Como o duelo Conte x Juventus valoriza o Campeonato Italiano

Mesmo com a derrota após o clássico, a Inter de Antonio Conte, um estrategista de alto nível, já apresenta ideias interessantes e claras

Giuseppe Cottini/NurPhoto via Getty ImagesGiuseppe Cottini/NurPhoto via Getty Images

atualizado 08/10/2019 11:08

A hegemonia da Juventus na Serie A é indiscutível. Os oito títulos seguidos marcam o domínio na década. A grande novidade para 2019/20 é o impacto da chegada de Antonio Conte à Inter de Milão. É verdade que diferentes adversários tentaram ameaçar as conquistas bianconeras nos últimos anos (Roma e especialmente o Napoli), mas o treinador transmite uma competitividade capaz de passar outra imagem para a disputa.

Conte é o personagem do momento. Multicampeão como jogador e treinador da Juve, agora é o maior candidato a “antídoto” contra uma sequência difícil de ser quebrada. A questão não é apenas a previsibilidade da tabela. Um campeonato pode ter ótimo nível técnico e ser ainda competitivo, mesmo que a classificação não apresente uma real disputa por título. Não foi o caso da Serie A em parte da atual década, mas a retomada começou nos últimos dois anos.

O Campeonato Italiano, historicamente tão forte e presente na memória dos apaixonados por futebol internacional nos anos 80, 90 e 2000, viveu momentos críticos como competição, perdendo importância para outras ligas nacionais. Mas reagiu. Personagens como Maurizio Sarri e Gian Piero Gasperini, exemplos com Napoli e Atalanta, ampliaram o repertório tático do torneio.

Na atual temporada, as transformações geradas pelas trocas de treinadores na parte de cima da tabela criam novidades. A mais curiosa também envolve Inter e Juve. Agora, o vencedor e competitivo Antonio Conte está no lado desafiante, enquanto Sarri, de bom futebol e poucos títulos na carreira, tem a responsabilidade de manter a hegemonia enquanto implementa um outro modelo de jogo. Por si só, já é uma combinação interessante.

A vitória da Juventus sobre a Inter na 7ª rodada foi simbólica e importante. Além de mexer no topo da tabela, marca a mensagem de que a “nova Juve”, mesmo em claro processo de transição e na busca por ajustes coletivos, pode manter o perfil vencedor, inclusive para superar alguém que mudou tão rapidamente a Inter de patamar. Foi a vitória de Sarri sobre Conte, mesmo que pouco conclusiva em um estágio tão precoce da temporada. Acima de tudo, foi simbólica pelo nível tático que apresentou ao longo dos 90 minutos, com substituições, variações e leituras fundamentais para as alternâncias de domínio. Reforçou a capacidade de Sarri e também o potencial de um princípio de projeto de Conte. Reforçou que a Itália é novamente capaz de entregar um clássico no mais alto nível do futebol mundial, algo que Inter e Milan não conseguiram nos últimos anos, lamentavelmente.

O novo obstáculo para a Inter é superar o primeiro deslize, que veio justamente no jogo mais importante. Até então, a equipe não havia ficado um minuto sequer atrás no placar na Serie A. Para acompanhar um adversário tão implacável, não há margem de erro. As contratações de Barella e Sensi parecem encaixar perfeitamente na ideia de meio-campistas do sistema de Conte, complementando o trio central com Brozovic. É uma engrenagem que ainda deve oscilar, mas sob o comando de um estrategista de tão alto nível, as ideias de jogo já se apresentam com bastante clareza.

Se o reencontro com a Juve, o duelo com Sarri e o impacto imediato na Inter já são grandes atrações, os limites da forte personalidade de Conte podem determinar a duração ou o teto do trabalho. O desgaste antecipou a queda de produção de um Chelsea campeão inglês. Em anos anteriores, a Internazionale chegou a ter boas arrancadas (com Luciano Spalletti e Roberto Mancini, por exemplo), mas não se sustentou. Tanto que não termina o Italiano entre os três primeiros desde 2010/11.

Hoje, ainda é difícil competir contra a favorita e hegemônica Juventus quando o assunto é regularidade, aproveitamento ou profundidade de elenco. Mas em mentalidade, estratégia e competitividade, há uma Inter disposta a tentar. A Serie A ainda tem bastante a evoluir, mas dá passos relevantes ao resgatar a importância de um enorme clássico mundial, acrescentar repertório tático à liga e oferecer mais um time jogando em alto nível.

SOBRE O AUTOR
Rafael Oliveira

Jornalista formado pela PUC-Rio. Comentarista no Dazn, iniciou a carreira aos 18 anos no Esporte Interativo e também trabalhou nos canais ESPN

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