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Durante anos, Sonia Hess dividia a sua semana entre São Paulo e Santa Catarina. Geria uma empresa com vendas anuais próximas a R$ 500 milhões e passava o dia analisando gráficos e tomando decisões. Mas, desde que deixou, há quatro anos, a cadeira de presidente da Dudalina, largou o mundo corporativo. Agora, a empresária dedica seu tempo a causas sociais.

Viaja o Brasil tentando aumentar as oportunidades de emprego para mulheres e ajudar a desenvolver o empreendedorismo feminino. “Meu legado é devolver para a sociedade tudo o que aprendi, sendo um fio condutor de uma mudança por um país melhor”, disse ao Metrópoles.

Hugo Barreto/Metrópoles

A empresária deixou a camisaria que os pais fundaram em 1957 após a fusão da marca com a Restoque. O grupo, dono das grifes Le Lis Blanc, Bo.Bô, John John e Rosa Chá, se tornou proprietário de 50% da empresa combinada.

Sonia, durante um tempo, ocupou uma cadeira no conselho da holding, mas acabou saindo do posto. Deixou na mão dos novos gestores um legado impressionante: transformou uma confecção familiar em uma das marcas de moda mais valiosas do país. Ela apostou em lojas próprias e na publicidade para mulheres de negócios.

Apesar de não bater mais ponto nas fábricas, ela tem uma longa lista de cargos em outras instituições. Ocupa o posto de vice-presidente do grupo Mulheres do Brasil e comanda o Lide Mulher. Além disso, se tornou mentora dos programas Mulheres em Conselho, Endeavor e Winning Women Brasil, da Ernest Young. E, para completar o extenso currículo, atua como conselheira do Instituto Ayrton Senna, da Verde Escola e da Fundação Dom Cabral.

Para conhecer melhor a história da empresária, o Metrópoles visitou sua cobertura no bairro de Campo Belo, em São Paulo. Apesar de ter vendido a empresa por um alto valor, mora sem muitos luxos. Não se rodeia de quadros caros, roupas de grife nem móveis assinados.

Quem conhece o histórico corporativo de Sonia não imagina sua origem simples. A empresária de 60 anos nasceu em Luiz Alves, um pequeno município de Santa Catarina. A mãe, Adelina, era a empreendedora, e o pai, Duda, poeta. Ainda jovens, eles abriram uma loja que vendia um pouco de tudo. Com muito trabalho, sustentavam 16 filhos — Sonia é a sexta.

Tudo mudou após uma viagem do patriarca a São Paulo. Ele foi reabastecer o estoque do seu comércio, mas sem querer acabou fazendo um pedido extra de tecido. A mãe viu uma oportunidade de negócio e decidiu costurar camisas com a sobra de pano. Desfez uma peça que estava à venda na loja para entender o feitio. Comprou uma máquina e assim começou a marca de Duda e Adelina, a Dudalina.

A popularidade veio logo em seguida e, com ela, a necessidade de aumentar a produção. Durante o dia, transformava os quartos dos filhos em confecção e, à noite, as camas voltavam para o lugar. Quando o espaço ficou pequeno, alugou uma casa só para os novos funcionários trabalharem.

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles

Sônia, a mãe e os 15 irmãos

 

Com o negócio crescendo e o dinheiro entrando, a família se mudou para Blumenau (SC) em busca de uma educação melhor. Ao chegar na nova escola, Sonia virou alvo de críticas pela maneira como se vestia.

“Eu tinha acabado de chegar na cidade. Você pode imaginar a mudança de uma família de 18 pessoas? Foi um caos. Na hora do recreio, uma garota toda arrumadinha me olhou com desdém e me chamou de ‘colona de Luiz Alves'”, conta a empresária. “Hoje, acho a frase linda, ser colona da minha cidade natal. Mas, ali me despertou um sentimento ruim”, lembra.

A sexta filha de Adelina prometeu para si mesma que isso nunca mais iria acontecer. “Decidi que faria de tudo para ser bem-sucedida”, conta.

Todos os irmãos foram criados para trabalhar, desde pequenos ajudavam no comércio familiar. Mas, Sonia puxou a gana empreendedora da mãe. Apesar de trabalhar na Dudalina, ela se mudou para a Espanha, onde aprendeu a usar uma nova tecnologia criada por uma empresa de lá. Acabou sendo contratada pelos gestores da operação estrangeira para treinar a sucursal deles em Montes Claros (MG).

Sempre fui muito trabalhadora. Sou autosuficiente. Desde 9 anos, eu já ganhava dinheirinho"
Sonia Hess

Em 2003, Sonia pediu à sede da operação na Europa para ser transferida a São Paulo. Seu irmão mais velho, na época presidente da Dudalina, convidou a irmã para retornar à empresa e abrir um escritório na capital paulista. Ela retornou cheia de ideias e, rapidamente, assumiu a presidência do grupo.

Nove anos após ter voltado, Sonia apostou no mercado feminino. Transformou a Dudalina: de uma fábrica de camisas masculinas em uma marca de moda. Testou os novos produtos em uma pop up store em Campos de Jordão e, a partir daí, a empresa basicamente industrial entrou no ramo do varejo.

 

Em 2012, no auge do sucesso, a empresária teve um câncer de mama, mas nem isso a fez parar de trabalhar. Sonia convencia as enfermeiras que administravam a radioterapia no Hospital Einstein a abrir mais cedo, para ela poder pegar o voo para Blumenau a tempo.

Sou grata ao carinho que recebi nessa época tão difícil. A Dudalina estava bombando na época da cirurgia e da quimioterapia. Usava uma peruca que coçava muito e não parava no lugar, quando me olhava no espelho, ela estava torta. Superei tudo isso. Não diminui o ritmo e o bichinho sumiu. Foi amarga, mas uma linda experiência"
Sonia Hess

Depois da morte de Adelina, em 2008, uma família de 16 filhos, sem a matriarca, viraria 16 famílias independentes. Começaram a brotar algumas rupturas e complexidades da parte de alguns herdeiros. Os números dos rendimentos da camisaria estava atraindo vários fundos de investimento, já eram 95 lojas. A melhor opção foi vender a Dudalina.

Mas, além do empreendedorismo, a matriarca da família Hess passou aos filhos a vontade de ajudar os outros. A filantropia faz parte do DNA da Dudalina, e Sonia continua carregando essa veia mesmo fora da cadeira de presidente. Por isso, escolheu advogar a favor dos direitos da mulher. “Temos causas lindas nesse país. Eu quero estar nelas e aprender o que posso fazer melhor”, conclui.



 


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