Conheça a abelha uruçu-nordestina, que produz um raro mel vermelho
Cor incomum do mel está ligada às plantas visitadas pelas abelhas e às resinas usadas na construção das colmeias
atualizado
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As abelhas são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas. Além de atuarem na polinização de plantas e culturas agrícolas, elas também produzem um dos alimentos mais conhecidos da natureza: o mel.
A substância costuma ter tonalidade dourada ou amarelada. Mas imagens que circulam nas redes sociais mostrando um enxame produzindo mel de coloração avermelhada despertaram curiosidade. O caso está associado a uma espécie específica de abelha sem ferrão conhecida como uruçu-nordestina.
No Brasil, existem mais de 250 espécies de abelhas nativas sem ferrão, grupo importante para a biodiversidade e para a produção de mel com características variadas.
Segundo o diretor-presidente da Associação de Meliponicultores do Distrito Federal (AMe-DF), Roberto Montenegro, a uruçu-nordestina é uma dessas espécies, mas aparece apenas em algumas regiões do país.
“A espécie Melipona scutellaris, conhecida como uruçu-nordestina, está restrita a estados do Nordeste, como Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe e Ceará”, explica.
Diferente das abelhas com ferrão, que utilizam cera pura para construir as colmeias, as abelhas sem ferrão produzem uma mistura chamada cerume. O material combina cera com resinas vegetais coletadas no ambiente.
A mistura é utilizada para construir estruturas internas da colmeia, como potes de armazenamento de mel e áreas de criação das larvas.
“A cera produzida pelas abelhas é clara, quase branca. Mas quando ela é misturada com resinas de plantas, forma o cerume, que pode ter cores variadas dependendo da vegetação da região”, afirma Montenegro.
Em algumas áreas, especialmente as próximas a manguezais, essas resinas podem ter tonalidade avermelhada. O agroecologista Victor Felix, pesquisador da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), explica que a coloração está relacionada às plantas visitadas pelas abelhas.
“A presença da cera vermelha está ligada às plantas que as abelhas visitam. Em áreas de manguezal e restinga, por exemplo, elas coletam resinas de uma planta conhecida popularmente como bugio, que pode dar essa tonalidade ao material da colmeia”, afirma o pesquisador apoiado pelo Instituto Serrapilheira.
Relação com a própolis vermelha
Esse processo também está relacionado à chamada própolis vermelha, um produto natural bastante valorizado. De acordo com os pesquisadores, a resina coletada pelas abelhas pode influenciar tanto a cor da própolis quanto a aparência do cerume usado na colmeia.
“Existe uma relação direta entre a cera avermelhada e a própolis vermelha, porque ambas são resultado da resina coletada pelas abelhas nas plantas”, diz Felix.
Essas substâncias têm diversas funções dentro da colmeia, como vedar frestas, proteger contra microrganismos e ajudar na manutenção do ambiente interno.

Mel pode ter sabores diferentes
A vegetação também influencia diretamente as características do mel produzido. Segundo os especialistas, o néctar das flores coletado pelas abelhas pode gerar méis com diferentes cores, aromas e sabores.
“Os méis produzidos por abelhas sem ferrão apresentam grande diversidade de cores e sabores. Mesmo uma mesma espécie pode produzir méis diferentes dependendo da flora disponível na região”, afirma Montenegro.
No caso das colmeias com cerume avermelhado, o mel também pode apresentar diferenças de sabor e composição. Isso acontece porque os compostos presentes nas plantas visitadas pelas abelhas acabam sendo incorporados aos produtos da colmeia.
Por isso, méis produzidos em ambientes específicos podem ser mais raros e valorizados, refletindo as características únicas da vegetação local.








