Onças podem sumir da Mata Atlântica por falta de presas, aponta estudo
Pesquisadores brasileiros alertam que a possível extinção das onças na Mata Atlântica está relacionada a práticas humanas de caça ilegal
atualizado
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Se nada for feito, cientistas brasileiros alertam que em breve a onça-pintada (Panthera onca) pode ser uma espécie considerada extinta na Mata Atlântica. De acordo com um novo estudo, além da perda de hábitat e caça ilegal, o animal enfrenta a escazes de presas para se alimentar no bioma.
Porcos-do-mato (Tayassu pecari), catetos (Dicotyles tajacu) e cervídeos estão entre as presas preferidas do grande felino, porém a caça humana tem diminuído as populações desses animais e, consequentemente, reduzindo a disponibilidade para as onças.
Segundo os pesquisadores, sem a adoção de medidas drásticas, cerca de 300 espécimes de onças-pintadas da Mata Atlântica correm risco de desaparecer, o que tornaria o bioma o primeiro do mundo a ter um predador líder da cadeia alimentar extinto.
“Constatamos uma situação alarmante de baixa abundância de espécies-chave de presas da onça-pintada mesmo em áreas protegidas da Mata Atlântica. Muito provavelmente, o declínio dessas presas é uma das principais causas para a situação crítica de conservação na qual a onça-pintada se encontra nesse bioma”, aponta a coordenadora do estudo, Katia Ferraz, em entrevista à Agência Fapesp.
A descoberta ocorreu em uma parceria entre cientistas de várias instituições brasileiras, como do Instituto de Pesquisas Cananeia (IPeC), do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e do Projeto Onças do Iguaçu.
Os resultados do trabalho foram publicados na revista Global Ecology and Conservation no início de fevereiro.
Declínio da onça-pintada na Mata Atlântica
A Mata Atlântica abrange cerca de 15% do Brasil, estando presente em 17 estados das regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Para chegar aos resultados, além de conseguir dados sobre a dieta e hábitos alimentares do felino, os cientistas realizaram um levantamento presencial através de armadilhas fotográficas. Elas foram colocadas em áreas protegidas do bioma.
Por meio das informações obtidas, foi possível estimar a abundância e a biomassa de 14 espécies alvos da onça nas áreas estudadas.
A conclusão mostrou que as presas tinham mais distribuição em locais de corredor verde, que são faixas de vegetação nativa em meio a infraestrutura urbana. Já em regiões costeiras da Mata Atlântica, abundância e a biomassa eram significativamente menores – por lá o número de onças está bem abaixo.
“Os resultados mostram um padrão consistente. As áreas com maior disponibilidade de presas, especialmente de médio e grande porte, como porcos-do-mato e veados, são também aquelas onde a onça-pintada ainda persiste. Já onde a base de presas é muito reduzida, as populações de onça-pintada tendem a ser ausentes ou extremamente pequenas”, avalia Katia.
Para os pesquisadores, a baixa de presas é explicada pela pressão humana. Enquanto os alvos da onça eram mais abundantes em lugares com difícil acesso a nós, as regiões com menor disponibilidade eram onde a caça ilegal é mais facilitada.
Os cientistas apontam que a descoberta demonstra a necessidade do fortalecimento de medidas para salvar as onças, como o controle de caça e a recuperação de seu habitat natural. Em regiões mais ameaçadas, a gestão humana é essencial para proteger e evitar o sumiço completo dos felinos.
