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Fuga de cérebros: o que o Brasil faz para evitar saída de cientistas?

Brasil busca conter fuga de cérebros com recursos e repatriação de talentos, mas iniciativas ainda não cobrem o rombo dos anos anteriores

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Cientista observa um microscópio. Cientista, pesquisador, médico, alzheimer - pesquisa ciência -
1 de 1 Cientista observa um microscópio. Cientista, pesquisador, médico, alzheimer - pesquisa ciência - - Foto: Solskin/Getty Images

O Brasil perdeu cerca de 6,7 mil cientistas entre 2015 e 2022, segundo estimativas do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, ligado ao Ministério da Ciência e da Tecnologia (MCTI). Entre os fatores que levaram milhares de pesquisadores a saírem do Brasil estavam as bolsas de incentivo que ficaram congeladas por quase uma década e cortes em verbas de laboratórios.

Desde o início do governo Lula, porém, há um esforço para repatriar os cientistas que decidiram levar suas pesquisas para fora do país. Embora o esforço tenha rendido resultados, as instituições ouvidas pelo Metrópoles indicam que eles ainda estão longe de conseguir cobrir o rombo que foi deixado.

“O cenário atual não quer dizer que a situação para os titulados está boa no Brasil. Continuo insistindo: não está. Enquanto o país não considerar que educação e ciência são relevantes para o desenvolvimento econômico, além do social, isso não vai mudar”, afirma a presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Nader.

Ela aponta que os valores das bolsas ainda são muito baixos e que não há dados suficientes sobre os cientistas que vão e que ficam. “Temos um impacto de redução na saída de pesquisadores, mas boa parte deles ia para a Europa ou Estados Unidos e as questões de geopolítica também não têm ajudado. Mas ainda não temos dados para entender o que tem os motivado a permanecer e em qual nível está a fuga de cérebros. Precisamos de informação”, explica.

Aumento das bolsas e crise com os EUA

A principal iniciativa do governo, tomada no início de 2024, foi o anúncio de um aumento de 44% nos recursos para CNPq e Capes, as duas principais instituições do governo que oferecem bolsas para pesquisa.

A medida buscava justamente reverter o ciclo de evasão e estimular jovens cientistas a permanecer no país. O primeiro edital foi publicado em 2024 e contemplou pouco mais de 600 pesquisadores. O resultado só saiu em junho de 2025. Os valores concedidos para a realização das pesquisas em universidades brasileiras variam de R$ 88 mil a R$ 1,3 milhão.

Outra iniciativa do programa é apoiar pesquisadores que querem continuar no exterior, mas que têm parte da pesquisa sendo executada em instituições no Brasil. A chamada foi publicada em dezembro de 2024, mas é mais modesta, com menos de 25% do orçamento da primeira.

O acirramento das relações com os Estados Unidos, com vários brasileiros ameaçados por cortes nas pesquisas por lá, intensificou o programa. “A medida busca responder à efervescência de cérebros diante da crise geopolítica global, especialmente em países que restringem a liberdade acadêmica. No Brasil, há liberdade para criação, pesquisa e desenvolvimento. Afinal, esse é um grande patrimônio da nossa ciência”, afirmou a Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, em comunicado à imprensa divulgado na terça-feira (26/8).

Obstáculos e perspectivas

Apesar do novo cenário, persistem as dificuldades estruturais. A pesquisadora Cristina Caldas, diretora do Instituto Serrapilheira (instituição privada e sem fins lucrativos que dá apoio à ciência no Brasil), avalia que o ritmo de saída diminuiu, mas a burocracia ainda é um entrave para pesquisadores.

“As iniciativas de repatriação devem vir acompanhadas de modernização. Os processos de acesso a recursos no Brasil são muito longos e exigem uma quantidade de prestação de contas muito robusta. Além disso, o excesso de carga didática em universidades é uma reclamação constante dos cientistas que a gente apoia. Essa estrutura acaba realmente afastando os pesquisadores”, diz ela.

Cristina defende mais financiamento público e que ele seja contínuo, mas que também seja associado à flexibilidade no uso de verbas. Ela destaca que o investimento na pesquisa em áreas estratégicas não deve ficar apenas a cargo do governo.

“Seria muito válido para o Brasil ter mais atores privados apoiando a ciência e atuando de forma conjunta, em parceria, de forma colaborativa com o financiamento público. Sinto que está aumentando nos últimos anos, mas a gente ainda está muito distante do nível de investimento feito nos EUA ou na Europa”, indica a diretora.

Helena concorda com a colega. “A maioria dos nossos empresários vê o lucro imediato. Falo da maioria, não todos. Muitos não olham que esse é um investimento que vai fazer e trazer retorno. Continuar classificando despesas com educação em ciência como gasto, e a bolsa de valores como investimento, mostra o erro da nossa nação”, defende.

O desafio é equilibrar a recomposição de investimentos com a criação de condições institucionais mais ágeis. Para especialistas, só assim o Brasil conseguirá competir em setores de ponta e evitar a perda de profissionais qualificados.

Conter a fuga de cérebros não depende apenas de repatriar talentos, mas de transformar o ambiente de pesquisa em espaço capaz de sustentar inovação, reduzir desigualdades e projetar o país no sistema científico global.

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