Genética explica por que apenas 0,4% dos gatos tricolores são machos
Genes definem cores, padrões e olhos dos gatos e ajudam a explicar por que tricolores são quase sempre fêmeas

No Brasil, há mais de 30,8 milhões de gatos nos lares, segundo dados do Instituto Pet Brasil (IPB). Entre tantos animais, é possível encontrar pelagens de diferentes cores e padrões, além de olhos que variam entre azul, verde e amarelo. Essas características não aparecem por acaso, elas são resultado da combinação de diferentes genes.
É a genética que determina a distribuição e a quantidade de pigmentos no pelo e nos olhos dos gatos. Por isso, segundo especialistas, algumas características são comuns entre determinados grupos de animais.
A pelagem, por exemplo, depende principalmente de dois pigmentos. A eumelanina está relacionada aos tons pretos e marrons, enquanto a feomelanina produz as cores avermelhadas e alaranjadas.
“A cor dos gatos é determinada pela interação de vários genes envolvidos na produção, distribuição e quantidade dos pigmentos”, explica o médico veterinário Fernando Resende, professor do Centro Universitário Uniceplac.
Outros genes podem modificar essas características e produzir diferentes tonalidades. O preto, por exemplo, pode aparecer de forma diluída e resultar em uma pelagem cinza. Os genes também participam da formação de manchas brancas, listras e padrões específicos, como o observado nos gatos siameses.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA cor dos olhos também está relacionada à pigmentação, mas não é determinada exatamente pelos mesmos mecanismos da pelagem. Ela depende da quantidade, da distribuição e da atividade das células produtoras de pigmento na íris.
“Quanto menor a pigmentação da íris, mais o olho tende a parecer azul. Quantidades maiores de pigmento produzem tonalidades que podem variar do verde e amarelo ao cobre”, afirma Resende.
Por que os tricolores são quase sempre fêmeas
Os gatos com pelos pretos, laranjas e brancos são chamados de tricolores ou cálicos. A explicação para a predominância de fêmeas está nos cromossomos sexuais. Os genes relacionados às cores laranja e não laranja, como o preto, estão ligados ao cromossomo X. As fêmeas têm dois cromossomos X, enquanto os machos têm um X e um Y.
Uma gata pode receber uma variante relacionada à cor laranja em um dos cromossomos X e outra relacionada à coloração não laranja no outro.
“Durante o desenvolvimento do embrião, algumas células desativam um dos cromossomos X e outras desativam o outro. Isso cria manchas pretas e laranjas distribuídas pelo corpo”, explica a professora Christine Souza Martins, da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB).
Esse processo é chamado de inativação do cromossomo X. Ele faz com que diferentes regiões da pele mantenham cromossomos X diferentes em atividade. O resultado é um mosaico de células que produz pelos laranjas em algumas áreas e pretos em outras.
A terceira cor, o branco, surge por outro mecanismo genético. Nesse caso, determinadas regiões da pele ficam sem melanócitos, células responsáveis pela produção de pigmento. “O branco não é produzido pela inativação do X. Ele se soma ao mosaico laranja e preto. É essa combinação que produz o padrão popularmente chamado de tricolor ou cálico”, explica Resende.
Existem gatos tricolores machos?
Existem, mas são raros. Um estudo citado pela médica veterinária Giovana Mazzotti, que atua em Brasília, encontrou a pelagem tricolor em apenas 0,4% dos gatos machos avaliados.
Uma das explicações é a quimera, situação em que dois embriões se fundem durante a gestação e formam um único animal. Outra possibilidade envolve uma alteração nos cromossomos sexuais. Alguns machos tricolores apresentam um cromossomo X a mais, ficando com a combinação XXY, semelhante à síndrome de Klinefelter observada em humanos.
“Quase sempre esses machos são estéreis. Mas existem raros machos tricolores férteis, e isso ainda intriga os pesquisadores”, afirma Giovana.
Saúde e comportamento
Os genes participam da formação dos tecidos, do funcionamento dos órgãos e de diferentes respostas do organismo. Algumas raças de gatos apresentam predisposição genética a determinadas doenças.
É o caso dos Maine Coons, que podem ter maior predisposição à cardiomiopatia hipertrófica, e dos Persas, mais propensos à doença renal policística, segundo a veterinária Kamilla Dias, do Hospital Veterinário da Escola de Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Goiás (UFG).
No comportamento, porém, a genética é apenas um dos fatores envolvidos. A forma como o gato reage a pessoas, animais e situações também é influenciada pelas experiências que vive ao longo do desenvolvimento.
“A socialização durante o período de desenvolvimento, ambiente, alimentação, interação com pessoas e outros animais e experiências positivas ou negativas podem modificar significativamente o comportamento na vida adulta”, explica a veterinária.
Essas características seguem os mesmos princípios básicos de hereditariedade observados em outros mamíferos, segundo os especialistas. O que varia são os genes e as particularidades da espécie que participam da formação de cada gato.
