Fungos e moscas transformam aranhas em zumbis, mostra estudo da UFV

Pesquisa revela como parasitas de diferentes linhas convergiram para manipular aranhas, escravizando-as para construir teias reforçadas

atualizado

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Reprodução/Biological Journal of the Linnean Society
Aranhas zumbis aranha Pax islamita Zodariidae parasitada pelo díptero Ogcodes sp Acroceridae dentro do abrigo semelhante ao usado durante a muda construído antes de sua morte pelo parasita
1 de 1 Aranhas zumbis aranha Pax islamita Zodariidae parasitada pelo díptero Ogcodes sp Acroceridae dentro do abrigo semelhante ao usado durante a muda construído antes de sua morte pelo parasita - Foto: Reprodução/Biological Journal of the Linnean Society

Pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) descobriram que parasitas como fungos, moscas e vespas utilizam estratégias semelhantes para transformar aranhas em zumbis. Até espécies brasileiras são afetadas.

O estudo publicado no Biological Journal of the Linnean Society, em 25 de janeiro, revela que esses inimigos naturais das aranhas desenvolveram o mesmo mecanismo de manipulação comportamental, apesar de distantes evolutivamente. Eles conseguem induzir os aracnídeos a construir teias reforçadas que beneficiam os parasitas.

Como parasitas transformam aranhas em zumbis?

A infecção por esses parasitas muitas vezes ocorre de forma indireta, quando as moscas e vespas depositam os ovos no solo ou em locais próximos de onde residem as aranhas. No caso de fungos, o contato é direto. Em todos os cenários, os aracnídeos sofrem uma reação imune à infecção e produzem uma chuva de hormônios, alterando propositalmente seus comportamentos.

Todos eles usam ecdisteroides, hormônios que induzem a aranha a se comportar como se estivesse na fase de muda (ecdise), quando troca o exoesqueleto para crescer. Ela leva o animal a produzir teias especialmente reforçadas, que beneficiam a sobrevivência de seus inimigos.

“As teias de ecdise são estruturas utilizadas naturalmente pelas aranhas para garantir proteção durante a troca do exoesqueleto, já que nessa fase elas ficam muito vulneráveis. Os parasitas aprenderam a usar a mesma estratégia e obrigam a aranha a edificar essas estruturas em benefício próprio. Assim, as vespas e moscas podem transformar as teias em um ninho para seus ovos e os fungos multiplicam os esporos lá dentro”, explica o biólogo Thiago Kloss, professor da UFV e um dos autores do estudo.
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Pupa da vespa Minagenia presa à teia construída pela aranha Lycosa antes de ser morta pelo parasitoide, tipicamente vista durante a muda em aranhas não infectadas
Aranhas Pax islamita parasitada por mosca Ogcodes dentro do abrigo semelhante ao usado durante a muda e construído antes da morte pelo parasita
Aranha Colonus  infectada pelo fungo Gibellula. Seta indica "cama da morte" feita pela aranha para grudar seu próprio cadáver e permitir o consumo pelo fungo
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Aranha Colonus infectada pelo fungo Gibellula. Seta indica "cama da morte" feita pela aranha para grudar seu próprio cadáver e permitir o consumo pelo fungo

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Pupa da vespa Minagenia presa à teia construída pela aranha Lycosa antes de ser morta pelo parasitoide, tipicamente vista durante a muda em aranhas não infectadas
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Pupa da vespa Minagenia presa à teia construída pela aranha Lycosa antes de ser morta pelo parasitoide, tipicamente vista durante a muda em aranhas não infectadas

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Aranhas Pax islamita parasitada por mosca Ogcodes dentro do abrigo semelhante ao usado durante a muda e construído antes da morte pelo parasita
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Aranhas Pax islamita parasitada por mosca Ogcodes dentro do abrigo semelhante ao usado durante a muda e construído antes da morte pelo parasita

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Convergência evolutiva em ação

O estudo revisou uma série de publicações sobre parasitas de aranhas para entender as relações entre as estratégias de dominação. “Acreditamos que os parasitas não criaram nada novo, apenas descobriram uma forma de ativar um comportamento natural dos seus inimigos em benefício próprio”, destaca Kloss.

A convergência foi observada entre parasitas como fungos do gênero Gibellula, moscas da família Acroceridae e vespas das famílias Ichneumonidae (vespas de Darwin) e Pompilidae (vespas caçadoras).

Um fator inédito observado na pesquisa dos cientistas brasileiros foi que os fungos também induzem as aranhas a se aprisionar nas próprias teias. “Isso favorece a fixação do cadáver durante o desenvolvimento do fungo lá dentro, contrariando a forma mais natural de morte de aracnídeos na natureza, embaixo de folhas”, completa o professor.

Interações no Brasil

No Brasil, o fenômeno da zumbificação de aracnídeos é amplamente documentado. O país abriga pelo menos 36 interações entre espécies de vespas de Darwin e aranhas, além de oito envolvendo fungos Gibellula, mas os pesquisadores acreditam que haja uma diversidade ainda maior, especialmente entre os fungos.

A coautora do estudo, Thairine Mendes-Pereira, é uma das principais pesquisadoras desses fungos no país e descreveu novas espécies na Mata Atlântica e na Amazônia em 2023.

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