Em novo pedido de HC, alvo da Falso Negativo tenta enviar ação para TRF

Com a devolução do processo para a 5ª Vara Criminal, defesa de Ricardo Tavares reforça tese de que recursos investigados são da União

atualizado 23/09/2020 20:20

Ricardo Tavares Mendes, ex-secretário adjunto de Assistência à Saúde Vinícius Santa Rosa/Metrópoles

Em novo pedido de habeas corpus apresentado à Justiça, a defesa do ex-secretário adjunto de Atenção à Saúde Ricardo Tavares (foto em destaque), preso na segunda fase da Operação Falso Negativo, alega que a 5ª Vara Criminal de Brasília não é o foro adequado de julgamento e solicita que a magistrada decline da competência de julgar a ação. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) ainda não se pronunciou sobre a investida.

O argumento já havia sido apresentado ao desembargador Humberto Adjuto Ulhôa, no fim de agosto, quando Francisco Araújo ainda ocupava o cargo de secretário de Saúde afastado e, portanto, tinha foro privilegiado. Contudo, após a exoneração ocorrida no dia 14 de setembro, os autos foram redistribuídos para a instância atual.

De acordo com os advogados que representam o médico, as supostas infrações penais “devem ser analisadas sob o crivo da Justiça Federal, isso porque os recursos alocados para aquisição dos referidos insumos para o enfrentamento da Covid-19 (testes rápidos), objeto das dispensas de licitação em comento, são oriundos da União, atraindo, assim, a competência federal para apreciação dos supostos crimes”, argumenta. O novo pedido foi apresentado na última segunda-feira (21/9).

“No caso em comento, os processos de dispensa de licitação (nº 16/2020 e 20/2020) tiveram como fonte de recursos, especificamente, a alocação de verbas federais sob a gestão do fundo de saúde do DF que recebeu repasses da União”, completa.

Para sustentar a tese, a defesa de Ricardo Tavares reforça que cabe aos magistrados da 5ª Vara Criminal analisar o pedido o mais rápido possível, sob pena de anulação de desdobramentos do processo penal. “Isto porque há uma série de medidas  cautelares vigentes – prisão preventiva, sequestro de bens, quebra dos sigilos bancário e fiscal, apreensão de bens – que, naturalmente, reclamam a pronta definição do Juízo competente. Desta forma, não há motivo para postergação de tal análise para momento posterior, sobretudo para evitar maiores nulidades”, escreveu.

Segundo a peça apresentada à Justiça, “diferentemente da primeira fase da Operação Falso Negativo, nesta segunda, não há mais que se falar em Juízo aparentemente competente, porquanto já oferecida denúncia em desfavor dos investigados. Assim, vê-se que a acusação já está bem definida, propiciando uma análise madura acerca da competência”.

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15 denunciados

Os integrantes da ex-cúpula da Secretaria de Saúde são investigados por suposto superfaturamento e direcionamento de compras de testes de Covid-19.

Entre os crimes dos quais os 15 denunciados são acusados, estão os de organização criminosa, inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra (marca diversa) e peculato (desviar dinheiro público).

Com atualizações monetárias e danos decorrentes dos supostos crimes, os investigadores pedem que os acusados restituam R$ 46 milhões ao erário.

Na denúncia, o MPDFT pede “a condenação dos funcionários públicos à perda do cargo, bem como a interdição para o exercício de função pública pelo prazo de oito anos subsequentes ao cumprimento da pena”.

Foram denunciados pelo MPDFT:

  • Francisco Araújo Filhosecretário de Saúde à época da operação: foi denunciado por organização criminosa, inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra (marca diversa) e peculato (desviar dinheiro público).
  • Jorge Antônio Chamon Júniordiretor do Laboratório Central (Lacen): foi denunciado por organização criminosa, inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra (marca diversa) e peculato (desviar dinheiro público).
  • Eduardo Seara Machado Pojo do Regoex-secretário adjunto de Gestão em Saúde: foi denunciado por organização criminosa, inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra (marca diversa) e peculato (desviar dinheiro público).
  • Ricardo Tavares Mendes, ex-secretário adjunto de Assistência à Saúde: foi denunciado por organização criminosa, inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra (marca diversa) e peculato (desviar dinheiro público).
  • Eduardo Hage Carmo, ex-subsecretário de Vigilância à Saúde: foi denunciado por organização criminosa, inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra (marca diversa) e peculato (desviar dinheiro público).
  • Ramon Santana Lopes Azevedoex-assessor especial da Secretaria de Saúde: foi denunciado por organização criminosa, inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra (marca diversa) e peculato (desviar dinheiro público).
  • Iohan Andrade Struck, ex-subsecretário de Administração Geral da Secretaria de Saúde do DF: foi denunciado por organização criminosa, inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra (marca diversa) e peculato (desviar dinheiro público).
  • Emmanuel de Oliveira Carneiro, ex-diretor de Aquisições Especiais: foi denunciado por organização criminosa, inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra (marca diversa) e peculato (desviar dinheiro público).
  • Erika Mesquita Teixeira, ex-gerente de Aquisições Especiais:  foi denunciada por organização criminosa, inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra (marca diversa) e peculato (desviar dinheiro público).
  • Glen Edwin Raiwood Taves, empresário individual e dono da empresa Luna Park: foi denunciado por inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação e apropriação de dinheiro público.
  • Duraid Bazzi, representante informal da Luna Park: foi denunciado por inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação e apropriação de dinheiro público.
  • Mauro Alves Pereira Taves, sócio-administrador da Biomega: foi denunciado por inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação e apropriação de dinheiro público.
  • Eduardo Antônio Pires Cardoso, sócio-administrador da Biomega: foi denunciado por inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação e apropriação de dinheiro público.
  • Roberta Cheles de Andrade Veiga, funcionária da Biomega: foi denunciada por inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação e apropriação de dinheiro público.
  • Nicole Karsokas, funcionária da Biomega: foi denunciada por inobservância nas formalidades da dispensa de licitação, fraude à licitação e apropriação de dinheiro público.
O outro lado

Ao Metrópoles, a defesa de Francisco Araújo classificou a denúncia do MPDFT como “peça insubsistente”. “A acusação padece da falta de prova das alegações ali contidas. Por outro lado, o Ministério Público pediu a prisão do secretário, acusando-o de corrupto, mas não consta da denúncia a acusação de corrupção nem lavagem de dinheiro. Essa denúncia não pode prosperar”, afirmou o advogado Cléber Lopes.

Em nota, a defesa de Ricardo Tavares Mendes classificou a denúncia como “absurdo equívoco”. “A denúncia cita Ricardo Mendes pouquíssimas vezes, a partir de fatos que não configuram qualquer crime, e até mesmo cometendo o erro grosseiro de confundi-lo com outra pessoa de mesmo nome. Claramente, o Ministério Público errou ao mencionar um médico com longa carreira dedicada ao serviço público como suposto partícipe de irregularidades. A defesa tem a convicção de que o Judiciário não cairá nesse absurdo equívoco”, destaca o texto assinado pelos advogados Ticiano Figueiredo e Pedro Ivo Velloso.

Em nota, o escritório Carnelós e Garcia Advogados, que representa a empresa Biomega – também investigada pelo MPDFT –, ressalta que os representantes da companhia não foram ouvidos durante as investigações. Leia o texto na íntegra:

“A denúncia contra diretores e funcionários da empresa é ato açodado, assim como também foi a deflagração de medidas de buscas e decretação de sequestro. Os representantes da companhia não foram sequer ouvidos para explicar as distorções identificadas nas investigações.

A empresa participou de um processo licitatório com outras concorrentes e venceu pelo menor preço.

A companhia informa que é um laboratório de análises clínicas, e não uma distribuidora de testes. Também não vendeu kits para testagem, mas sim a prestação de serviços para análise e determinação de laudos de exames laboratoriais referentes à covid-19.

Quanto aos insumos usados na prestação do serviço, esclarece que todos os testes utilizados nos serviços contratados pelo Governo do Distrito Federal têm aprovação da Anvisa.”

Metrópoles busca contato com a defesa dos denunciados e, assim que obtiver retorno, vai atualizar todas as reportagens publicadas sobre o caso.

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