Ilustradora brasiliense dá cara fofa a postagens sobre sexo

Conheça Débora Pimentel, artista brasiliense que acumula 68 mil seguidores em sua página no Instagram

Ilustração mulher se masturbandoFoto: Reprodução/Instagram

atualizado 18/03/2020 10:54

Cores vivas, coraçõezinhos e personagens tão bonitinhas que fariam dos desenhos candidatos a estampar capas de caderno de meninas do ensino médio – se não fosse pelo tema que retratam. Com 68 mil seguidores no Instagram, o perfil Cara de Fofa é a versão visual do famoso “tem cara de fofa, mas é safada”.

Débora Pimentel, animadora e ilustradora, é responsável pela página. A brasiliense viu nas ilustrações de cunho erótico não só uma forma de se libertar de tabus e inseguranças, mas também como um meio de ajudar outras mulheres a passar pelo processo.

Mesmo que tenha que lidar com preconceito e assédio, Débora busca se fortalecer diariamente em outras mulheres e ainda tem muitos planos para o Cara de Fofa. A Pouca Vergonha bateu um papo com a artista e entrega tudo.

Confira:

Você sempre trabalhou com ilustrações? Qual é a sua formação?
Sou animadora e formada em Publicidade e Propaganda pela Universidade de Brasília (UnB). Sempre desenhei, mas nem sempre trabalhei com ilustração, só em 2016 que comecei a investir mais nisso. Hoje, ainda atuo como animadora e a ilustração é meu segundo emprego, mas ainda pretendo me dedicar apenas aos desenhos.

Quando e como foi que você começou a fazer ilustrações de cunho erótico? A sexualidade sempre foi um tema comum na sua vida?
A sexualidade nem sempre foi muito presente na minha vida. Não se falava muito sobre isso em casa. Eu até tive “a conversa” na minha primeira menstruação, mas era o básico. Além disso, tive minha primeira relação sexual com 25 anos, e como é uma idade considerada tardia, eu evitava esse assunto por medo de ser julgada.

Em 2017, eu estava em busca de um tema para as minhas ilustrações, e fiz o desafio de desenhar todos os dias por alguns meses. Acabei tendo minha primeira relação sexual nesse período e o assunto acabou sendo uma inspiração diária. Nas ilustrações,  estavam presentes alguns elementos que uso hoje, como lettering e mulheres fofinhas.

A página do Instagram veio com as ilustrações? Ou depois?
Depois. Mostrei apenas para amigas, foi só quando vi as respostas positivas que tive coragem de começar a postar. No início, ficava com vergonha, nem colocava hashtag para ninguém descobrir as ilustrações. Ainda estava me acostumando a mostrar esse meu lado ao mundo. Com o tempo, mais pessoas foram descobrindo meu trabalho e se identificando, então ficou muito mais fácil produzir sobre sexo.

E qual o motivo do nome Cara de Fofa?
Eu quis fazer esta brincadeira porque tem muito a ver comigo, já que muita gente não espera que eu fale sobre isso. O primeiro nome da página foi Fofa e Tarada, que era o que eu queria resumir, mas ainda tem muita gente que fica com vergonha do termo “tarada”, então precisava de um nome mais subliminar.

Continuei procurando e, em uma música, ouvi “cara de santa”, mas não queria para não dar um cunho religioso. Até que cheguei em Cara de Fofa, porque é um nome pelo qual eu já fui chamada, e estava disponível no Insta.

Hoje você tem quase 68 mil seguidores em sua página. Quando você percebeu que estava começando a ficar conhecida?
Eu já me sinto megaconhecida desde os 3 mil seguidores. Alguns momentos certamente me deram confiança de que estava no caminho certo, como quando marcas começaram a mandar propostas de parceria, lojas de sex shop me enviaram produtos, recebi convites para expor em eventos. Ainda estou neste processo. Recentemente, marcas que eu gostava de produtos eróticos e camisinhas entraram em contato e foi incrível. Em dezembro, uma youtuber foi à minha mesa na Comic Con Experience (CCXP).

De onde você tira inspiração para as ilustrações e quanto da sua vida pessoal tem na sua arte?
Eu não coloco tudo da minha vida pessoal, mas tiro bastante inspiração dela. As primeiras ilustrações eram sobre o que eu gostava ou gostaria de fazer, falar. Mas não quis colocar apenas sobre minhas experiências, porque prezo muito pela diversidade, por isso, muitos temas são sugestões. Minhas seguidoras mandam muita mensagem, e tem gente de todas as idades, jeitos e gostos. A única coisa que não muda é a temática feminina. Já até recebi pedidos para desenhar homens, mas quero focar em mulheres.

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Tem algum tema específico que gera mais curtidas e interação dos seguidores?
Sim! Geralmente são as ilustrações que têm alguma cantada ou convite para sexo. Nessas a interação é bem grande – as pessoas saem marcando o contatinho ou as amigas, mandam por inbox. Elas chegam até a virar stickers no WhatsApp, que eu disponibilizo para os seguidores nos meus destaques.

Você tem que lidar com situações de preconceito, machismo e assédio no dia a dia por conta das ilustrações?
Tenho sim, infelizmente. Alguns seguidores já me deixaram bem desconfortável, eles confundem o bom humor da página e acham que podem me dar cantadas ou fazer perguntas muito íntimas e invasivas. Já recebi foto de piroca do nada, e nem adianta denunciar o cara, porque, para o Instagram, se aquela imagem está só no inbox e o não no feed, não há punição. Na minha página, tenho uma política forte sobre assédio. Peço para minhas seguidoras me mandarem o @ de qualquer cara que assediá-las e já bloqueio na hora, sem perguntas. Isso acaba inibindo alguns deles.

Também já passei por olhares de reprovação enquanto expunha meu trabalho em feiras, por exemplo. Sem contar com os homens que ficavam me perguntando detalhes íntimos da minha vida enquanto olhavam minhas ilustrações.

E tem o fato de eu ainda esconder minha página de alguns membros da família por receio da reação. Demorei um ano pra contar pra minha mãe, e mais ainda para o meu pai. Também não falo muito da minha arte no meu perfil pessoal.

Para além de possíveis repercussões ruins, que tipo de feedback positivo você recebe, principalmente das mulheres?
Os feedback mais legais são das pessoas que tiveram coragem para testar algo novo, mulheres que nunca se tocaram e passaram a se conhecer. Fico muito feliz quando alguma seguidora descobre um novo jeito de gozar, ou um produto que ela amou.

Outro feedback positivo é o efeito na autoestima delas, que também aumentou. Uma mensagem que me deixou muito feliz foi de uma seguidora que não conseguia se achar sensual porque não se encaixava na imagem padrão da mulher considerada sexy, como ser sedutora, ter um “corpão”. Mas que depois dos meus desenhos ela passou a se achar sensual do jeito que ela era.

Eu acredito que estamos vivendo isso juntas. Graças às dicas das seguidoras e de outras páginas sobre sexualidade, passei a conhecer um universo novo sobre o sexo e compartilho as experiências com as seguidoras. E assim elas se sentem seguras de falar comigo também.

Quais são os próximos planos para a página? Tem algum outro projeto para suas ilustrações?
Este semestre vou lançar um livro com as principais ilustrações do primeiro ano da página, e vai ter conteúdo extra com dicas e desenhos para colorir e curiosidades. Também quero desenvolver alguns produtos voltados ao Dia dos Namorados, a partir de ilustrações, como cartões, joguinhos etc.

No segundo semestre, farei uma ação com minha amiga, que é planejadora financeira, para ajudar as seguidoras a juntar dinheiro para comprar um brinquedo erótico. É a campanha do “Dindim pro brinquedim”. Ano passado fiz para mim e para as seguidoras. Foi um sucesso, então quero repetir. Meu plano é não só ficar nas ilustrações, mas, sempre que puder, ajudar as mulheres de outras formas.

De acordo com sua experiência, qual dica você daria para mulheres que desejam trabalhar falando sobre sexualidade na sociedade em que vivemos?
Eu acho que o principal é se fortalecer em outras mulheres. É o que eu faço quando sofro algum assédio ou preconceito – compartilho e recebo muito apoio, conselhos, porque toda mulher já passou por isso.

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