Pai que criou IA para pessoas com deficiência: “Queria ouvir minha filha”

Feita por pai para filha, plataforma de comunicação assistiva brasileira ajuda pessoas com deficiência a se expressar

atualizado

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Material cedido ao Metrópoles
Família reunida enquanto filha utiliza plataforma de comunicação assistiva
1 de 1 Família reunida enquanto filha utiliza plataforma de comunicação assistiva - Foto: Material cedido ao Metrópoles

Carlos Pereira queria encontrar uma forma de ouvir a própria filha. Clara nasceu com paralisia cerebral severa e, desde cedo, enfrentou dificuldades para se comunicar. Ao perceber que os softwares de comunicação alternativa disponíveis não atendiam às necessidades dela, o pai decidiu aprender programação por conta própria.

“Não criei a ferramenta pensando em fazer uma empresa. Criei porque queria ouvir a minha filha. A Clara precisava se comunicar, dizer o que sentia, o que queria, o que estava vivendo. Quando percebi que não havia uma solução acessível e adequada para a realidade dela, decidi aprender a programar e construir uma ferramenta que pudesse dar essa voz. Depois, entendi que a necessidade da Clara era também a de milhares de outras famílias”, relembra Carlos.

Esse foi o ponto de partida para a criação da Livox, plataforma brasileira de comunicação alternativa que utiliza inteligência artificial para ampliar a autonomia de pessoas com deficiência. O que começou dentro de casa, há cerca de 17 anos, tornou-se uma ferramenta usada por 65 mil pessoas no mundo.

Hoje, a tecnologia está presente em 11 países, disponível em mais de 25 idiomas, e reúne recursos voltados a pessoas com dificuldades motoras, cognitivas, visuais e de fala, além de autistas e idosos.

Antes de desenvolver a plataforma, Carlos tentou outros caminhos. Ele criou o primeiro site de financiamento coletivo do Brasil para custear tratamentos e também abriu uma clínica de reabilitação em Recife, com tecnologias consideradas avançadas para a época.

A partir disso, criou contato com famílias e profissionais e percebeu uma lacuna: empresas estrangeiras de softwares de comunicação assistiva não tinham interesse em atender o mercado brasileiro. As ferramentas eram caras, pouco adaptadas à realidade local e não respondiam às necessidades.

Como funciona a plataforma de IA?

A plataforma de comunicação assistiva permite que pessoas que não conseguem falar ou que têm dificuldade de expressão usem imagens, cartões, sons, textos e comandos personalizados para interagir com o mundo ao redor.

A ferramenta não se limita a um aplicativo simples. Ela reúne diferentes tecnologias para adaptar a comunicação ao perfil de cada usuário. Parte desse desempenho vem do uso de centenas de algoritmos que ajustam a interface conforme as habilidades e limitações da pessoa.

“Um dos recursos é desenvolvido para ignorar toques involuntários na tela. A função é importante para usuários com alterações motoras, que podem apresentar espasmos, tremores ou dificuldade para controlar os movimentos das mãos”, exemplifica Carlos.

A plataforma também conta com ajustes para pessoas com baixa visão, adaptações cognitivas e controle ocular. Com esse recurso, o usuário consegue operar o tablet apenas com o movimento dos olhos e piscadas, sem precisar de equipamentos caros adicionais.

Outro diferencial é a chamada conversação natural. A inteligência artificial interpreta o contexto do que está sendo dito à pessoa com deficiência e sugere respostas adequadas. Se alguém pergunta “você está com fome?”, por exemplo, o sistema pode exibir automaticamente opções como “sim” e “não”.

Criança ao lado do professor usando a plataforma de comunicação, livox.
Estudante usando a plataforma de comunicação para pessoas com deficiência

Para Carlos, a tecnologia deve estar no ambiente escolar. A plataforma tem um portal que permite a escolas, professores e gestores acompanhar o progresso dos alunos em diferentes categorias. A ferramenta ajuda a monitorar avanços na comunicação, na aprendizagem e na interação social.

Atualmente, a loja dentro da plataforma reúne mais de 10 mil conteúdos, entre livros, músicas, aulas e atividades. Os materiais são produzidos por pais, profissionais e pelos próprios usuários, criando uma rede colaborativa em torno da inclusão.

A empresa também trabalha na criação de conteúdos pedagógicos alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), no Brasil, e ao Common Core State Standards, nos Estados Unidos. Uma novidade da plataforma é a possibilidade de identificar quem está falando com a pessoa com deficiência. A ideia é que o sistema reconheça se o interlocutor é o pai, o professor ou um desconhecido, por exemplo, e ajuste melhor o contexto das respostas.

O projeto fez tanto sucesso que a Livox é finalista da 9ª edição dos Prêmios à Inovação Social da Fundación MAPFRE, na Espanha, e já foi premiado pela ONU e pelo BID. Atualmente, trabalha em parceria com instituições com o MIT e a Lego.

“Hoje em dia, a Clara tem 18 anos, não anda, não fala. Mas mesmo assim ela consegue demonstrar como é brilhante. Ela adora participar dos congressos comigo e tenho o prazer de ter minha filha ao meu lado”, conta Carlos.

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