Vazamento de metano no fundo do oceano é contido por vermes e bactérias
Após o vazamento de gás metano no Mar da China Meridional, um ecossistema de vida marinha o conteve em cerca de dois anos

Um vazamento de gás metano causado por acidente durante uma perfuração científica no Mar da China Meridional foi parcialmente contido, em tempo mais rápido do que os cientistas previam, por um ecossistema de bactérias, vermes e crustáceos que se formou ao longo de décadas.
O acidente aconteceu em 2018, quando geólogos do Serviço Geológico da China — órgão do governo — perfuraram um buraco de apenas 22 centímetros de largura no fundo do mar para descobrir o potencial de gás natural armazenado nos sedimentos marinhos da região.
Depois de concluir os testes, a equipe selou o furo com lama pesada, mas a vedação falhou. Um ano depois, em 2019, uma pluma do gás começou a subir da abertura, alcançando mais de um quilômetro de altura na coluna d’água. Diante da escala do vazamento, os próprios cientistas estimavam que o problema levaria décadas, ou até um século, para se resolver sozinho.
Uma resposta rápida da vida marinha
Usando ecobatímetros, câmeras subaquáticas e sensores químicos, pesquisadores liderados pelo ecólogo microbiano Emil Ruff, da Universidade de Bremen, na Alemanha, acompanharam a área e documentaram a formação do ecossistema. “Em apenas um ou dois anos, um ecossistema eficaz de consumo de metano já havia se formado”, afirmou ao Science Alert.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSegundo os pesquisadores, modelos anteriores indicavam que uma comunidade totalmente funcional de micro-organismos consumidores de metano no fundo do oceano poderia levar entre 60 e 100 anos para se desenvolver. No caso do vazamento chinês, uma comunidade equivalente se formou numa fração desse tempo e já processava uma quantidade de gás próxima à esperada de um sistema maduro.
O processo seguiu uma sequência: primeiro chegaram bactérias e arqueias — microrganismos unicelulares — que se alimentam diretamente de metano. Em seguida, vermes tubulares escavadores se instalaram sobre a área, formando o que os pesquisadores chamam de um extenso ‘leito de minhocas’, seguidos por crustáceos.
Segundo o estudo publicado na Science Direct, os vermes se beneficiaram dos micro-organismos recém-estabelecidos, que serviram de alimento. escavar o sedimento, os vermes ajudaram a levar oxigênio, nitrato e sulfato para camadas mais profundas, favorecendo ainda mais a degradação do gás.
Antes da perfuração, o local não apresentava vazamento de gás nem colonização significativa do fundo do mar. Em 2023, ainda havia bolhas escapando pelo furo, mas a altura da pluma de metano já havia caído de 1.200 metros para cerca de 800 metros acima do fundo do mar, um sinal de que o filtro biológico formado pelo ecossistema seguia funcionando.
O problema de vazamento de metano
Apesar da recuperação mais rápida do que o previsto, o estudo que acompanhou o vazamento de metano ao longo de vários anos mostra que o impacto ambiental foi real e se espalhou além do ponto de origem. Uma amostragem em mais de 40 locais ao redor da área do vazamento encontrou concentrações elevadas de metano nos sedimentos superficiais mesmo a 500 metros de distância, acompanhadas de uma queda de mais de 30% na riqueza microbiana da região.
Os autores suspeitam que mesmo pequenos aumentos na concentração de metano nos sedimentos já estejam associados a menor diversidade microbiana e a níveis mais baixos de oxigênio, efeitos que, segundo os pesquisadores, ainda precisam ser melhor investigados. O caso chama atenção porque não é um evento isolado. Entre 2010 e 2020, programas chineses concluíram mais de 80 poços de avaliação por perfuração no Mar da China Meridional.
O problema também não se restringe à China. Levantamentos feitos por cientistas alemães já haviam identificado vazamentos de metano ao redor de poços de petróleo e gás abandonados no Mar do Norte. Um estudo posterior encontrou indícios de vazamento em 28 dos 43 poços examinados na região.
A preocupação dos cientistas em relação ao vazamento é que o metano é um gás de efeito estufa que retém muito mais calor na atmosfera do que o dióxido de carbono e responde por cerca de 11% das emissões globais.
Apesar de ainda não estar claro quanto do gás liberado no fundo do oceano de fato chega à superfície, simulações publicadas em 2025 sugerem que vazamentos ocorridos a mais de 300 metros de profundidade podem se dissolver na coluna d’água antes de alcançar a atmosfera. Mesmo quando isso acontece, os pesquisadores alertam que o metano dissolvido pode causar danos locais significativos.



