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Em fevereiro deste ano, o mundo viu ir embora um de seus grandes quadrinistas. Não que a perda de Jiro Taniguchi seja tão célebre quanto as recentes mortes do gênio francês Moebius (em 2012), do grande ilustrador americano Bernie Wrightson (em 2017) ou de seu conterrâneo, pioneiro do gênero gekigá, Shigeru Mizuki (em 2015). Porém, o legado de Tanigushi é algo que o mundo ainda virá a descobrir, graças ao lento tempo de maturação de suas obras e de sua apreciação zen e pastoral da vida.

Tive um contato maior com Taniguchi quando morei na França entre 2014-2015. Lá, ele é uma verdadeira febre. Apadrinhado pelos célebres quadrinistas Fréderic Boilet e François Schuiten (que iniciaram um movimento de cooperação entre HQs francesas e japonesas chamado nouvelle manga), quase tudo que ele produziu estava disponível nas inúmeras livrarias de quadrinhos de Paris.

O traço lindamente delineado, os cenários geometricamente detalhados e as melancólicas expressões nos rostos de seus personagens me chamaram a atenção. Eu precisava descobrir quem era aquele espantoso mangaká (autor de mangás).

CASTERMAN/REPRODUÇÃO

Taniguchi produziu desde os anos 1970, e sua obra da juventude é associada especialmente ao gênero seinen (mangás para jovens homens adultos) e ao gekigá (desdobramento realista e violento do gênero, surgido nos anos 1950). Por mais que ele tenha se virado em quadrinhos de aventura e violência urbana, sua celebridade se deu pela forte expressão da relação com o universo natural (são famosos os seus quadrinhos de alpinismo) e com a vida íntima da família japonesa. Aqui, a influência de um mestre como Yoshihiro Tatsumi (criador do gekigá) é inegável. Foram esses sopros de existencialismo e melancolia que conquistaram os franceses.

Parti logo para sua obra mais famosa e madura, produzida em 1998, o enorme romance gráfico “Um Bairro Distante” (em francês “Quartier Lointain”), publicado inicialmente em dois volumes. É com esse título que quero fazer uma pequena análise e me despedir propriamente do mestre japonês na arte de nos carregar de emoções sutis por meio dos quadrinhos.

Em “Um Bairro Distante”, não é apenas a exuberância da arte estilo “linha clara” (influência que Taniguchi coletou da HQ francesa clássica) que torna a leitura de suas 400 páginas um deleite para ser visto e revisto. O autor japonês possui domínio extraordinário do timing narrativo (pausas, paisagens, expressões) para encaixar o leitor exatamente dentro do sentimento ou da situação dramática propostos pela história. Nesse sentido, sua arte é moderna e cinematográfica. As imagens valem, e muito.

REPRODUÇÃO/CASTERMAN
Fora a infalível elegância na arte de quadrinizar, Taniguchi propõe no romance gráfico um tema que torna impossível que qualquer leitor se sinta alheio a ele: Hiroshi, um “family man” habitante de Tóquio, de 48 anos, se vê magicamente “viajando no tempo” quando se encontra, de repente, mais uma vez em seu corpo de 14 anos, no ano de 1963.

O assombro inicial desse milagre, aos poucos, vai sendo substituído por uma forte intensidade de viver sua juventude de novo. Além disso, há um mistério: seu pai, que abandonara a família perto dessa época em seu passado, encontra-se prestes a fazer a mesma coisa novamente. Poderá ele mudar o curso do tempo e impedir a tragédia de sua família?

O realismo mágico da trama e o aspecto proustiano da história (a busca pelo tempo perdido) por si só é suficiente para encantar o leitor mais amadurecido. Ler “Um Bairro Distante” torna impossível, para qualquer um, não pensar quais caminhos da vida poderiam ser refeitos em uma nova chance, ou se, pensando a partir de Nietzsche, os eventos da realidade estão condenados a se repetirem eternamente.

Taniguchi nos apresenta, portanto, não apenas uma estranha história de viagem no tempo, mas uma melancólica reflexão sobre os estágios da vida, a rememoração dos momentos que nos tornam quem somos e uma minuciosa análise da relação dos japoneses com suas famílias e suas cidades. Tudo a partir de um contraste entre a vida simples dos anos 1960 e a rotina exaustiva da era contemporânea.

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Neste sentido, Taniguchi encontra eco em seu ídolo, o gigante cineasta Yasujiro Ozu, um mestre absoluto do shomingeki, o gênero cinematográfico japonês responsável por contar detalhes da vida cotidiana das famílias japonesas no pré e pós-guerra. Assim como Ozu, Taniguchi transforma a rotina do shomingeki em uma passagem zen pelos augúrios da vida, uma reflexão existencial sem mote específico, sem forma definida.

Infelizmente, “Um Bairro Distante” nunca saiu no Brasil. Para encontrar a obra de Taniguchi por aqui, há apenas três opções: o já clássico “Gourmet” (de 1997, publicado pela Conrad), que, em tom semelhante, vai tratar da vida solitária de um homem de meia idade a partir de sua relação com a comida japonesa; “Seton” (de 2004, pela Panini), história selvagem de aventuras apenas ilustrada pelo mestre (com roteiro de Yoshiharu Imaizumi), e “O Livro do Vento” (de 1992, também pela Panini). A paciência para que as editoras brasileiras abram os olhos para este gênio dos quadrinhos requer algo de zen. Requer algo de Taniguchi.



 


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