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O mês de outubro acabou e foi muito marcante para mim e minha família. Minha mãe, Moema Leão, finalizou – com sucesso – seu tratamento contra um câncer no útero, diagnosticado em dezembro de 2016. Encerramos uma fase difícil, enfrentada com muita coragem e otimismo.

A descoberta de um câncer é um baque enorme e não foi diferente para nós. A ideia de a pessoa mais amada passar por algo tão sofrido, que pode levá-la para sempre, é simplesmente desesperadora. Desconhecíamos o que ela teria de enfrentar, quais seriam os efeitos colaterais, o que nos aguardava. Uma expectativa horrível.

Giovanna Bembom/Metrópoles

Como sempre, D.Moema nos conduziu por essa trajetória. Com sua atitude forte, determinada e positiva, se organizou para cumprir o cronograma determinado pelo Dr. Fernando Maluf, seu oncologista. Ele optou por primeiro realizar a cirurgia e, depois, a quimioterapia seguida pela radioterapia. Em São Paulo, antes da operação, minha mãe já mostrou estar pronta para o que viesse. Tudo correu perfeitamente e sua recuperação foi impressionante.

Restabelecida da cirurgia, iniciou a quimioterapia. Essa foi fase mais angustiante, pelo menos, no princípio. Não sabíamos como ela reagiria, como o corpo se comportaria após as medicações e como ficaria psicologicamente. Todos os filhos a acompanharam na primeira sessão. Esperávamos o pior nos dias seguintes: vômitos, enjoos, fraqueza. Mas nada disso ocorreu. Ela ficou mais confiante e nós, consequentemente, também.

Felipe Menezes/Metrópoels

Moema (de rosa) e suas filhas: Narcisa Leão, Valéria Bittar e Vivianne Piquet

 

E, assim, foram todas as oito sessões do tratamento. Para falar a verdade, as sete seguintes se transformaram quase em um evento no hospital. Ríamos muito contando histórias antigas e conversando. As enfermeiras ficavam impressionadas, muitas vezes, participando do papo. A alegria dela mudava a energia do local.

Lá pelo terceiro ou quarto ciclo, apesar de minha mãe estar se sentindo muito bem, alguns efeitos colaterais físicos foram inevitáveis. Seus cabelos começaram a cair e ela resolveu raspá-los. Em um domingo, chamou a cabeleireira até sua casa para fazer o serviço. A cena foi muito emocionante. Ali, se revelava a mulher em sua forma mais real, enfrentando o que a vida lhe oferecia (foto abaixo). Em nenhum momento, houve choro ou tristeza. A expressão dela era de paz e tranquilidade e exibia uma nova beleza. Não tinha mais os cabelos fartos e negros, sua marca registrada. Era somente ela, sem artifícios, simplesmente linda.

Arquivo Pessoal

Os acessórios para cabelos tornaram-se uma diversão. Era sempre uma alegria vê-la arrumada, maquiada, com a boca pintada, diversificando o visual com turbantes, perucas e lenços, ou assumindo a careca mesmo.

Morremos de rir quando ela nos contou sobre a consulta com o Dr. Fernando, realizada na semana seguinte à sexta sessão de quimioterapia. O encontro seria especial, já que ele definiria se o tratamento seria concluído em seis ou oito ciclos. D.Moema se arrumou toda, colocou a peruca, passou batom vermelho e foi. Estava certa de que estaria livre das medicações. O médico, no entanto, olhou para ela e disse: “Você está tão bem. Vamos fazer as oito”. Incrédula, mamãe respondeu: “Ah, não! Se eu soubesse disso, teria vindo careca, sem maquiagem e com uma cara triste”. Dr. Fernando caiu na gargalhada.

Depois da quimioterapia, viria a radioterapia. Fui com ela à consulta para entender o procedimento, que já havia despertado, de novo, a expectativa sobre quais danos poderia causar. Mais uma vez, conversávamos e ríamos muito por tudo, inclusive com o médico e os enfermeiros. Mamãe comentou: “Vivianne, esse pessoal deve achar que sou louca!” Saímos do hospital aos risos.

As sessões radioterápicas duraram um mês e eram feitas diariamente. Minha mãe se preparou para os efeitos da radiação, as queimaduras na pele e as alterações dos órgãos próximos à região tratada. Novamente, nada aconteceu. Os cremes franceses próprios para queimaduras estão lá, intocados.

Felipe Menezes/Metrópoels

Minha mãe é uma excelente paciente. Segue à risca todas as orientações médicas sem discutir. Procurava suplementos naturais que pudessem fortalecer seu sistema imunológico, se alimentava corretamente, bebia muita água. Apesar da gravidade da doença, ela manteve o corpo saudável, o que, com certeza, a ajudou na resposta aos tratamentos.

O “Outubro Rosa” de 2017 tem um significado diferente para a nossa família. Marca a maior vitória da minha mãe. Durante os 10 meses de tratamento, ela nunca se vitimizou ou se sentiu injustiçada por causa da doença. Encarou de frente e com muita alegria todos os contratempos. Não se deixou abater nos dias mais difíceis. Tinha consciência de que iriam passar e novos amanheceres viriam. Nunca se esqueceu de agradecer a Deus porque tudo estava dando certo e por estar viva.

Os desafios da vida aparecem repentinamente e somos abençoados, eu e meus irmãos, por termos uma mãe que sempre nos deu bons exemplos de como lidar com as complicações de nossas trajetórias. Ela nos surpreende com sua força, seu otimismo, sua garra e vontade de viver. Depois de quase um ano, somos pessoas melhores, mais gratas pela vida. O sofrimento nos fez crescer e valorizamos cada momento juntos.

Mãe, com toda a certeza do mundo, se eu for a metade da mulher que você é, estarei realizada.

Arquivo Pessoal

Moema, rodeada pelos netos na última sessão de quimioterapia

moema leãoOutubro rosacâncer de útero
 


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