ao assunto. Afinal, a Amazon Prime anunciou nova série do bárbaro, com participação de um diretor de Game of Thrones (Miguel Sapochnik) e do produtor de Handmaid’s Tale (Warren Littlefield). É a promessa de uma adaptação de qualidade. Aproveitando, gostaria de falar (mais e melhor) sobre o personagem.

Recentemente, tive a oportunidade de ler a requintada (além de belíssima) nova edição para os seis primeiros contos de Conan (escritos por Robert E. Howard) publicada pela Pipoca & Nanquim. Conan, o Bárbaro é a primeira investida da editora em literatura.

Vale elogiar o capricho em oferecer uma publicação altamente respeitosa com o legado das histórias do guerreiro, que configuram a aurora do (hoje muito popular) gênero, dentro da literatura pulp, da “espada e feitiçaria”.

Algumas das “atrações” dessa edição incluem: capa dura ilustrada por Frank Frazetta (o lendário desenhista que popularizou a imagem de Conan em tinta a óleo); “jaqueta” de plástico para o livro; mapas; uma historiografia da Era Hiboriana; e um conto extra, dos anos 1930, publicado apenas em 1952. Isso e mais uma curta introdução escrita pelo editor e tradutor Alexandre Callari, especialista no personagem. As ilustrações cabem ao competente Mark Schultz.


Porém, nenhum adereço especial compensa o prazer derramado que é a leitura dos contos originais de Howard, com todo o frescor e potência do gesto ousado de refletir, num mundo imaginário, sobre os limites morais da civilização e seus pactos (figurados ou literais) com demônios.

Literatura grandiloquente e visão sobre a natureza do mal
Esses contos, escritos por um jovem texano que se suicidou aos 30 anos, retratam todo tipo de visão sobre cultura e política do período entre guerras, tendo Howard francamente se inspirado, para criar os países da Era Hiboriana, em povos inscritos na história humana.

As descrições de arranjos e estratégias militares são contagiantes e realistas. O universo de Conan é desvelado com bruta verossimilhança. Iniciados nos quadrinhos do bárbaro podem estranhar a suavização das narrativas (mesmo elaboradas por mestres como Roy Thomas e John Buscema), poupando o público juvenil de aspectos mais sinistros, brutais e gore.

Esses contos de Conan são pedras brutas no alvorecer da literatura de culto, intocadas pela histeria do que hoje em dia chamamos “cultura pop”, e precisam seriamente de uma revisão histórica sob o escrutínio da crítica mais “acadêmica”.

O estilo de Howard é intenso. Suas descrições, tanto de aspectos físicos quanto mentais, são grandiloquentes, porém algo genuinamente literário resiste em seu vocabulário medianamente erótico e levemente kitsch. Há beleza e graça em seu narrar de ações brutais, sentimentos escusos e estratégias políticas.


Conan aparece com uma solidez não apenas de seu aspecto físico (um estilo macho comum em homens fortes de circo e marinheiros da época de Howard), mas também na clareza estoica de sua mente e de seu raciocínio – como se fosse programado para tomar a melhor decisão possível em frações de segundo.

A visão militar de Howard é um deleite, e o calor da batalha é servido ao leitor com uma virulência que o faz se sentir totalmente imerso num banho de sangue. A literatura do texano ainda é rica em tipos diversos (de camponeses e piratas até reis orientais e mulheres em papéis distintos), e suas descrições incluem requintes de arquitetura, geografia e natureza.

Além disso, Conan não é apenas leitura de fantasia, mas também de horripilante e agônico terror, tão perverso e apavorante que pode causar náuseas no leitor. Os contos são recheados de feiticeiros (nada estereotipados ou ingênuos) com pactos macabros e ansiosos por poder político, criaturas alienígenas e demônios luxuriosos.

As torturas realizadas por tais seres são descritas pelo autor, ao mesmo tempo, com detalhes inescrupulosos e estranhezas que nos fazem questionar sua sanidade. É patente a semelhança com a prosa abominável (num bom sentido) do pai do horror metafísico e amigo de Howard, H. P. Lovecraft.
Para ambos, o mal está associado ao prazer desmedido, o lúbrico acima de todos os valores, e termino este texto com as palavras do autor narrando a relação de Conan com nada menos que a própria morte. É uma boa metonímia de seu estilo e legado:
“Conan ouviu tudo imperturbável. A guerra era seu ofício. Desde o seu nascimento, a vida havia sido uma contínua batalha, ou uma série delas, e a morte, uma companheira constante. Ela espreitava ao seu lado; pairava aos seus ombros junto às mesas de jogatina; seus dedos ossudos tamborilavam nos copos de vinho. Avolumava-se acima dele, uma sombra monstruosa e encapuzada, sempre que ele se deitava para dormir. Mas ele se importava com sua presença tanto quanto um rei se importa com seu copeiro. Algum dia, ela fecharia seu punho cerrado sobre ele; isso era tudo. Bastava que ele vivesse no presente.”

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?