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Descobri minha gravidez muito cedo, não devia ter nem uma semana de gestação. Estava doente e, pra confirmar se era seguro realizar uma radiografia, os médicos pediram um exame de sangue. Meu marido e eu já esperávamos meu filhinho, o Jorge, com tanto amor, que saímos do hospital gritando aos quatro ventos, pra conhecidos e estranhos:

“A Nana está grávida! É a notícia mais feliz das nossas vidas!”. Devemos ter até abraçado o motorista de Uber.

Não demorou até chegarem os cavaleiros do apocalipse: “Nossa, mas não pode contar antes dos três meses!” ou “mas você sabia que até os 3 meses de gestação as chances de aborto são de 15 a 20%?”. Sabíamos. Nosso médico havia nos informado. De toda forma, afinal, era “missão” de qualquer pessoa além do nosso profissional de saúde trazer mau agouro sem motivo? Como muito bem diz a minha mãe: “Se preocupação fosse vacina, sairia por aí cobrando para ser pessimista”.

A tradição popular de não contar sobre a gravidez antes do fim do terceiro mês nasce do medo de perder o bebê. Querer guardar segredo sobre um aborto espontâneo é direito de toda mulher (ou casal). Mas essa mania social de impor isso a todo mundo é uma amarra cruel.

Pra começar, alimenta um pessimismo infundado: afinal, as chances de dar tudo certo são mais de três vezes maiores do que as chances das coisas darem errado. Depois, porque muitas pessoas podem querer – e precisar – falar sobre o aborto caso ele ocorra.

Para mim, todas as cicatrizes da vida sempre curaram melhor falando sobre, de novo e de novo, exaustivamente. Para quem precisa da empatia alheia para superar o luto, suportar em silêncio a perda de um bebê tão almejado seria uma tortura. Por que esse desejo não deve ser tão respeitado quanto a vontade de guardar segredo até o momento da maior certeza?

Há um outro fator a ser considerado também: o primeiro trimestre de gravidez provoca os sintomas mais severos em muitas mulheres. É neste momento em que mais precisamos faltar no trabalho, sair mais cedo ou deitar um pouquinho pra ver se a náusea ou a enxaqueca passam. Não merecemos contar com essa compreensão das pessoas ao redor?

Além disso, essa maratona de pessimismo – sinceramente, por que alguém se sente na “obrigação moral” de plantar negatividade em gestante com essa estatística dos 20%? – alimenta nas mulheres uma série de medos excessivos e cuidados infundados. Quer exemplos? Mulheres que acreditam não poder fazer exercício ou sexo senão provocarão um aborto. Ou acham que qualquer cólica é sinal de perda.

“Para muitas gestantes, o receio do aborto as faz conter a alegria do primeiro trimestre”, escrevem as médicas Heidi Murkoff, Arlene Eisenberg e Sandee Hathaway no livro O que Esperar Quando Você Está Esperando (Editora Record, 784 pags.). “Algumas só dão as boas novas depois do quarto mês, quando passam a ter alguma segurança de que a gravidez há de prosseguir. E prosseguirá, de fato, para a grande maioria.”

Na obra, as doutoras também desmentem uma série desses mitos: exercícios leves e habituais, sexo, nervosismo ou estresse, pegar crianças no colo e uso anterior do DIU não provocam aborto. Só é preciso evitar essas práticas se você for claramente orientada pelo seu médico e em caso de gravidez de risco.

De toda forma, fica a reflexão: vamos falar menos de abortos e mais de celebração para um casal que acaba de realizar o sonho lindo de produzir a vida? E, principalmente, vamos respeitar mais a decisão de pessoas adultas sobre seus filhos desde o dia 1?



 


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