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No caminho para a escola, o rádio noticia mais um balanço da intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro. Em menos de uma semana, três adolescentes morreram por bala perdida, em bairros pobres da cidade. Um brincava em uma praça, o outro andava de bicicleta e o terceiro, que dormia, havia levantado para fechar a janela do quarto quando foi atingido. Tiros alvejaram meninos que estavam “no lugar errado, na hora errada”.

Durante o velório de um deles, a mãe, cercada de repórteres, lembra que o sonho do filho era ser jogador de futebol. “Ele me dizia que ia ficar famoso, aparecer na televisão. E agora ele está aparecendo, eu só não imaginei dessa forma”, dizia a mulher, com um soluço contido.

Pelo retrovisor, eu olho para os meus filhos, protegidos em suas cadeirinhas. Sinto uma mistura de compaixão por aquela mulher e alívio por saber que eu não sou ela, não é o meu coração em pedaços. Esse pensamento acaba por me envergonhar, pois me distancia daquela mãe, tão humana quanto eu.

Por que os filhos delas, na favela, são menos importantes que os nossos?

Não deveriam ser, sabemos, mas viram mera estatística em uma guerra da qual todos nós somos culpados. O Atlas da Violência 2018, divulgado em junho deste ano, revelou que, em 2016 (ano base para o levantamento), 62,5 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. Mais da metade (33,5 mil) eram jovens, entre 15 e 29 anos. E, dessa fatia, a quase totalidade (94,6%) é composta por rapazes.

Ou, em muitos casos, meninos. Thiago de Souza Mendonça, 14 anos; Wanderson Santos, 16 anos; e Thiago Ramos Pereira, 17 anos – os três garotos alvejados por balas perdidas – não eram muito mais do que meninos grandes. Ou será que alguma mãe da Zona Sul do Rio ou do Plano Piloto de Brasília não se referiria da mesma forma ao filho adolescente, que ainda frequenta o ciclo básico da escola?

Existe uma cruel relativização da morte a depender do lugar onde a vítima vive. Ninguém mandou nascer pobre e, mais que isso, preto. O mesmo Atlas da Violência mostra a dimensão da desigualdade racial em um país que até parece dois. Entre os 62,5 mil assassinatos de 2016, 71,5% foram de pessoas negras.

Na série histórica, os dados também são alarmantes. Em uma década, de 2006 a 2016, a taxa de homicídios de negros cresceu 23,1%. No mesmo período, os assassinatos entre não negros caiu 6,8%. “É como se, em relação à violência letal, negros e não negros vivessem em países completamente distintos”, diz o relatório, elaborado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).

Há alguns meses, um vídeo do Porta dos Fundos fez uma caricatura sobre o espaço que os jornais dão para notícias sobre violência urbana. Na busca da manchete, sete pessoas mortas na Rocinha valem muito menos do que um homem esfaqueado no Leblon, ironiza o vídeo – e quem já trabalhou em uma redação de jornal sabe que é bem assim. Talvez não tão escancarado.

Não são apenas jornalistas, contudo, que adotam a “tabela de conversão” do valor da vida. Somos você e eu, que sinto alívio ao ver meus filhos seguros dentro do carro. Ou minha colega de pilates, que ficou mais preocupada em saber se a bebê vítima de maus-tratos morava na Asa Sul. Até quando vamos permanecer inertes à dor do outro?



 


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