Empresária cria escola de negócios voltada para mercado erótico

A coluna bateu um papo com Paula Aguiar, que vê o setor do prazer como o business do futuro e defende a profissionalização do segmento

atualizado 20/02/2020 8:56

Foto: Getty Images

O empreendedorismo é uma área que tem chamado cada vez mais atenção dos brasileiros com o passar dos anos – tanto de jovens recém-chegados ao mercado de trabalho quanto de pessoas já estabelecidas que decidem mergulhar de cabeça em um novo projeto de vida.

Este último é o caso de Paula Aguiar, que, após anos no setor de informática de uma multinacional, vislumbrou nova oportunidade profissional. Para ela, o risco foi duplo: além de apostar no próprio negócio, escolheu o segmento erótico.

Há 20 anos no mercado do prazer, a publicitária, escritora e consultora já presidiu a Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico (Abeme) e receberá, neste mês, na Colômbia, um prêmio da Lalexpo – evento internacional que promove os melhores indicadores legais e comerciais para a indústria do comércio eletrônico para adultos – por sua atuação na internet como expert no segmento erótico.

Além de toda contribuição, Paula acaba de lançar a Escola de Negócios do Mercado Erótico. Nela, estarão disponíveis on-line cursos sobre conhecimentos específicos (Como Publicar um Livro e Sucesso de Vendas no Mercado Erótico são exemplos) e treinamentos gratuitos para empresas do ramo.

A coluna Pouca Vergonha conversou com a empresária para entender como funciona o business e as habilidades específicas que os profissionais da área devem ter para se destacar. Confira:

Conte um pouco de sua história no empreendedorismo e sobre como foi começar no segmento erótico
Eu trabalhava em uma multinacional e ensinava informática para crianças e idosos. Um dia a empresa me indicou para uma pessoa que queria abrir um sex shop virtual. À época, isso era uma coisa rara. No primeiro momento, me assustei. Há 20 anos o preconceito era bem maior. Fiquei um pouco chocada, porque eu nunca tido contato com o universo erótico.

Pouco depois, a multinacional dispensou todos os funcionários e fui trabalhar com meu marido vendendo itens de sex shop. A partir daí, comecei a entender o mercado erótico e reforçamos a ideia de que o produto é para apimentar a relação, tirar o casal da rotina.

Fiquei com essa empresa até 2004 e, no ano seguinte, lancei meu primeiro catálogo de produtos, e comecei a escrever sobre sexo. Em 2008, passei a divulgar informações sobre mercado erótico, publiquei um livro com a temática e, desde então, estudo o empreendedorismo desse setor.

Passei sete anos na associação, escrevi sete livros sobre sexo e produtos eróticos. Quando saí, criei o prêmio Melhores do Mercado Erótico e Sensual, que recebe apoio de várias entidades importantes. Em 2018, fundei o Mercado Erótico.org e, em 2020, lancei a escola.

Como surgiu a ideia de criar um curso para empreendedores desta área específica? 
Ainda é um mercado restrito, já que 83% da população não sabe o que comprar ou onde comprar. Resolvi criar a escola justamente porque tenho percebido o crescimento do setor. A intenção é profissionalizar o business, com cursos de venda e comunicação ministrados por especialistas.

Além disso, sei que é muito importante que educadores sexuais tenham materiais explicativos, como e-books. Então, também elaborei um curso, ministrado por mim mesma, sobre como publicar um livro com essa temática, para que profissionais tenham materiais consistentes para embasar seus trabalhos.

Como funciona o curso?
Teremos duas frentes de trabalho. A primeira é o curso pago, com aulas on-line de conhecimentos específicos ministradas por profissionais do mercado. A outra é um treinamento gratuito de produto para fábricas. Basta as empresas se inscreverem no site para receber treinamento on-line em qualquer lugar do Brasil.

Está nos planos fazer outras parcerias com mais professores e abrir novas opções de cursos?
Com certeza. Traçamos uma meta de, até o fim do ano, termos 50 cursos específicos com profissionais de todo o país e de fora também. Vamos trazer coisas variadas e inovadoras, desde cursos para organizar chás de lingerie até aulas de dança sensual para homens que querem ser gogoboys.

E cursos presenciais? Você têm pretensão de lançar algum workshop ou oficina?
Por enquanto, estamos focados na modalidade on-line, pelo número de pessoas que é possível alcançar.

Como tem sido a procura do público? Muitas pessoas buscam especialização neste segmento?
O de vendas é o mais procurado. Ele é importante porque melhora a questão do atendimento e do conhecimento do produto.

A grande sacada de vendas é a parte de revendedores. Acontece bastante de as pessoas falarem coisas para um atendente de sex shop que não dizem nem para os médicos… se o marido está com alguma disfunção, se há falta de libido… Esse vendedor tem de estar preparado para saber até onde pode ir, o que pode ser dito e até mesmo a hora certa de indicar um terapeuta ou médico. A vida sexual das pessoas é uma responsabilidade muito grande.

Dentro do know how empreendedor, existem características específicas que o profissional do mercado erótico deve ter?
A principal característica é não ter preconceito, isso é imprescindível. Se houver alguma resistência a questões de gênero, comportamento ou orientação, essa pessoa não serve para o mercado. Nosso setor é o que mais abraça minorias e diferenças, e devemos respeitar profundamente a todos os indivíduos. Outra questão é: não ser bem resolvido sexualmente. Se essa for a realidade, pode ser complicado.

Você acredita que o mundo erótico é uma tendência em ascensão no mercado? A que você acha que se deve isso?
O mercado segue as mudanças sociais de sexualidade, comportamento e educação sexual. As pessoas estão muito mais abertas às suas fantasias e questões internas. Ainda existe o preconceito, mas nunca se falou tanto sobre sexualidade e o assunto nunca foi tão amplamente divulgado. A mídia aborda o tema de forma mais leve, artistas levantam o assunto em suas redes sociais. Logo, acredito que vamos seguir essa tendência.

Os universos do empreendedorismo e do consumo adulto sempre foram majoritariamente masculinos. Nas duas décadas em que você atua no segmento, já percebeu alguma resistência?
No início era mais complicado. Quando comecei, eu tinha uma preocupação maior com o que vestia e com a minha postura como empresária. Eu sentia que precisava desse cuidado, porque as pessoas tinham uma visão distorcida do que era o mercado erótico. Hoje, não encaro mais assim. Consigo ser eu mesma, ter minha liberdade, e as pessoas já entendem melhor a posição de uma empresária no segmento adulto.

Houve recentemente um caso de censura a produtos eróticos em uma das maiores feiras de tecnologia do mundo. Você percebe alguma forma de preconceito com esse segmento dentro do universo dos negócios?
No começo sofremos muito com preconceito empresarial. Tínhamos bastante dificuldade em encontrar pessoal, porque os bons profissionais não queriam estar ligados a esse mercado. Hoje muita coisa mudou, mas ainda se trata de um setor muito restrito, no qual grandes investidores não acreditam. Não sei se por serem preconceituosos ou por terem medo de sofrerem preconceito.

Acredito que o mercado erótico é o business do futuro porque as pessoas querem e precisam ser felizes sexualmente. É importante se profissionalizar, buscar conhecimento, adquirir informação e normalizar a questão. O que me move ainda é essa vontade de fazer a diferença na vida dos outros, reconectar casais e pessoas com elas mesmas, como senhoras que, depois de certa idade, conhecem o prazer, o orgasmo e se redescobrem como mulheres.

Últimas notícias