De remédio a instrumento de prazer: vibrador completa 150 anos

Criado para curar a histeria feminina, o objeto evoluiu e se tornou símbolo da liberdade e do autoconhecimento sexual

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atualizado 01/03/2019 16:36

Não existe nenhum sex toy tão versátil quanto o vibrador. Concebido como tratamento médico, o item evoluiu, foi reinventado e em 2019 celebra seu 150º aniversário. Seja para autoconhecimento, apimentar a relação ou afastar a solidão, o acessório possui modelos para as mais diversas situações. Conheça sua história:

Embora não haja um consenso sobre a linha do tempo dos vibradores, muitos pesquisadores afirmam que ele surgiu para aliviar as lesões por esforço repetitivo dos médicos que tratavam pacientes com histeria, que vem do grego hystéra (útero). “Hoje, traduzimos a histeria das mulheres naquele período como uma repressão sexual. Na época, as pacientes apresentavam quadros de estresse, compulsão alimentar e fadiga”, explica a educadora sexual Karol Rabelo.

“Acreditava-se que a energia vital desse órgão se deslocava para outras regiões do corpo, como se o útero tivesse vontade própria, causando os ataques, como paralisia, confusão mental, múltipla personalidade e apatia em relação ao mundo exterior. Uma das formas de tratamento da doença era massagear o clitóris até chegar ao paroxismo histérico, o famoso orgasmo”, ensina a sexóloga Rose Villela.

 

Foi em 1869 que o médico norte-americano George Taylor patentou o primeiro vibrador a vapor. A invenção foi nomeada de The Manipulator. “Não era necessariamente um vibrador, mas fazia uma manipulação no órgão genital feminino para que os médicos não precisassem usar a própria mão. Era feito de madeira e em formato fálico, como um dildo, para ajudar a introdução na vagina”, conta Karol.

Um modelo elétrico foi criado pelo médico inglês Joseph Mortimer Granville, em 1880. Com o desenvolvimento da tecnologia, o aparelho foi aprimorado. Depois do The Manipulator, vários outros foram lançados, movidos à manivela, ar comprimido, à bateria e à eletricidade. “No início do século 20, a empresa americana Hamilton Beach patenteou o primeiro vibrador elétrico e ele passou a ser vendido como eletrodoméstico”, aponta a educadora sexual Luciane Angelo.

Por todo o século 19 e início do século 20, vibradores eram vendidos em revistas e jornais populares. Inicialmente divulgado como acessório médico ou massageador, o item ganhou conotação sexual após aparecer em filmes pornôs. Já na década de 1960, o vibrador desapareceu das publicações “respeitáveis”.

A revolução sexual foi crucial para que os vibradores voltassem a ficar em alta. “Os moralistas mantiveram o conceito negativo do aparelho, acreditando que o sexo servia apenas para a reprodução e não o prazer. Mas, em contrapartida, as mulheres se empoderaram com o lançamento da pílula anticoncepcional. Elas realmente passaram a entender o sexo de outra maneira e esse comportamento abriu caminho para a busca do orgasmo”, explica Karol. Nesse novo contexto, o vibrador passou a ser comercializado como sex toy.

No Brasil e no mundo
A demanda por vibradores no mercado brasileiro segue crescendo. Em 2018, o setor avançou 2,5%. A Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme) estima que, no Brasil, são vendidas 80 mil peças por mês, tanto produções nacionais como importadas. A informação foi levantada a partir das vendas da Hot Flowers, maior fabricante da América Latina, e da Loja do Prazer, maior sex shop on-line do Brasil.

De acordo com Clarisse Och, gerente de vendas da Fun Factory, marca de sex toys, a primeira sex shop do Brasil foi criada há cerca de 35 anos, e existem cerca de 50 a 70 fornecedores de vibradores no mundo. “Ainda é um mercado muito restrito e economicamente recente no país, mas isso não significa que não movimente bilhões de euros por ano em nível global”, pontua.

A executiva relaciona a maior procura por vibradores com o empoderamento feminino por meio da sexualidade que tem marcado os últimos anos. “Hoje em dia, as pessoas se sentem mais confortáveis. Aos poucos, estão reconhecendo que é necessário incentivar o uso do vibrador sem ter vergonha”, avalia.

“Os vibradores têm uma importância essencial para as mulheres, que sempre foram muito podadas sexualmente. Aquelas que nunca se masturbaram e não conhecem seu corpo acabam descobrindo seu potencial orgástico e outras possibilidades de prazer até então desconhecidas, como o Ponto G”, aponta a sexóloga Thalita Cesário. Ela completa que, para os casais, o vibrador ajuda na descoberta de novos prazeres e na comunicação.

Entre os benefícios do uso do vibrador, estão o aumento do fluxo sanguíneo e da sensibilidade da vagina. “O uso é recomendado, inclusive, para mulheres que perderam a sensibilidade da vagina, que fazem tratamento de fisioterapia pélvica, com disfunção sexual e também por mulheres trans para o descolamento das paredes vaginais”, exemplifica a sexóloga.

“Alguns estudos mostram, inclusive, a importância do vibrador para melhorar o tônus muscular da região genital, tanto de homens como de mulheres que perdem tônus com o passar da idade. O uso também ajuda com a melhora de irrigação sanguínea, colágeno e lubrificação”, complementa Rose Villela.

E para quem compartilha do pensamento machista de que os vibradores ameaçam a masculinidade, Thalita defende que o tabu deve ser desmistificado. “Existe uma crença de que ele é concorrente dos homens; de que se masturbar é errado; um julgamento tóxico de que mulher que usa sex toy não é ‘mulher de respeito’. Tudo isso é machismo! O problema não está no vibrador, mas na maneira como as pessoas enxergam a sexualidade”, critica.

A publicitária Giovanna Pontes, 21 anos, comprou seu primeiro vibrador assim que completou 18 anos. “Quando eu era criança, meus pais tinham um motel então eu sempre via, ficava curiosa, mas ninguém comentava nada a respeito”, relembra.

Ao atingir a maioridade, ela visitou um sex shop e comprou seu primeiro produto. “Me senti uma mulher superpoderosa, mas logo percebi que tinha a sexualidade reprimida. Quando eu me masturbava, me sentia suja, como se estivesse fazendo algo errado. Depois fui me descobrindo e vi que estava tudo bem, inclusive falar sobre isso. Aprendi o que eu gosto e esse é o caminho para transar bem: o autoconhecimento”, declara.

Foi só com o segundo vibrador, um Bullet, que Giovanna se encontrou no mundo dos sex toys. “Testei, gostei, estudei e me especializei. Hoje atuo como consultora de vibradores e tenho sete”, comemora.

SOBRE O AUTOR
Tatyane Mendes

Formou-se em Jornalismo pelo Centro Universitário Iesb em 2017. Atuou na redação de veículos como Correio Braziliense, Jornal de Brasília e O Globo cobrindo editorias de educação, trabalho, sociedade, política e nacional. Compõe a equipe de Vida & Estilo auxiliando na cobertura social e elaborando matérias de comportamento, beleza e personalidades. É a atual colunista da coluna de sexo Pouca Vergonha.

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