Groenlândia não é tão grande quanto nos mapas. Entenda a distorção
Devido às projeções cartográficas, a Groenlândia aparece em mapas como muito maior do que realmente é. Entenda a distorção dos mapas
atualizado
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Famosa por ter se tornado foco dos sonhos expansionistas de Donald Trump, a Groelândia parece enorme nos mapas, quase do tamanho do Brasil. Porém, na realidade, o território possui um tamanho aproximado da soma dos estados do Amazonas e da Bahia. Não é pouco, mas está longe de ser o gigante que aparece nos mapas.
A Groenlândia é apresentada de um tamanho maior do que é por causa da distorção da projeção de Mercator, que foi criada no século 16 e até hoje é a forma mais amplamente usada para representar o mundo em versão plana.
A projeção de Mercator transforma a Terra, que é esférica, em um plano. Para isso, tudo o que está perto da Linha do Equador é diminuído, e as regiões próximas dos polos aumentam.
A distorção histórica da projeção de Mercator
A projeção de Mercator, criada em 1569, foi amplamente adotada pelos navegadores europeus devido à sua capacidade de preservar as direções e ângulos dos países, mas gera alterações nas áreas dos territórios.
“Na prática, o uso dela nas rotas marítimas e aéreas até hoje se dá por manter os ângulos e direcionamentos. Ela distorce as áreas dos territórios, mas conserva as formas e a direção das rotas”, explica o curador-chefe do Museu de Ciências da Terra, Diógenes Campos, do Serviço Geológico do Brasil e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
A escolha dessa projeção tem raízes históricas e culturais e se tornou tão difundida, acredita Campos, por dar maior importância aos continentes do hemisfério Norte. A parte de “cima” do mapa fica com áreas maiores por causa da deformação, o que agrada países de maior prestígio no jogo geopolítico.
Não existe um mapa sem distorção?
Mas, se o mapa que usamos foi criado em 1569, com as novas tecnologias ainda não foi possível criar uma projeção mais eficaz do que a de Mercator? Sim e não. Sim, pois é possível mover objetos no mapa em representações digitais, corrigindo as distorções, como no site The True Size. Também é possível representar o mundo em globo, que não tem a distorção de um mapa plano.
No entanto, em um plano, é inviável criar uma projeção sem distorções. “É impossível fazer uma representação que não distorça. Isso foi provado matematicamente no teorema de Gauss-Egregium já no século 19. Uma projeção cartográfica precisa escolher qual aspecto deseja preservar, seja área, forma, distância ou direção, sempre sacrificando os outros”, afirma o professor de computação Jefersson dos Santos, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, apoiado pelo Instituto Serrapilheira em projetos sobre melhoramento de mapas geográficos com uso de imagens de satélite.
A distorção é mais acentuada nas regiões polares, que têm seu tamanho multiplicado em várias vezes para ter um circunferência de tamanho semelhante ao que o planeta tem no Equador. O dilema se torna evidente em mapas de Mercator que apresentam representações da Antártida, onde ela chega a ocupar metade da projeção.
Segundo o pesquisador, o mapa mais preciso que possuímos atualmente é o da projeção Equal Earth, criado em 2018, que, no entanto, ainda apresenta deformações visuais nos polos, ainda que elas sejam reduzidas. “A melhor maneira de evitar distorções é simplesmente não utilizar nenhuma projeção plana”, diz Santos.
Eurocentrismo nos mapas
É impossível negar que mapas têm uma forte carga histórica e muitos carregam um viés eurocêntrico. Além de aumentar o tamanho de países mais próximos ao Polo Norte ao adotar a projeção de Mercator, isso também reflete na costumeira adoção do Norte como topo e do meridiano de Greenwich como centro, o que posiciona Londres bem no meio dos mapas.
Esta é uma convenção social tão estabelecida que romper com ela, como quando o Brasil foi colocado no centro dos mapas do G20, causa estranhamento. Como a Terra é redonda, não há “cima e baixo”, ou “meio e fim” — é tudo uma questão de referencial.
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