O lado oculto do golfinho: apesar de fofo, animal pode ser violento
Constantemente retratados como animais dóceis e amigáveis, os golfinhos têm atitudes agressivas que mancham a imagem do animal
atualizado
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É comum que golfinhos sejam retratados em filmes como seres extremamente dóceis. Na natureza, no entanto, nem todos os exemplares têm comportamento tão amigável e isso está justamente ligado ao nível de inteligência social elevado do animal.
Apesar de os golfinhos terem condutas de cooperação entre eles, observações científicas também identificaram situações de competição, manipulação e agressividade.
Espécies como o golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) já foram vistas tendo atitudes violentas, formando alianças para dominar outros indivíduos e disputar fêmeas e territórios. Também foram registrados ataques a outros animais sem a intenção de predá-los.
Até casos de agressão sexual coercitiva realizada por grupos de machos já foram observados, assim como infanticídios, situação que ocorre quando filhotes são mortos por outro macho para as fêmeas estarem disponíveis para o acasalamento.
Ainda assim, especialistas ouvidos pelo Metrópoles afirmam que a biologia não trata golfinhos como os vilões da história.
“É importante destacar que, do ponto de vista biológico, agressividade não significa maldade. Trata-se de um comportamento adaptativo, moldado pela evolução, que ajuda os indivíduos a sobreviverem e transmitirem seus genes”, explica o professor de biologia Flávio de Araújo, do Colégio Marista João Paulo II, em Brasília.
Segundo Araújo, espécies com maior inteligência social — como golfinhos, primatas e elefantes — esses comportamentos tendem a ser ainda mais complexos, envolvendo alianças, cooperação e conflitos.
O professor de biologia defende que a agressividade não é um comportamento visto apenas nos golfinhos e ocorre em várias outras espécies, sendo justificada através da situação em que o animal está inserido.
Por exemplo, disputas territoriais, competições reprodutivas, estabelecimento de hierarquia social, aprendizagem de caça e pressões ambientais são casos clássicos em que a agressividade é vista no mundo animal.
“Esses comportamentos não são exceções, fazem parte do repertório natural das espécies em ambiente selvagem”, afirma a ecóloga Morgana Bruno, professora da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Interação humana amplifica comportamentos agressivos
Apesar de a interação humana com golfinhos ser considerada normal e até um atrativo turístico, a intervenção na natureza é responsável por potencializar o comportamento agressivo dos animais. “Turismo intensivo, cativeiro, poluição sonora e degradação ambiental funcionam como fontes de estresse e desorganização ecológica, o que pode favorecer respostas agressivas”, diz Araújo.

Para entender o efeito das nossas atitudes, é necessário fazer um exercício simples: imagine chegar em casa cansado e encontrar uma festa muito barulhenta por lá. Além da poluição sonora, os convidados sujam o ambiente e pouco se preocupam em limpar. Agora pense na mesma situação acontecendo todos os dias. É exatamente o que ocorre com os golfinhos.
Além disso, a aproximação com humanos pode causar atitudes inesperadas dos bichos, como mordidas ou empurrões. “Eles perdem o medo e podem se tornar agressivos ao ‘pedir’ a continuidade da interação”, alerta Morgana.
É ético interferir nas condutas dos golfinhos?
O professor de biologia Flávio de Araújo defende que a pergunta a ser feita não é se devemos interferir ou não, mas por que os golfinhos estão mais agressivos?. “Se o comportamento surge dentro de dinâmicas naturais, a melhor atitude é respeitar. Se é intensificado por ações humanas, há responsabilidade ética de intervir — não para controlar o animal, mas para corrigir o desequilíbrio que criamos”, defende.
Já para Morgana, qualquer ação deve ter objetivo de mitigar os danos causados pelos seres humanos na natureza, como reduzir a poluição, e não tentar “ensinar” o animal a forma correta de agir. “Intervir para salvar um filhote de um ataque de um macho adulto alteraria a seleção natural e a dinâmica populacional”, diz a ecóloga.
