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“Em Busca de Vingança” não traduz com exatidão a persona de Arnold Schwarzenegger em seu novo filme. Para um astro de Hollywood com tal acúmulo de carisma e fama, o título parece indicar mais uma trama de ação em que o austríaco soca criminosos, atira antes de perguntar e despeja, quem sabe, um breve catálogo de falas engraçadinhas ditas com o über sotaque de sempre.

Schwarzenegger passou a vida encarnando variações do mesmo herói de ação. De um bárbaro guerreiro numa pré-história alternativa e mágica (“Conan”) aos sujeitos inscritos em distopias cruéis (“O Exterminador do Futuro” e “O Vingador do Futuro”).

 

Em “Predador”, ele combinou como ninguém a capacidade para equilibrar cenas de porrada e tiro com one-liners, achados “poéticos” definidores de uma potência interpretativa pouco respeitada, mas bastante comunicativa. Deu “Comando para Matar” e fez as vezes de “Um Tira no Jardim de Infância”. A repetição de tipos rendeu o metalinguístico de “O Último Grande Herói”, filme massacrado à época (1993) e mais tarde cultuado.

Aos 70 anos, Schwarzenegger espertamente vem diminuindo seus riscos atléticos em prol de filmes, digamos, minimalistas. Seu mais recente papel notável como astro de ação foi visto em “O Último Desafio” (2013), com Rodrigo Santoro e Johnny Knoxville (“Jackass”).

Compilação definitiva das melhores one-liners de Schwarzenegger:

Entre uma e outra tentativa de blockbuster (pontas na franquia “Os Mercenários”, parceria com Sylvester Stallone em “Rota de Fuga”, performances esquecíveis em “O Exterminador do Futuro: Gênesis” e “Sabotagem”), Schwarzenegger tentou evocar seu Clint Eastwood interior.

“Em Busca de Vingança”, por mais enganoso que o título nacional seja (“Aftermath”, nome original, sugere repercussões e efeitos de uma tragédia), nada tem do que já conhecemos do astro.

Dirigido por Elliott Lester (de “Blitz”, com Jason Statham) e produzido por Darren Aronofsky (do recente “Mãe!”), o filme adapta para a realidade americana o desastre aéreo de Überlingen, em 2002. Troca nomes, lugares, números. E usa o austríaco como veículo de um drama sobre os ecos pessoais e sociais do luto.

Schwarzenegger é Roman Melnyk, um senhor de modos simples que trabalha na construção civil. Preparou uma festinha particular para receber Nadiya e Olena, esposa e filha. Quando vai ao aeroporto, é informado de uma colisão entre dois aviões a 6 mil pés. Um deles vinha da Europa e trazia as mulheres. As autoridades desiludem familiares e amigos: será impossível encontrar sobreviventes.

Tão acostumado a usar o corpo como arma indestrutível em filmes de ação, desta vez Schwarzenegger reduz sua presença física a um velho homem em sofrimento. Melnyk carrega cicatrizes invisíveis e exige de alguém um pedido de desculpas. Incapaz de processar a empresa aérea como gostaria, concentra a raiva em Jake (Scoot McNairy), controlador de voo diretamente responsável pelo acidente.

Infelizmente, o roteiro simplista e cheio de conveniências de “Em Busca de Vingança” soa insuficiente ao que Schwarzenegger parece disposto a entregar. Mas é curioso o ponto de contato que se forma entre esse filme e “Maggie: A Transformação” (2015), outra faceta dramática encarnada pelo austríaco. Direção de outro nome pouco conhecido: Henry Hobson, em seu primeiro longa.

Na era do revival zumbi, de “Guerra Mundial Z” (2013) a séries como a interminável “The Walking Dead”, o ator também vestiu a angústia de um pai em luto. Maggie (Abigail Breslin) acaba de ser infectada por uma epidemia de mortos-vivos.

Despachada para casa, ela só tem o pai, Wade (Schwarzenegger), como companhia no que devem ser seus últimos dias antes de a doença incurável se espalhar por seu corpo e transformá-la em uma adolescente sem vida, sedenta por carne humana.

Em algum momento, ele terá que escolher entre pôr fim ao sofrimento da filha ou dela se afastar, tentar isolá-la enquanto espera por uma solução que não virá ou qualquer outro paliativo que ele sabe ser inútil.

“Em Busca de Vingança” e “Maggie” não passaram nem perto do sucesso, mas mostraram que Schwarzenegger está aberto a desafios. Resta saber o quanto dessa vontade de explorar outros tipos de interpretação renderá interesse de grandes diretores (alô, Clint Eastwood) e filmes tão marcantes quanto seus clássicos de ação.

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