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Na segunda metade dos anos 1980, a banda Liberdade Condicional fez a minha cabeça. Lourenço Jr., vulgo Lôlo, comandava o baixo e a voz, com inteligência e vibração vanguardista. A galera vinha abaixo quando ele pedia ao guitarrista: “Sola, Cecé!”. Era tudo “um som dissonante”, nada comercial, com efeitos especiais criados até com balão de aniversário, nas mãos do percussionista Alci Maçarico. “Dia vai e dia vem/ lá vai o seu João/ pegando o seu trem/ com a sensação/ de que tudo vai bem”.

As letras do Liberdade já apontavam uma vontade narrativa de perceber hipocrisias do “cotidiano urbano”, que não ia e continua não indo nada bem. O grupo acabou, Lourenço criou o Patorroco e o alter ego musical Chico Lou. Desde 2007 decidiu estender sua criatividade também para a literatura. Sob nova identidade, agora Lourenço Dutra, passou a escrever e publicar sem parar. Três romances e seis livros de contos depois, chega aos Diálogos Em Estado Puro (Editora Penalux).

São 20 histórias que captam vozes nos espaços da casa e da rua. Professor de história na rede pública, o escritor brasiliense é um autor indignado, inquieto. Sobretudo, iconoclasta. Toma pé de temas contemporâneos com extrema facilidade, arma uma cena bastante coloquial, coloca seus personagens para conversar sem travas na língua. E dispara, atira, faz girar uma ficção de poucas preocupações formais e muita vontade de desestabilizar o senso comum.

A ficção de Lourenço tem preguiça panorâmica para a falta de sinceridade que nos circunda e energia enorme para denunciar toda espécie de lugar-comum. Traz uma pegada quase punk na maneira como expõe discursos religiosos (Um Bate-Papo), homofóbicos (Quase Um Monólogo), moralistas (Ódio, Preconceito e Esperança), literários (A Mágoa” e Noite de Autógrafos), amorosos (Convívio), machistas (Penas e Canos), políticos (Pontos de Vida, Pontos de Vista), de “empoderamento” feminino (Figurinhas) e de inclusão pedagógica (Laudo).

Divulgação

Ninguém está a salvo de ver analisada a relação entre o que se pensa e o que se diz, entre a tranquilidade utópica e a dura realidade. Mas o autor só pretende matar a rainha se for embebida do ridículo de sua própria condição. Não é condescendente com a ignorância ou a sabedoria. Não toma partido. Não está do lado nem do bandido, nem do bacana. E isso bastaria para despertar o leitor de uma letargia unilateral. Um dos maiores méritos dos contos é entrar na mente de gente ruim, mesquinha, e de gente boa, fresquinha. A ficção invade relações familiares e interpessoais para falar do filho bunda-mole e da mãe dominadora, para confrontar amizades ideologicamente estremecidas, para desestabilizar hierarquias de classe, raça e gênero.

O livro sente falta de edição e revisão mais cuidadosas, é verdade. Esses deslizes podem ser lidos na chave da boa vontade: urgência de dizer, de não ficar calado. Se o ruído inevitável da caixa de som atravessa a obra, o leitor embarca na inocência formal das histórias como continuação da vida. Os textos gravam e transportam conversas de modo direto. Do “estado puro” dos diálogos levados a esse leitor-ouvinte, reverberam as infinitas impurezas da sociedade.

Observador da história oral viva, o autor nos dá notícia de um mundo muito, mas muito hipócrita mesmo. Ao lado do desejo em torno da própria ideia de literatura, a salvação pode estar nos desfechos de algumas histórias (nem sempre eficientes como arremate literário do texto curto) e, certamente, no futuro que se anuncia no último conto, nos “dois tracinhos” de um teste de gravidez.

“Não sou sardinha ambulante/ Eu não sou punk, nem funk/ Eu só queria fazer/ Um som interessante”, dizia a letra de uma velha canção do Liberdade Condicional. Da decisão inicial de não ser nada (nenhum rótulo, nenhuma identidade fixa), da vontade insistente de xingar o mundo em pequenas conversas, desse lugar inóspito para se viver, daí nasce a pureza de um paradoxo.



 


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