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Ciência

Método Taylor Swift: professora brasileira denuncia plágio na Espanha. Veja vídeo

Método de ensino de botânica criado na UFRN foi publicado antes e agora embasa denúncia de apropriação acadêmica contra professor espanhol

23/06/2026 15:27, atualizado 23/06/2026 16:31
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Arte/Metrópoles
Montagem mostra imagem da cantora Taylor Swift com várias flores e plantas - Metrópoles

O que começou como uma estratégia para tornar a botânica mais atraente em sala de aula acabou levando a uma denúncia internacional de apropriação acadêmica. Criado pela pesquisadora Gláucia Lidiane da Silva, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Método Taylor Swift usa videoclipes da cantora norte-americana como ferramenta de ensino e ganhou projeção dentro e fora do Brasil.

A proposta foi publicada em 2025 na Annals of Botany, uma das revistas científicas mais prestigiadas da área, e agora embasa uma acusação de plágio contra um professor da Espanha.

Desenvolvido a partir da observação de elementos botânicos presentes nos clipes da artista, o método foi pensado para enfrentar um problema conhecido entre professores da área, a chamada “impercepção botânica”, fenômeno que descreve a dificuldade de perceber as plantas no ambiente e reconhecer sua relevância.

A ideia era usar a familiaridade dos estudantes com a cultura pop para aproximá-los de um conteúdo que costuma ser visto como árido, técnico e pouco atraente.

A repercussão do caso cresceu depois que Gláucia afirmou ter identificado semelhanças entre sua proposta e o capítulo de um livro assinado por um professor da Universidad Miguel Hernández de Elche(UMH), da Espanha. Segundo a pesquisadora, o docente reproduziu a lógica do método, usou videoclipes já associados por ela aos mesmos conteúdos botânicos e apresentou a abordagem como se fosse inédita, sem citá-la como referência.

Método Taylor Swift nasceu de um clipe e virou ferramenta de ensino

O Método Taylor Swift começou a ser desenvolvido em 2020, quando Gláucia percebeu que o videoclipe de Cardigan, lançado no álbum Folklore, poderia servir de gancho para uma aula sobre musgos. A partir dali, ela passou a mapear outros vídeos da cantora que mostrassem plantas, flores, árvores e paisagens capazes de dialogar com diferentes conteúdos da botânica.

A pesquisadora estruturou a metodologia principalmente a partir das imagens dos clipes, embora as letras também possam ser usadas como apoio em alguns conteúdos. A proposta cruza videoclipes com temas botânicos específicos, de forma que cada aula seja associada a um vídeo compatível com o assunto abordado. Em alguns casos, a letra ajuda a reforçar características das espécies trabalhadas em sala, mas o núcleo do método está na dimensão visual dos vídeos.

“O método usa 90% da imagem do videoclipe. Percebi que a Taylor tem muitos vídeos que podem ser usados em diferentes assuntos botânicos, então criei um banco de dados: vídeo x assunto”, explica Gláucia.

No artigo científico publicado na Annals of Botany, a pesquisadora mostra que 53 videoclipes de Taylor Swift, o equivalente a 87% da videografia analisada, podem ser aproveitados em conteúdos de botânica. A proposta foi aplicada tanto no ensino médio quanto no ensino superior, sempre com o objetivo de facilitar a aprendizagem de uma disciplina historicamente marcada pela rejeição de parte dos estudantes.

Proposta ajudou a melhorar participação, memória e desempenho dos alunos

Segundo Gláucia, a metodologia produziu mudanças concretas na forma como os alunos se relacionam com a botânica. Ao usar videoclipes conhecidos como ponto de partida para as aulas, a pesquisadora observou maior participação, mais abertura para o diálogo em sala e menor resistência ao vocabulário técnico da disciplina.

A ideia, diz ela, não é substituir o conteúdo tradicional, mas criar uma ponte entre o universo dos estudantes e os conceitos científicos. O recurso visual ajudaria a treinar o olhar para a presença das plantas no cotidiano e, ao mesmo tempo, tornaria a aprendizagem menos mecânica e mais envolvente.

“Eles passaram a falar mais, a se divertir, a usar os nomes ‘difíceis’ da botânica com mais facilidade. As notas melhoraram, a memória e a atenção melhoraram também”, afirma a pesquisadora.

O trabalho foi apresentado em julho de 2024 no Congresso Internacional de Botânica, em Madri, e no ano seguinte ganhou projeção ainda maior com a publicação na Annals of Botany, periódico ligado à Oxford University Press.

A visibilidade internacional consolidou o Método Taylor Swift como uma proposta inovadora de ensino, mas também ampliou sua circulação fora do Brasil e, segundo Gláucia, antecedeu a publicação do material que ela considera uma apropriação indevida da proposta.

Professora apresentando seu método Taylor Swift em congresso - Metrópoles
Pesquisadora da UFRN, Gláucia Lidiane da Silva apresentou o Método Taylor Swift em congresso internacional de botânica em Madri, em 2024, antes da denúncia de apropriação acadêmica

Pesquisadora acusa professor espanhol de reproduzir método e ignorar pedidos de correção

A denúncia de plágio feita pela pesquisadora da UFRN envolve mais do que uma simples semelhança entre trabalhos acadêmicos. Segundo ela, um professor espanhol publicou um capítulo de livro repetindo a estrutura do Método Taylor Swift, usando os mesmos videoclipes para os mesmos assuntos botânicos e apresentando a proposta como uma “nova metodologia”, sem citar a autora brasileira.

De acordo com Gláucia, a suspeita de apropriação indevida surgiu a partir do conteúdo do capítulo. Na avaliação dela, o texto reproduz a lógica central do método já publicado no Brasil e transforma em proposta inédita uma abordagem que havia sido apresentada por ela em congresso internacional e formalizada em artigo científico.

A pesquisadora afirma ainda que o docente espanhol assistiu à palestra sobre o método durante o Congresso Internacional de Botânica, realizado em Madri, em 2024, algo reconhecido pelo próprio professor nos agradecimentos do capítulo.

“Apropriação da ideia é um tipo de plágio. Você não pode dizer que algo criado por outra pessoa, em outra universidade e país, é seu”, diz a pesquisadora.

Antes de tornar a denúncia pública, Gláucia afirma que tentou resolver o caso por vias institucionais. Segundo ela, enviou mensagens ao professor, à universidade, ao departamento e ao setor de comunicação da instituição espanhola.

O único retorno, afirma, veio do próprio docente, que reconheceu a semelhança entre os trabalhos, mas não fez correções. A pesquisadora diz ainda que a UFRN acionou formalmente a universidade espanhola e a editora responsável pela publicação, também sem sucesso.

Para Gláucia, o episódio vai além do desconforto pessoal e acende um alerta sobre integridade científica, autoria e reconhecimento de pesquisadores brasileiros no exterior. Ela afirma ainda ter recebido dezenas de relatos de estudantes que dizem ter enfrentado situações semelhantes em outros contextos acadêmicos.

Enquanto aguarda uma resposta institucional para o caso, Gláucia vê a repercussão da denúncia como uma forma de pressionar pelo reconhecimento formal da autoria do Método Taylor Swift. A proposta nasceu em sala de aula, foi publicada por uma pesquisadora brasileira em uma das principais revistas científicas da botânica e agora levanta um debate sobre plágio, integridade acadêmica e o reconhecimento da produção científica brasileira no exterior.