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É como uma mancha de tinta em seu rosto: visível aos olhos de todos, totalmente desconhecida por você. Há até um certo incômodo por perceber os olhares de estranhamento do outro, mas, como ninguém fala o que está acontecendo, prevalece a dúvida.

Essa metáfora serve para descrever como são tratadas muitas verdades sobre nós, do que nos acontece, de como agimos ou do que fazem conosco. Vivemos a inconsciência de situações fragilizantes, nítidas ao olhar de quem nos vê.

Mas, por inúmeros motivos, o silêncio predomina. E, nessas situações, é o mau silêncio: aquele que deteriora as coisas, oculta a oportunidade de transformação, expõe ao vexame e ao escândalo. E o mais doloroso: o silêncio daqueles mais considerados, de quem mais esperamos lealdade e sinceridade.

Coloquemo-nos no lugar deles. Nem sempre é fácil indicar aquilo que expõe a ferida do outro. Nunca sabemos a profundidade dessa inconsciência, as dificuldades e interditos sobre o tema em questão, ou até mesmo a conivência (e talvez um certo prazer) em lidar com a situação.

Até porque a medida do problema é um fator subjetivo – até mesmo naquilo que pode parecer evidente. Por consequência, a imprecisão do bom senso surge como um embargo à solidariedade.

Quando seria a hora de intervir? Qual o tamanho apropriado para essa intervenção? O que separa a ajuda legítima da invasão de privacidade?

Há pessoas excessivamente opinativas. Elas apontam tudo aquilo que vai além das próprias expectativas. Há pessoas imparciais, não acusam o perigo a quem tropeça na beirada do abismo. O tal bom senso mora em algum ponto entre a intromissão e a omissão – mas nunca sabemos exatamente onde ele está.

O olhar empático talvez seja a melhor ferramenta para nos guiar ao caminho certo. Como eu reagiria se somente eu não enxergasse uma realidade tão elementar? Como eu gostaria que algo tão delicado me fosse comunicado, como me comportaria num equívoco de comunicação? Saberia eu distinguir a intenção na fala do outro, entender isso como uma forma de cuidado?

Cuidar. Talvez esta seja a chave de toda essa questão. Não só pelo valor e raridade, mas principalmente pela necessidade de lapidação exigida. Esse não é um exercício para valorizar a amizade – muitas, inclusive, não resistem às verdades ditas. E sim para renovação dos nossos critérios éticos, da forma como atuamos no mundo.



 


Bem-estarEmpatiabom senso