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O ser humano e sua velha mania de categorizar. Vemos algo e, automaticamente, nosso cérebro nos força a encaixar e registrar o que foi visto em alguma categoria. Para arquitetos e designers, assim como para qualquer especialista em algum tema, esse é um movimento comum. Vemos um ambiente e logo queremos entender a qual estilo ele pertence, que tipo de tendência segue, a que época se refere.

Saber exatamente qual a hashtag adequada para a foto que vai ser usada e para o estilo debatido. Quantas vezes não fiz isso aqui na coluna? No entanto, como também já disse por aqui, cada vez mais essa tendência fechada, quadrada e rotulante se desfaz no mundo do design de interiores.

Se existe mesmo uma tendência, hoje, ela é a de quebrar categorias. Misturar o que der na telha e permitir que essa liberdade estética faça sentido fora de qualquer padrão.

Eis que estou navegando pela internet e encontro fotos de um ambiente intitulado como o novo estilo boêmio clean.

Dei risada.

Duas vertentes decorativas tão antagônicas, agora são forçadas a entrar na mesma caixinha. Em uma breve recapitulada no que foi o estilo boêmio, fica fácil entender como ele é incompatível com o que entendemos como clean.

O estilo boêmio nasceu logo após a Revolução Francesa, quando os artistas foram privados do “esquemão” que era o patronato e não tinham mais seus trabalhos financiados pelos burgueses. Mais pobres do que nunca, eles passaram a viver uma vida nômade. Essa andança por bairros, cidades e países abriu suas mentes para novos usos da imaginação. Nasceu assim uma necessidade pessoal por uma identidade própria, livre, e isso era expresso na forma como se vestiam e arrumavam suas moradas.

A burguesia passou a comparar a vida dos artistas à rotina errante dos ciganos. E aí surge a origem da palavra boêmia (essa mesma burguesia entendia que os ciganos tinham origem da região da Boêmia, na Europa Central). Daí aparece o apelido, que virou um estilo artístico, de moda e de design. E como artistas sempre exercem aquele encantamento, o visual foi caindo nas graças dos europeus. E como todo movimento, ele vira e mexe inspira o mundo contemporâneo.

Muitas cores, tecidos, ausência da necessidade de combinar peças, exageros, uma extravagância sem soberba. Informação contextualizada. Daí o boêmio clean surge como um novo estilo? Como, se o clean é justamente o oposto desse direcionamento livre, ultra criativo e cheio de informação? O clean é a economia de cores, de formas, de contrastes. Justiça seja feita, a gente vê as fotos que ilustravam o boêmio clean e até entende a ideia.

Mas o tal ambiente não tem nem estilo boêmio, nem estilo clean. Para mim, ele é só um bom reflexo da urgência de “descategorizar” o design e permitir que as casas não sigam cartilhas. E que sejam lindas ainda assim.

Veja uma galeria de ambientes boêmios tradicionais:



 


estilo boemiobohoclean