*
 
 

Para além de galerias e espaços usualmente abertos ao público, o projeto BSB Plano das Artes propõe uma série de visitas a ateliês de artistas plásticos. Rolando desde sexta-feira (2/3) e seguindo até domingo (4), o programa agita a cena local promovendo uma política de portas abertas.

Quatro ateliês participam da programação. Um deles é o da pintora Clarice Gonçalves, em Taguatinga. Outro é o de Valéria Pena-Costa, no Lago Sul, já palmilhado por, desde o ano passado, abrigar o projeto Fuga.

Os outros dois endereços, vizinhos entre si, estão no coração da Asa Norte. Exatamente numa das ruas mais peculiares do Plano Piloto. A comercial da 205/206 Norte ganhou o apelido de Babilônia Norte graças à arquitetura dissimilar, com passagens subterrâneas, passarelas suspensas e jardins em terraços.

Raquel Nava tem seu ateliê no bloco D da 205 desde 2010. Atualmente, ela divide o espaço com Cecília Bona. Christus Nóbrega, anos mais tarde, instalou-se exatamente no lado oposto da rua, no bloco D da 206, onde hoje também trabalha Cecília Mori.

A convite da coluna Plástica, os quatro artistas se reuniram na tarde da última terça-feira (27/2) já num esquenta para este fim de semana, dando um rolê pela Babilônia e abrindo seus ateliês para o prezado leitor.

 

Christus Nóbrega lembra que sua amiga e parceira recorrente Cinara Barbosa, produtora do Elefante Centro Cultural, vem bolando o BSB Plano das Artes há um par de anos. Quando o projeto foi aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura, do Governo do Distrito Federal, o convite para a participação dos ateliês surgiu naturalmente.

Até porque Christus, Cecília Mori e Cecília Bona são colegas de Cinara no corpo docente do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB). Raquel Nava conta também que Cinara levou seus alunos de graduação para visitar os ateliês da Babilônia mais de uma vez, afinal estão perto do Campus Universitário Darcy Ribeiro.

Desta feita, no entanto, a política de portas abertas envolve mais do que uma visita de estudantes. A ideia da participação dos ateliês no projeto deste fim de semana, eles contam, é trazer um público mais amplo – e permitir que as pessoas espiem a intimidade de um artista, entendendo um pouco de seu processo criativo.

Bom anfitrião, Christus Nóbrega quer estar presente no ateliê ao longo de todos os três dias do projeto para poder conversar pessoalmente com os visitantes, independentemente de saber que estará ali a postos – e em todos os demais endereços – um mediador do projeto com a função de ciceronear o público.

“Estamos em foro privado”, define Christus. “Como o ateliê é o espaço de intimidade de um artista, numa conversa aqui se apresentam naturalmente temas que numa exposição podem não ocorrer, e os visitantes podem ver os mesmos trabalhos que já viram antes, agora num outro contexto, numa outra disposição.”

“Acho que a presença de nós, artistas, é o mais interessante nesta visita aos ateliês”, concorda Cecília Mori. “Porque podemos falar sobre o nosso processo, um aspecto a que normalmente o público não tem acesso diretamente, mas apenas através de um curador ou das ideias de um crítico, que pega determinada questão do processo de um artista e a elabora.”

O ateliê funciona como um campo de testes. “Este é o nosso pequeno laboratório”, continua Cecília Mori, apontando, sobre as mesas e sobre o chão, trabalhos de diferentes fases de sua carreira, em diferentes materiais, em diferentes etapas de acabamento, todos convivendo num mesmo espaço. “Aqui estão nossos sucessos e também nossos fracassos.”

“Estamos desnudos”, provoca Raquel Nava, numa risada um pouquinho nervosa.

 

Desnudos – mas também um tanto empacotados. Um bom pedaço da ampla sala de Christus Nóbrega está ocupado com o que parece ser uma mudança. De fato, aquelas peças esperam pela transportadora para uma delicada viagem. Estão embalados os trabalhos da mostra Dragão Floresta Abundante, que ficou em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até janeiro. Daqui seguem para Belo Horizonte e, na sequência, Curitiba.

Essa é a mostra que Christus montou a partir de sua residência artística em Pequim. Uma outra exposição, que tem corrido em paralelo, é a Labirinto, que traz um resgate de suas origens paraibanas. Após ter aberto na Referência Galeria de Arte, ela foi para Belo Horizonte, onde fica em cartaz até amanhã no Palácio das Artes, e dali segue para o Rio de Janeiro.

Labirinto, entre outros materiais, traz antigos retratos da família de Christus Nóbrega, ampliados e impressos sobre peças de tecido. Um trabalho minucioso, para o qual não havia manual de instruções. O próprio artista teve que, numa série de tentativas e erros, descobrir como atingir o resultado que procurava, usando para tanto impressoras convencionais – aqui neste ateliê.

São histórias como esta, sobre a maneira como aprendeu a imprimir tinta sobre um tecido levemente umedecido usando uma impressora HP, que Christus Nóbrega pode compartilhar nessa visita.

 

Cecília Mori divide o ateliê com Christus. Porém, eles pouco têm em comum para além de um cotidiano em que equilibram o fazer artístico com os compromissos da vida acadêmica na UnB. Por questões de agenda, muitas vezes usam do ateliê como escritório, recebendo alunos, orientando formandos, se desdobrando em atividades que não necessariamente têm a ver com as poéticas pessoais.

Cecília tirou um semestre de licença da universidade e conta ter aproveitado bastante o tempo. Percebe-se apenas de olhar ao redor. Já pensando na mostra individual que abrirá no Elefante, próximo mês, ela vem trabalhando paralelamente com borracha, em objetos e instalações, além de desenhos com tinta óleo sobre papel e fotografias. “Tudo ao mesmo tempo agora.”

Ainda se encontram por aqui os milhares de lacres de plástico de duas instalações de parede que Cecília apresentou, também no Elefante, em uma coletiva no ano passado. E podemos localizar indícios, bem guardados num saco plástico, de uma recém-descoberta novidade: peças de cerâmica que ela vem trabalhando na oficina do escultor Paulo de Paula.

“De certa forma, as obras do Christus saem daqui mais prontas do que as minhas”, ela compara. “Claro que há toda uma questão de montagem na galeria, mas o que ele imprime aqui quase sempre é o que veremos na exposição final. Já os meus, muitas vezes, precisam ser refeitos. Como eu trabalho com instalações, aqui faço testes, tentando me aproximar o máximo possível do ambiente que encontrarei na galeria, mas sabendo que não vou chegar exatamente ao mesmo resultado quando for lá montar. Então é um processo que se desdobra em várias etapas e recomeços.”

 

Atravessando a passagem subterrânea que a 206 à 205, uma das distinções arquitetônicas da Babilônia, entramos no território de Raquel Nava e Cecília Bona.

Antes de dividir ateliê com Cecília Bona, Raquel já teve como parceiros João Angelini, Gê Orthof, Rita Almeida e Adriana Vignoli. Percebe-se, nessa lista heterogênea, que ela se move mais por afinidades pessoais do que por semelhanças de estilos ou técnicas.

Cecília Bona e Raquel Nava, no ano passado, chegaram a participar de uma mesma coletiva, À Vista – Paisagem em Contorno, na Funarte. Raquel tem se movido pela taxidermia, trabalhando com esculturas híbridas de material orgânico e industrializado. Enquanto Cecília, ao menos desde que voltou de residência na Islândia, há um par de anos, trocou os trabalhos em plástico e acrílico por material um tanto mais bruto: pedras.

Então mesmo que o ateliê das duas artistas, nesta tarde de terça-feira, ainda esteja sob os efeitos de uma reforma a que foi submetido entre dezembro e janeiro, fica tranquilo de perceber qual trabalho é de quem. Aquelas pedras no chão, por exemplo, pertencem a Cecília. Assim como aquelas peças de acrílico colorido no teto. E aquela cabeça de boi é de Raquel, claro. Assim como aquele pato empalhado.

“Não temos muito do processo aqui”, diz Raquel, pensando alto. “Temos sim, é só tirar das caixas”, responde Cecília Bona, já apontando para a escada, onde estão guardadas, além de material de construção, sobras da recente reforma, algumas peças de acrílico da instalação Cacos, desenhadas, cortas e erguidas especificamente para uma intervenção na marquise da Funarte.

Boa parte do trabalho recente de Raquel Nava não ocorreu no ateliê, mas no Hospital Veterinário da UnB. Onde criou parceria com o taxidermista César Leão, numa iniciativa que foi contemplada no Fundo de Apoio à Cultura com uma verba para ajudar a instituição. Esse mesmo edital, vale notar, também beneficiou Cecília Bona para promover um projeto um tanto inusitado: uma residência no transporte público brasiliense.

 

Na recente reforma, Cecília Bona pintou as paredes, arrumou a instalação elétrica e instalou uma rede de descanso, para poder se deitar pertinho do sofá. A obra foi necessária porque o estúdio de pilates ao lado está em momento auspicioso e quis alugar uma das salas de Raquel. Duas paredes foram movidas e uma nova configuração, adequada.

No piso logo abaixo do ateliê, todo o térreo do bloco da 205 é quase inteiramente ocupado por pet shops, um setor atualmente mui aquecido na economia da Babilônia Norte, assim como o de clínica veterinária e o de material para jardinagens. Mas ainda resiste ali um dos polos mais importantes do teatro candango, o Espaço Cena.

No imóvel que abriga o Espaço Cena, no início da década passada, a mãe de Raquel Nava comandava a Galeria Arte Futura, para a qual trabalhou Cecíia Mori, então estudante da UnB. Anos mais tarde, a Referência Galeria de Arte ocupou uma das sobrelojas do Bloco A daquela mesma quadra. Outras iniciativas, como o Ateliê ÔdeCasa, também ajudaram a afirmar a Babilônia Norte no roteiro sentimental e cultural brasiliense.

O projeto BSB Plano das Artes traz este e outros roteiros culturais, com circuitos de van gratuitos que unem galerias, ateliês e espaços ligados às artes visuais do Distrito Federal. Ao todo, vinte endereços participam da iniciativa. Vale conferir atrações, percursos e horários de funcionamento: bsbplanodasartes.com.br

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

A rua comercial 205/206 Norte



 


espaço cenaBSB Plano das ArtesBabilônia Norte