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Christus Nóbrega esteve dois meses na China. Foi tempo suficiente para perceber que algumas certezas ocidentais precisam ser deixadas pelo prezado viajante, por favor, do lado de fora da grande muralha.

Artista interessado na perfeição técnica, ele entendeu que jamais conseguiria dominar completamente a caligrafia chinesa. Sujeito igualmente preocupado com a dimensão filosófica da palavra, ele também entendeu que, além da caligrafia, não dominaria a construção linguística do mandarim.

Portanto, a China que Christus Nóbrega traz para conhecermos na sua exposição “Dragão Floresta Abundante”, aberta esta semana no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), ainda está envolta em grande mistério. Uma dimensão de fábulas e fantasias.

A China funciona como um espaço aberto para a criação do artista-viajante, que aqui especula sobre a língua e as técnicas tradicionais de arte chinesas, ao mesmo tempo em que trata de temas como o regime político, a censura oficial do país e sua força industrial e mercantil.

 

O passaporte para Pequim chegou na forma de uma residência artística, oferecida pelo Ministério da Relações Exteriores do Brasil em parceria com o maior centro de estudos de arte da China, a Central Academy of Fine Arts (CAFA).

Christus ficou em Pequim entre outubro e dezembro de 2015. Preparou-se por meses aqui em Brasília, antes de seguir viagem, estudando mandarim por FaceTime e tentando montar um almanaque de referências históricas e visuais. Ao mesmo tempo em que reservava no espírito a necessária abertura para se deixar surpreender.

“Dragão Floresta Abundante”, a mostra que o artista agora apresenta em torno de sua experiência chinesa, traz naturalmente um bocado dessa preparação, um bocado desse maravilhamento.

E um bom indício para se entender a poética de Christus Nóbrega é saber que ele escolheu como companheiro de viagem o senhor Jorge Luis Borges.

 

No conto “O Idioma Analítico de John Wilkins” (1942), Borges escreve sobre um certo livro chamado “Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos”. Seria uma espécie de enciclopédia chinesa, da qual restariam pouquíssimos exemplares, em que animais fantásticos são descritos e classificados de acordo com uma mui peculiar taxidermia.

Christus encontrou ali uma boa desculpa para melhor se apresentar a seus anfitriões. Usou o livrinho impossível citado por Borges para empreender uma igualmente impossível busca por bibliotecas de Pequim. Ele saiu a vasculhar estantes e abrir gavetas numa ação performática, devidamente registrada em fotografias, movida por um certo fetiche que Christus e os chineses têm em comum por livros, papéis, edições antigas e pequenas relíquias de biblioteca – que lá sobrevivem até mesmo sob o severo patrulhamento da censura oficial chinesa.

“Expedição Empório Celestial” é o nome desta instalação que ocupa o meio da larga galeria do CCBB. De acordo com o projeto expográfico de Gero Tavares e com a curadoria de Renata Azambuja, a obra funciona como centro gravitacional para a mostra, atraindo de imediato os visitantes recém-chegados e submetendo todas as demais peças da sala à sua zona de influência.

Trata-se de um labirinto – um abraço para Borges – erguido em madeira, todo vazado, mas com pequenos nichos, com estantes, gavetas e portinholas que se oferecem para que o visitante repita o gesto de Christus ao percorrer as bibliotecas de Pequim.

 

A instalação funciona como um antigo gabinete de curiosidades, como nota o próprio Christus, ao mesmo tempo em que se relaciona com certa arquitetura tradicional chinesa e também com a filosofia do tao, ao apresentar uma dinâmica de espaços cheios e espaços vazios, numa busca por equilíbrio.

Christus Nóbrega e Renata Azambuja pensaram em “Expedição Empório Celestial” como núcleo da exposição por elaborar de forma mais clara uma experiência que o artista carrega ao longo de toda carreira e, em especial, nesta temporada chinesa. Uma experiência que gira ao redor do livro e da escrita. Ao redor da palavra.

O próprio nome da exibição, “Dragão Floresta Abundante”, vem do uso lúdico da palavra – um indício que remonta diretamente às aventuras de Christus em Pequim.

Gloria Li, artista de Taiwan que mora em Pequim, logo se tornou querida por Christus e atuou para ele como uma espécie de intérprete dos usos e costumes chineses. Formada em Letras e cursando mestrado na CAFA, ela desenvolve também um trabalho artístico com folhas de árvores e, certa feita, encontrou Christus num parque da cidade justamente a recolher folhas do chão. Foi Gloria quem rebatizou Christus Nóbrega de “Dragão Floresta Abundante”.

Christus nasceu em 1976, o ano do dragão no calendário chinês.

 

“Eu dividi minha experiência em Pequim em dois momentos”, explica Christus. “Logo no primeiro momento, tratei apenas de ver a paisagem. E a cidade também era ainda uma paisagem para mim, porque ainda havia um distanciamento e um maravilhamento. Depois, no segundo momento, pude vivenciar a cidade, porque seus códigos começavam a ser internalizados por mim. Toda ação acontece após uma observação.”

Naquele bosque em que encontrou Gloria Li a catar folhas de árvores, há um lago de águas verdes e cheias de carpas. Um simples toque de dedo na superfície desse lago – eis a imagem que, para Christus, melhor ilustra a sua passagem da observação para a ação.

“Sabe a maneira como um toque na superfície da água faz com que se formem círculos cada vez maiores? O mapa de Pequim também é assim. Tem um núcleo, que é a Cidade Proibida, e dali vai se expandindo em anéis. Esse toque na água também tem a ver com a própria ideia do tao, a ideia de um toque mínimo que vai repercutindo e se alastrando. Essa foi a forma em que comecei a entender o meu papel na China.”

 

Para Christus Nóbrega, a arte ocidental depois do modernismo, se tornou refém de uma ideia de novidade, um desejo constante e insaciável por ineditismo. Enquanto os artistas orientais, ao contrário, carregam um sentido de manutenção.

Na CAFA existe todo um bacharelado em caligrafia. Apenas após concluí-lo, o aluno se habilita a estudar a pintura tradicional chinesa. Há também todo um bacharelado exclusivamente para aprender a se cortar papel, fazendo aqueles cortes e dobraduras, os paper cuttings, expressão artística milenar.

“Ao enxergar o outro, ao entender os valores do outro, passamos a pensar melhor sobre nós mesmos”, conclui Christus. “Talvez todo esse nosso interesse, da arte ocidental, pelo novo esteja muito vinculado ao capital. Comecei a questionar isso. O quanto esse anseio pelo novo não é apenas uma criação artificial.”

Detalhe da instalação “Expedição Empório Celestial”

 

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