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Nelson Rodrigues (1912–1980) costumava falar sobre o tal complexo de vira-latas. A mania do brasileiro de não se valorizar perante os gringos segue, em menor ou maior grau, até hoje. Um capítulo dessa radiografia social do dramaturgo ocorre na televisão: o descaso com a série 3%, produção original da Netflix.

“Descaso” talvez seja uma palavra muito forte. O desinteresse, com certeza, é latente. A produção de Pedro Aguilera é sucesso internacional, enquanto aqui, no Brasil, encontra tímidos defensores.

Distopia de primeira linha, 3% aborda um tema latente no Brasil e no mundo contemporâneo: como sobreviver ao caos social e ambiental. A solução encontrada pelo “casal fundador” foi ampliar a desigualdade. Apenas 3% da sociedade tem acesso à tecnologia, ao conforto e à riqueza – qualquer semelhança com o capitalismo atual não é mera coincidência.

 

A crítica sobre as atuações – sobretudo na primeira temporada – são mais que justas. No entanto, vencida essa questão, o roteiro do seriado impressiona: no primeiro e no segundo ano, há uma trama envolvente, complementar e complexa.

Críticos internacionais já enxergaram o potencial do seriado de Aguilera. “A segunda temporada baseia-se na assustadora semelhança entre o processo e os rebeldes da causa. Levanta a questão: vale mais ser complacente com a corrupção ou ingressar em uma corrente terrorista no limite?”, aponta Kayla Cobb, do Decider.

A série 3%, entretanto, não responde a essa questão. Pois, como se sabe, não há solução fácil. E a série trabalha bem esse ponto. Após acompanhar a saga de Joana (Vaneza Oliveira), Fernando (Michel Gomes), Rafael (Rodolfo Valente) e Michele (Bianca Comparato), vemos como os quatro sobreviventes ao processo seguem a vida.

Cada um quer, à sua maneira, acabar com a crueldade e a desigualdade do método de seleção. Os personagens seguem aterrorizados pelo o que viram e descobriram na primeira temporada. Assim, partem para um tentativa de salvar o mundo baseados em seus próprios conceitos.

3% está longe de ser sutil, tanto narrativa quanto politicamente. Mas há algo atraente na necessária abordagem direta [do tema]"
Liz Shannon Miller, da IndieWire

Não à toa, 3% virou a série de língua não inglesa mais vista na Netflix mundial. A terceira temporada chegará ao ar em 2019.



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