Será que o ponto G existe? Assunto gera polêmica entre profissionais

Uma série de pesquisas têm sido realizadas para desvendar a zona erógena e algumas apontam que, na verdade, a área não é real

Piotr Marcinski / EyeEm / Getty ImagesPiotr Marcinski / EyeEm / Getty Images

atualizado 06/07/2019 14:16

Durante muito tempo, o prazer feminino no sexo foi ligado a uma prática envolta em mistério: encontrar o ponto G. A zona erógena, que seria a verdadeira responsável pelo orgasmo das mulheres, foi apresentada pela primeira vez em 1950, pelo ginecologista alemão Ernst Gräfenberg.

Contudo, desde que surgiu, o ponto G tem sido um assunto controverso e bastante contestado. Diversos profissionais da área desacreditam da existência dessa zona de prazer e, nos últimos anos, alguns estudos foram realizados para tentar desvendar a mística por trás do ponto.

Eles acreditam que sim

Ginecologista do Centro de Medicina Fetal (Cemefe), Jordanna Diniz acredita que o ponto G não só existe como pode ser fácil chegar até ele. “O tamanho e o local do ponto G variam de mulher para mulher, mas normalmente está localizado entre duas e três polegadas (entre 5 e 7,5 centímetros) no canal vaginal, na direção do umbigo”, aponta.

Ela afirma que a ideia mais aceita entre a comunidade médica é a da existência do ponto G como um ponto de concentração de terminações nervosas com estimulação externa possível. “No entanto deve-se entender que podemos chegar à excitação máxima estimulando diversas áreas do corpo humano, não somente um ponto isolado”, complementa.

Em uma pesquisa realizada em 2012, o ginecologista Adam Ostrzenski afirma ter descoberto a localização do ponto G após ter dissecado o corpo de uma mulher de 83 anos. O médico encontrou uma estrutura de saco bem delineada localizada na membrana perineal dorsal. Segundo o especialista, a área compreende três regiões distintas e se estende de 8,1 a 33mm.

Em 2008, médicos italianos da Universidade de L’Aquila afirmaram que o ponto G existe, mas que nem todas as mulheres parecem ter. Por meio de ultrassonografias, a equipe descobriu diferenças anatômicas entre mulheres que disseram ter experimentado orgasmos vaginais e um grupo de mulheres que não experimentaram. Os exames identificaram uma região de tecido mais espesso, onde se dizia que o ponto G estava, mas que não era visível nas mulheres que nunca tiveram um orgasmo vaginal.

Eles acreditam que não

Fisioterapeuta pélvica, Andreia Magalhães aponta que as últimas pesquisas sobre o assunto afirmam que o ponto G não existe anatomicamente. “Ele foi ‘descoberto’ por um homem tocando o corpo feminino, mas sem estudo anatômico. Anos depois, uma mulher confirmou, por meio de dissecação de cadáver, que todo o canal vaginal possui uma camada muscular igual, ou seja, o ponto não é real”, garante.

Em 2017, um grupo de médicos do hospital australiano Austin concluiu que não existe nenhuma estrutura anatômica na região, além da parede vaginal. O estudo examinou mulheres entre 32 e 97 anos e foi publicado no periódico científico Journal of Sexual Medicine. Os pesquisadores afirmam que a sensação de prazer se deve à proximidade do clitóris.

A pesquisadora australiana Helen O’Connell, do Hospital Royal Melbourne, dissecou mais de 50 vaginas e também desacredita na existência do ponto G, confirmando a tese que o prazer causado pelo estímulo na região se deve ao clitóris. O mesmo foi encontrado por um estudo da universidade britânica King’s College, que analisou 1.800 mulheres.

Em fóruns de debate internacionais, diversos pesquisadores ainda discutem que os profissionais que defendem a existência do ponto G (e afirmam possuir evidências ) são aqueles que podem se beneficiar financeiramente de tratamentos voltados para a região íntima. Eles ainda acrescentam que as mulheres que confirmam que ele é real, com base em suas experiências pessoais, na verdade estão estimulando o clitóris.

Talvez exista?

A sexóloga Thalita Cesário pondera que não se pode considerar mito a existência do ponto G e que, infelizmente, muita coisa da sexualidade feminina foi negligenciada. “Tudo é novo, polêmico e incerto. O que podemos fazer é estudar, investigar, observar e tentar entender como o ponto funciona e pode contribuir para o prazer feminino”, analisa.

Ela explica que existem teorias que apontam o ponto G como sendo semelhante à próstata. “Minha opinião sobre isso é que ainda é necessário muito estudo até a comprovação. A cada descoberta, nos empolgamos e estimulamos as mulheres a se tocarem, se descobrirem. Por isso o ponto G está tão falado. A indústria pornográfica também contribui para a distorção do assunto”, indica.

Independente da existência ou não do ponto G, o perigo está na ditadura do prazer e orgasmo. Muitas mulheres, por não se conhecerem o bastante, se culpam e se acham inferiores pelo fato de não acharem tal ponto, não ejacularem, etc. Propagar que ele existe na verdade é bom pelo fato de estimular mais pesquisas e também mostrar que devemos falar mais sobre a sexualidade, especialmente a feminina

Thalita Cesário

Estimulando o G

Para estimular a região, Andreia recomenda o toque com o dedo indicador, fazendo um movimento de “vem cá”, posições como papai e mamãe e cavalgando, ou vibrador com estimulação clitoriana. Já Thalita recomenda sentir a região com o dedo indicador de preferência dobrado no formato “gancho”.

A ginecologista Jordanna sugere introduzir dois dedos lubrificados em direção ao umbigo. “Ao colocar todo o dedo, pressione contra a parte dianteira da vagina. Quando você estimular a região certa, haverá um pequeno inchaço. Deslize os dedos de lado a lado. Continue estimulando até o orgasmo.”

SOBRE O AUTOR
Tatyane Mendes

Formou-se em Jornalismo pelo Centro Universitário Iesb em 2017. Atuou na redação de veículos como Correio Braziliense, Jornal de Brasília e O Globo cobrindo editorias de educação, trabalho, sociedade, política e nacional. Compõe a equipe de Vida & Estilo auxiliando na cobertura social e elaborando matérias de comportamento, beleza e personalidades. É a atual colunista da coluna de sexo Pouca Vergonha.

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