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O novo romance de Julian Barnes, A Única História (Rocco, 224 páginas), dá o mote para um breve abandono dos gramados da Rússia em direção às quadras de tênis, esporte tão bretão quanto o futebol. E se o tradicional torneio de Wimbledon estende-se até o próximo dia 15, podemos ir além das coincidências sobre o piso da disputa. No livro, entre um saque e outro, o narrador rememora o amor por uma mulher mais velha, conquistado em partidas de duplas nas dependências de um clube nos subúrbios de Londres.

Ele só tinha 19. Ela estava perto dos 50. Paul apaixona-se pela personalidade de Susan demonstrada na perfeição simétrica das linhas. “O jogo dela tinha um aprendizado por trás: ela posicionava-se corretamente, batia com firmeza na bola, só ia para a rede quando as circunstâncias eram propícias, corria feito louca e no entanto ria da mesma forma caso ganhasse ou perdesse.” Ela era “o melhor apoio de fundo de quadra para o seu parceiro ansioso e impulsivo na rede”. Paul e Susan partem juntos para um longo tie-break.

Foi também num clube privado que o tradutor Rímini conheceu Nancy, na melhor descrição literária de que tenho notícia quando o assunto é o esporte de Maria Esther Bueno (1939-2018). O protagonista do excepcional O Passado (Cosac Naify, 480 páginas), do argentino Alan Pauls, está em fase de retomada pessoal, após profunda depressão. Ex-jogador promissor, luta para se reencontrar. “Jogava com naturalidade, sem esforço, como se a raquete não fosse uma arma nem uma prótese, mas a intérprete atenta e delicada de seu braço.”

Aqui também há uma volta no tempo encarada dentro das regras e dos riscos de pontos, games e sets, entre o cimento esburacado da infância e o saibro bem tratado por uma certa maturidade. Sim, o tênis é metáfora e muito mais. No romance Dupla Falta (Intrínseca, 368 páginas), da norte-americana Lionel Shriver, ele é tudo para a jovem Willy Novinsky, que não sabe viver de outra forma: ace, cruzada, backhand, paralela, forehand, saque, smash, voleio, spin. A personagem atravessa esse glossário transcultural na linguagem da vida.

 

Já no monumental Graça Infinita (Companhia das Letras, 1.142 páginas), de David Foster Wallace, os limites humanos são testados a partir das exigências de uma academia de alta performance, localizada na geografia distópica da América do Norte. O tênis ganhou mais do que ficção com Wallace. Levou de quebra um intérprete perspicaz. O ensaio Federer como Experiência Religiosa, publicado no livro Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (Companhia das Letras, 310 páginas), é apenas a prova mais evidente disso.

Não é simples jogar tênis, assim como viver, tem dificuldades e perigos. A literatura mostra a complexidade que envolve corpo e alma no ir e vir de uma pequena bola amarela. Dar um lob? Disfarçar uma deixadinha? Quebrar o ritmo com um slice? Apelar para um balão na tentativa de se manter vivo? O narrador de A Única História reconhece as traições da memória e, por isso, está sempre a apontar possíveis incoerências entre o que está contando e o que pode “realmente” ter acontecido. Pouco importa. Somos o nosso próprio desafio, o nosso próprio VAR.

Julian Barnes e a tribo internacional dos escritores que recorrem ao tênis como tema literário sabem, assim, da escritura subjetiva das histórias coletivas e individuais. Em especial, veem na necessidade de colocar a bola por cima da rede e dentro da quadra o destino improvável da verdade absoluta na relação a dois. “Nunca se esqueça, o ponto mais vulnerável é o meio da quadra”, ensina a duplista Susan. No centro do redemoinho, entre duas raquetes, tem sempre o diabo tentador. E é isso que nos diverte na literatura e nos muitos match points da vida.



 


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