Funcionários acusam a carioca Loja Três de racismo e assédio moral

Reportagem da plataforma Universa, do UOL, ouviu 11 pessoas que relataram problemas no ambiente de trabalho da marca

Reprodução/Instagram/@lojatresReprodução/Instagram/@lojatres

atualizado 20/05/2019 21:12

A marca carioca Loja Três foi acusada de situações envolvendo racismo, gordofobia, homofobia e assédio moral. Os relatos foram divulgados pelo portal Universa, plataforma do UOL, nesta segunda-feira (20/05/2019). A reportagem de Mariana Gonzalez ouviu 11 pessoas, entre funcionários e ex-funcionários – algumas tiveram a identidade preservada. Do total, cinco são negras e há um homem.

Conhecida por se denominar como uma iniciativa de “essência colaborativa”, a grife de roupas e acessórios existe há seis anos e tem sede no Rio de Janeiro, onde ficam o escritório, a fábrica e duas lojas. Além dessas, existem mais dois pontos de venda em São Paulo. A etiqueta pertence a Guta Bion, sócia dos filhos, Fernanda Bion (estilista) e Francisco Bion (economista). O trio seria responsável de forma direta ou indireta pelos casos relatados.

As acusações envolvem pessoas que trabalharam em funções como gerente, vendedora e modelista. Uma ex-gerente, a primeira pessoa entrevistada, afirmou que foi pressionada pela própria dona da empresa para pedir a uma funcionária negra que parasse de usar tranças. A situação ocorreu no início do ano em uma loja de São Paulo, que fechou em abril, e fez com que ela pedisse demissão.

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“Por trás, pessoas reais. Por aí, clientes diversificados e únicos. Aqui, várias formas de ser você”, diz a legenda desta foto no perfil da Loja Três, no Instagram

 

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A marca se define com uma “essência colaborativa” e diz promover a diversidade

 

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Ao todo, 11 pessoas, entre funcionários e ex-funcionários, relataram casos de racismo, assédio moral e outros problemas para a reportagem do portal Universa

 

Outra ex-funcionária relatou um caso similar na loja principal da capital paulista, no bairro Pinheiros, envolvendo preconceito com o cabelo crespo. Segundo a matéria, a cobrança quanto à aparência era menor na fábrica, onde a maioria das funcionárias eram negras. “No estoque e na fábrica têm meninas que usam tranças. Mas eu, que estava ali, na frente da loja, recebendo cliente, não podia”, contou a ex-vendedora Juliana Neves, 22, do primeiro relato.

Entre as várias situações, há casos de uma coordenadora que disse ter sido instruída a não contratar mulheres com filhos pequenos e nem rapazes gays afeminados. Pessoas acima do peso também não cumpririam as exigências impostas. “Ela [Guta] dizia que não contrata quem não entra na roupa dela”, contou a entrevistada. A dona da marca teria dito ainda que uma funcionária negra deveria “ser favelada” para ocupar a função de estoquista. Além disso, sugeriu que ela “poderia ter um namorado bandidinho” e fazer uma “limpa sem ninguém ver”, segundo o relato.

Todas as 11 pessoas ouvidas pelo Universa alegaram alguma espécie de assédio moral vinda de pelo menos um dos três sócios. Além de comentários ofensivos e constrangimentos, parte delas teria sido privada de água, papel higiênico e açúcar, ou mesmo do próprio telefone celular. Funcionárias das lojas revelaram que era comum a jornada de trabalho de 14 dias seguidos.

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Segundo os relatos, funcionárias negras das lojas teriam sofrido preconceito pelos penteados

 

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No Instagram da Loja Três, há várias fotos de campanhas com pessoas negras. Contudo, os relatos põem em questão a suposta “diversidade” promovida pela marca

 

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O Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro recebeu denúncias anônimas

 

De forma anônima, algumas dessas denúncias chegaram ao Ministério Público do Trabalho (MPT) do Rio de Janeiro e deram origem a dois inquéritos. O procurador Artur de Azambuja é responsável por um deles, que envolve irregularidades trabalhistas, assédio moral, abuso de poder, racismo e maus tratos. Ao UOL, ele disse que tenta notificar a marca há 10 meses, mas não obteve retorno. O passo seguinte é obtenção de provas por meio de depoimentos e visitas às lojas e fábrica. Juristas ouvidos pela publicação consideraram algumas situações como ilegais e arbitrárias para as funções executadas.

Em defesa, a marca respondeu ao Universa por meio de um comunicado. A Loja Três negou as acusações e justificou algumas situações relatadas, como a suposta proibição do uso do telefone celular, por exemplo. Segundo o texto, a prática de guardar o aparelho no horário do expediente é comum no varejo e busca mais qualidade no atendimento aos clientes.

“Dos seus 154 funcionários, 85 são negros. Ao todo, 97% do que é vendido nas lojas é produzido pela fábrica da empresa. A valorização de toda a cadeia de trabalho está entre nossas principais preocupações”, diz um trecho do posicionamento da empresa.

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A Loja Três se defendeu por meio de um comunicado enviado ao portal Universa e uma publicação no Instagram

 

No fim da tarde desta segunda-feira (20/05/2019), a marca lamentou a situação por meio de um post no Instagram. De acordo com a Loja Três, as acusações “não retratam a realidade do nosso dia a dia”. Além disso, voltou a defender que respeita as individualidades de cada um e busca “proporcionar um ambiente inspirador”.

“A maior parte das denúncias que lemos na matéria são anônimas e dizem respeito a fatos que desconhecemos, o que dificulta a sua necessária apuração e o importante diálogo com as pessoas envolvidas. Nosso apreço pela diversidade nunca foi de fachada, como agora nos acusam. Vale esclarecer que as alegações não foram oficializadas pelo Ministério Público e tampouco recebemos qualquer prova dos graves fatos veiculados. De todo modo, a Loja Três não se furtará em apurar todas as denúncias, com apoio, inclusive, de uma empresa de compliance para condução do processo com isenção, transparência e rigor. A principal acusada já se afastou voluntariamente de suas atividades na empresa enquanto todos os fatos estiverem sendo apurados”, diz o trecho final.

Antes mesmo da manifestação na rede social, a grife recebeu várias críticas em comentários. “Não me surpreende uma loja de elite se disfarçando em discursinho inclusivo para estar no hype. Nunca gostei da loja, mas não estou surpresa. Monstros”, comentou a youtuber e ex-BBB Hana Khalil. “Que tristeza”, disse a digital influencer Maju Trindade.

Usuários do Twitter também comentaram a notícia:

https://twitter.com/wildnothhing/status/1130456671732547584

https://twitter.com/amanurta/status/1130504226445189120

Colaborou Hebert Madeira

SOBRE O AUTOR
Ilca Maria Estevão

Formada em psicologia pela Universidade Georgetown, em Washington (EUA). É apaixonada por moda e acompanha toda movimentação no universo fashion.

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