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Bem neste momento de troca de governo e de incertezas mil pairando sobre a arte e o pensamento nacionais, a Funarte Brasília, complexo cultural ligado ao Ministério da Cultura, inaugura uma nova exposição dentro de sua Galeria Fayga Ostrower.

Assim como os outros espaços anexos, a Sala Cássia Eller e o Teatro Plínio Marcos, a Galeria Fayga Ostrower sofre com calendário irregular de atividades e editais pouco atraentes financeiramente para abrigar produções independentes. De modo que – sim – trata-se de um peculiar evento esta exposição Pequenas Escalas, em cartaz até 16 de dezembro.

Sob curadoria de Ivair Reinaldim, professor ligado à Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a mostra reúne uma seleta de artistas contemporâneos brasileiros, todos envolvidos com trabalhos em miniaturas.

A ideia do curador sendo a de transportar para as mais diminutas escalas algumas preocupações frequentes em arquitetura, geografia, cartografia. A mostra também pretende se apresentar, explica Reinaldim em seu texto curatorial, como contraponto para certa tendência monumentalista da arte contemporânea (pense em Bienais e que tais).

Além da presença de duas obras de Gê Orthof, professor do Instituto de Artes da Universidade de Brasília, vale notar a participação de outros artistas de distintas origens e poéticas que, em determinados momentos das carreiras, passaram pela capital federal. Casos do paulista Nazareno e dos cariocas Cildo Meireles e Ana Miguel.

Dito isso, seguem aqui alguns pontos de interesse para a visitação…

 

Ana Miguel, a propósito, oferece ao atento visitante uma boa ajuda para desfiar a trama desta exposição. Afeita a instalações que podem se espalhar por largas salas ao mesmo tempo que se escondem em pequeníssimos detalhes, a artista cá se faz presente com um par de obras.

Hoje todos devem amar: um sonho de Léry (2012), já esteve armada aqui na cidade dentro da coletiva Nós, na Caixa Cultural, em 2016. Trata-se de uma das peças em que Ana Miguel rememora o processo de colonização e genocídio nas Américas. Outra vertente mui caudalosa de sua produção está representada em Sono (2006). O pó de talco demarca no chão da galeria um espaço em que se engendram outras possibilidades, e talvez outro tempo. A artista convida o espectador para que se agache, se ajoelhe, se aproxime – se recolha.

 

O vasto continente da memória parece se abrir como segundo lar para Ana Miguel. E para Anna Bella Geiger. Também há pouco tempo, essa multiartista, pioneira da arte conceitual, da performance e da vídeo arte no país, esteve em cartaz na Caixa Cultural com uma vertente de sua produção em objetos.

Gavetas de Memórias, mostra que ainda hoje circula pelas capitais brasileiras, se trata literalmente disso que seu nome promete. Anna Bella Geiger se apropria de velhas gavetas para utilizá-las como suporte/recipiente para os mais diversos materiais, areia ou terra ou encáustica ou cera de abelha ou qualquer massa que a permita esculpir geografias, cartografias, arquiteturas. Duas peças que bem poderiam estar girando nessa mostra individual de Anna Bella cá estão nesta exibição da Funarte. Parecem materializar à perfeição as intenções do curador Ivair Reinaldim.

 

Se Anna Bella Geiger puxa a gaveta da memória para revelar um continente em erosão, Circa I: Fronteiriço (2016), sua conterrânea carioca Brígida Baltar propõe a mais esmerada das arquiteturas para o mais prosaico dos viventes.

Mui influenciada pelas inesgotáveis relações arte/vida de Hélio Oiticica e Lygia Clark, Brígida Baltar gosta de confundir obra e biografia o tempo todo, em vídeo ou fotografia, e mesmo em objetos que podem parecer nada pessoais. Aqui para estas Pequenas Escalas, ela traz meia dúzia de peças em carpintaria. Numa delas, Casa Pássaro (2012), reconstruiu para uma família de passarinhos o palacete da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, onde viveu seus anos de formação.

 

Ainda descendo pelas escadarias da memória, outra artista carioca lembrada oportunamente por Ivair Reinaldim é Márcia Pinheiro de Oliveira, a Márcia X (1959-2005). A vertente mais conhecida – e controversa – de sua obra especula em torno de culpa e corpo, erotismo e religiosidade.

Reino do Céus (2005), pertencente ao acervo do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, pode ser entendido como um encadeamento de memórias. Ao longo da vida, Márcia X foi juntando caixinhas, latinhas, cestinhos, bonequinhas, toda ordem de badulaques e quinquilharias pessoais sem qualquer outro valor que não o afetivo. Encadeou com correntes de metal e prendeu a cada um desses elementos um pequeno passarinho de plástico devidamente coroado.

(A proposta original da artista seria permitir que o espectador abrisse a caixa que quisesse ver, movido pela curiosidade pessoal, pelo tato, pela visão, pela memória, pelo que bem entendesse. Mas aqui na Funarte ao visitante é permitido apenas que percorra com os olhos o Reino do Céus.)

Obviamente que toda exposição tem esse fator condicionante para seu sucesso, mas Pequenas Escalas depende enormemente da disposição do visitante em percorrer cada uma das obras e se aproximar – física e animicamente – do que cada um dos autores está a propor. Não há fogos de artifício para chamar a atenção.

Uma pessoa mais desatenta ou preocupada com o o horário pode passar batida pelo Camelô de Cildo Meireles. Bonequinho de látex branco, feito para ser quase transparente, quase invisível. Pouco mais alto que um rodapé. Ele está a vender as mais ínfimas das tralhas: mil alfinetes e aquelas tiras de plástico que deixam alinhadas as golas das camisas masculinas. Se prestarmos bem a atenção podemos notar que os seus braços se movimentam. Mas não podemos ouvir seu canto de pregoeiro. Mal podemos escutar o motorzinho que o anima através dos fios de náilon.

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

Objeto sem título (2011) de Brígida Baltar



 


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